quarta-feira, 30 de junho de 2010

A EMOÇÃO MOMENTÂNEA

As emoções são explosões,
Sacodem mundos e, portanto,
É conveniente evitá-las.

No entanto, "sabemos-nas" à espreita
E elas num mover de olhos nos assomam.

Eis a solidão dos carentes de amor
O orgulho dos arrebanhados em ego
O rancor dos desenganados
O medo dos imaturos.
Eis tudo: emoções que nos assomam,
Homens e mulheres,
Flores e espinhos.

A emoção tão minha
Tão sua
Tão nossa que ...
Nossa!
É conveniente evitá-las.


(pensando no patétido do Schiller)


in.: os cadernos para mim mesma, 16-06-10

quinta-feira, 24 de junho de 2010

TCHEKHOV, Anton

"- E a imortalidade?
- Ora, mudemos de assunto!
- O senhor não acredita, bem, mas eu acredito. Numa obra de Dostoiévski ou de Voltaire alguém diz que, se Deus não existisse, seria inventado pelos homens. E eu creio profundamente que, se a imortalidade não existe, será inventada cedo ou tarde por uma grande inteligência humana."


in.: Enfermaria nº 6
Tradução de Maria Jacintha e Boris Schnaiderman

quinta-feira, 17 de junho de 2010

BURROUGHS, William e GINSBERG, Allen

Carta de Allen a Bill durante a viagem ao Peru onde esteve a comungar o yage, ou ayahuasca

10 de junho de 1960


"Ayahuasca pode ser engarrafada e transportada e mantém-se forte, se não fermentar - a garrafa precisa estar bem fechada. Tomei uma xícara: a mistura estava um pouco velha, tinha sido feita há muitos dias e um pouco fermentada também; deitei-me e depois de uma hora (numa choça de bambu, [...] comecei a ver ou sentir o que pensei ser o Grande Ser, ou alguma de suas manifestações [...]
Bem, encurtando a história, fui a uma sessão de grupo formal ontem à noite - dessa vez a mistura estava fresca e apresentada com todo o cerimonial, ele cantarolava (e assoprava fumaça de cigarro ou cachimbo) docemente sobre a xícara alguns minutos antes [...], então acendi um cigarro, dei uma baforada sobre a xícara e bebi. Vi uma estrela cadente - aerolito - antes de entrar, e a lua cheia, e me serviu primeiro. Então deitei-me esperando sabe Deus que outra visão agradável, então começou a bater e então toda essa porra de cosmos desprendeu-se à minha volta, acho que foi a coisa mais forte e pior que já me aconteceu [...]
senti-me como uma cobra vomitando o universo, ou um jívaro de cocar com dentes de cobra vomitando ao compreender o Assassinato do Universo - minha morte por vir - a morte de todos por vir - ninguém está preparado - eu não estou preparado - ao meu redor, nas árvores, o barulho desses animais espectrais, os outros bebedores vomitando (parte normal das sessões de Cura) na noite de sua horrível solidão no universo - vomitando sua vontade de viver, de ser preservado nesse corpo, quase - [...]
Toda cabana parecia rajada de presenças espectrais, todas sofrendo transfigurações pelo contato com uma única coisa misteriosa que era nosso desino e que, mais cedo ou mais tarde, nos mataria [...] criaturas espectrais colocadas aqui misteriosamente para viver, serem Deuses vivos e sofrerem a Crucificação da morte como Cristo, mas se perdem ou morrem na alma ou entram em contato e têm um novo nascimento para continuar o Processo de ser (apesar de eles mesmos morrerem, ou não?

[...] disse que quanto mais se satura de ayahuasca, mais fundo se vai - visitar a lua, ver os mortos, ver Deus - ver os espíritos das árvores etc.

[...] essa quase esquizofrênica alteração da consciência é apavorante.

Resposta de Bill a Allen

21 de julho de 1960



"Não há nada a temer. Vaya adelante. Olha. Escuta. Ouve. Tua consciência ayahuaski é mais válida que a sua "consciência normal"?"Consciência Normal" de quem? Por que voltar a ela? Por que está surpreso em me ver? Você está seguindo meus passos. Conheço vosso caminho. Sim, conheço a área melhor do que você pensa. Tentei contar a você mais de uma vez, comunicar o que sei. Você não ouviu, ou não conseguiu ouvir. "Não se pode mostrar a alguém algo que essa pessoa não viu." Hassan Sabbah citado por Bryon Bysin. Ouviu agora? [...]"





in.: Cartas do yage.
William Burroughs & Allen Ginsberg
Tradução de Bettina Becker

terça-feira, 8 de junho de 2010

a força da alma que suporta o corpo

(...)
Tenho fome. O estômago vazio faz pesar todo o corpo. Talvez por isso o Ramadã seja fortalecer a alma.
Haja força espiritual para suportar o peso.


