segunda-feira, 31 de outubro de 2011

PEQUENA ODE NAUFRAGADA

Não tenho medo, mas também não tenho coragem.

Cobarde! Fraca! Mas sem medo.

Por isso mesmo um tanto sem juízo

Mas oportunista.

Pois nada tão oportunista

Quanto alguém sem juízo.


Lá de fora correm carros

Engarrafados

E jogados ao mar, carros

Como bilhetes de náufragos

Sem saber aonde chegar

Mas com a expectativa de chegar

Marulhando na onda que leva

Como me leva, e eleva, leve eu

Que não temo em ter esperança:

Garrafas ao mar! Mãos ao volante!

Acende a vela do destino!

Ela lume vagamente

Bruxuleia com o tempo

Magicando encantamentos.


Olhei lá de fora e dessa vez o que vi

Foi uma flor morrendo.

Olhai aqui dentro: a flor é bela

Mesmo quando fenece: é bela.

Que belo então o morrer da esperança!

A flor verde dos amantes

Secando com o correr das lembranças!

Inda bela mesmo sob a débil

Melancolia do adeus:

Lá os bilhetes em garrafas jogados ao mar.

Aqui a espera demorada sem ter onde descansar.

Cobarde! Fraca! Sem coragem de acreditar!

Me vi náufraga naufragada

E ousei decidir ousar:

Não tenho medo

Pois nunca sei aonde vou chegar.


in.: os cadernos p/mim mesma

terça-feira, 25 de outubro de 2011

poema de mesa de bar

Peregrina de diálogos
Na beira das mesas
Eu, essa orbe de incertezas,
Realizo meus monólogos.
Não há mais filósofos
Nem poetas.
Quanto mais profetas!...
Só há peregrinos:
Incontáveis viajantes
Estrangeiros em si mesmos.
Eu? Não seriam eles?
Os ventos de ontem? Os meses?
As vezes em que me perdi.
Os risos que não soube rir.
Não há vida além da vida.
Todos vão e tudo oscila
Sem nunca realmente vir.


in.: os cadernos pra mim mesma

21-10-11

terça-feira, 18 de outubro de 2011

na cachoeira

O urbano invadiu o mato:
Pixaram as pedras da cachoeira.
E lá em cima do morro botaram fogo.
Ali do meu lado meninos de 12 anos fumam cigarro: não os conheço, mas sei que estão perdidos.
E eu sem rumo: escuto o barulho da cachoeira,
canções da natureza nas cigarras que acompanham o sussurrar das águas nas pedras.
Estou melancólica mas o dia está lindo:
ali nuvens cinzas anunciam novas tempestades,
acolá o sol esquenta as rochas onde pixaram sem piedade:


Quem fuma maconha também sou eu.
Quem pixa os muros e os sonhos também sou eu.
Quem escolhe dar os primeiros tragos também sou eu.
Quem taca fogo no mato também sou eu.

E o que é bom e o que é ruim: eu também.

in.: os cadernos p/ mim mesma
out/2011

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

sobre o meu tempo

Vejam: eles esperam a Hora do Apocalipse. Eles esperam e eles somos nós, homens da contemporaneidade digital, mergulhados na descrença alienante de nosso tempo.
Que tempo é esse?
Tempo onde o real se reduz cada vez mais, onde o virtual comanda e a vida se torna rarefeita. Tempo dos relacionamentos descartáveis, dos amores transgênicos, das paixões democráticas.
E como abomino a democracia, essa faca de dois gumes que nos lega o silêncio de todas as minorias, essa ditadura camuflada onde os generais são as corporações financeiras.
O tempo do meu Brasil de PCCs: Pestilentos Coronéis Corruptos que perpetuam o atraso de séculos de exploração. As incontáveis licitações superfaturadas. O crime consentido a mando da ganância.
Pecado! Pecado! O tempo das evangelizações vazias! O tempo das religiões corporativas! O tempo dos padres que pecam!
Eis a minha geração que se apresenta nas minhas frases cheias de desesperança e agonizar.
Esperamos o Apocalipse, pois não há mais no que acreditar.
Esperamos o fim, espreitamos algum despertar.
No amanhã
Alguma luz
se descortinará...

in.: os cadernos p/ mim mesma
out/2011

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

sobre estar só

Nunca dantes tão só:
Me atravessa o frio da existência.
Tão minha, mas de tão múltiplas essências...
O gélido ardor da solidão...
Não só minha,
Mas de todos os antepassados.
Onde estão eles, dentro de suas mortes tão suas?
Onde residem eles em mim,
Dentro dessas minhas veias tão vivas?...
Mistério em cada porção de ar que respiro.
Inegável medo
Do coração que,
Involuntário,
Bate no peito.
Eu!
Respiro!
Eu!
Suspiro!
Eu!
Retiro inalcançável até para mim, que sinto
E cheiro e ouço e vibro
Tudo isso que sou quando existo.
E me firo. E vomito. Dou um grito
E peço água: estou só...
Será que existo?


in.: os cadernos p/ mim mesma

04-10-11