in.: os cadernos para mim mesma

terça-feira, 1 de junho de 2010

uma descoberta

Há dias que tombo na cama procurando os sonhos mais profundos e neles mergulho como se fosse nunca mais voltar. Grande descoberta, essa da eternidade, presença divina a vibrar nos átomos, matéria do invisível enredando o nada.
Sou assim: como nunca fui ou serei.


in.: os cadernos para mim mesma

segunda-feira, 31 de maio de 2010

aleatórias

Entre os sons do anoitecer e sob as luzes que começam a se acender. Observo meu corpo mudado pelos anos, minhas mãos de rugas simples, as pintas na pele que o Sol cavou. Respiro os sons. Ouço o medo da tarde morrendo. Sinto o espírito do invisível correndo pelas coisas e trago mais fumaça enquanto o paioso em brasa queima, na minha mão a caneta chora uma lágrima de entendimento.


in.: os cadernos para mim mesma

sábado, 29 de maio de 2010

vamo lá no guapuruvu

Na liga!
Rememorando os guapuruvus
Verdes e balouçantes
Os amigos internacionalmente candangos
As estórias dos drãos e dos manos
Romanos ou ciclanos
Fulanos em ônibus e satélites
Ensandecidos pela vida
Nascidos em Taguatinga
Crescidos na Ceilândia
E amados no Plano Piloto
Os manos que lindos gritam na UnB
Quem ama, cola no Gama
Fi
De deus como eu.


in.: os cadernos para mim mesma

domingo, 23 de maio de 2010

parafraseando eu mesma

Bom dia professor.

Deus te abençoe nessa manhã aberta: é a alegria da geléia e a excitação do café: o dia divino de cada momento único. Ah! Escolhas: goiaba ou framboesa? De que me vale a certeza? Escolho sempre dividida e a escolha é essa: perder-se pelas linhas. Nesse momento o auditório da EAPE lotado, vamos seguindo e fazendo história: manada de bois que determinam os destinos das paisagens infantes, as virgens que saltitam pela Terra. Veja: é tão simples: destrua todas as cartas em que talvez eu tenha mencionado minha mãe e guarde as outras dentro de um grande e grosso saco sobre um assoalho antigo e lá esqueça, até que tenha esquecido também de mim e o tempo tenha por sua vez se esquecido de nós e possamos descansar sem culpa ou rancor.

É isso, professor.

Quem te escreve não é sua aluna, é um reflexo do que ela foi.

Estamos do outro lado e adentramos o mistério e é o mesmo barco: construído como queremos e ele ainda flutua, onde nasce a luz e o buraco negro apesar dos pesares.

O Gessinger já sabia ao sabor do acaso.

Morre.

Flutua.

Entende?

Revulocione!

O trabalho mercantil é burrice.

Trabalhe de graça, como os poetas!

Abraços de pupila



in.: cartas p/ o professor

quinta-feira, 20 de maio de 2010

UBALDO RIBEIRO, João

"(...) A alma não aprende nada enquanto alma, necessita da encarnação para aprender, (...)
Há poucas almas novas, embora todos os dias algumas sejam criadas, na grande sopa cósmica que rodeia os planetas e as constelações. Sabe a moderníssima Biologia que, há muitos e muitos milhões de anos, não existiam seres vivos, mas as substâncias que hoje os compõem boiavam soltas no caldo primordial dos mares e então, num lindo dia de sol, a luz bateu sobre algumas dessas substâncias bem ha hora em que o balanço das ondas as aproximava, com o resultado de que apareceu algo vivo pela primeira vez. A mesma coisa que os sábios mostram ser tão simples se dá com as alminhas novas, quando se formam na grande sopa cósmica. As alminhas são como certas partículas de matéria, também descritas pela moderníssima ciência, que têm cor, sabor e preferências, mas não têm corpo nem carga. Tanto as alminhas quanto as partículas não obstante existem, tudo dependendo da inquantidade de nada que não entra em sua incomposição e, com quase toda a certeza, de outras condições científicas, tais como pressão, temperatura e a presença de bons catalisadores para reações de nada com nada. Então, nas amplidões siderais, imensuráveis e copiosas não-massas de nada escorrem, obviamente sem qualquer velocidade que lhes seja inerente, para juntar-se nas proximidades de algum poleiro d'almas. Se o nada procura os poleiros d'almas ou se os poleiros d'almas procuram o nada, não há como saber. O fato é que, nas vizinhanças de um poleiro d'almas, o que ocorre é nada, nada por todos os lados, uma infinitude de nada inimaginável em toda a sua inextensão. Nada e mais nada e mais nada e mais nada ali se vai aglomerando, até o ponto em que se acumula tanto nada que ele se transmuta num nada crítico e desta maneira surge algo desse nada. Não mais é, essa repentina não-forma do nada, que uma almazinha nova, inexperiente e inocente como todas as criaturas muito jovens, por isso mesmo sujeita a grande número de percalços, pois a única coisa que sabe é que deve ir para o Poleiro das Almas, empoleirar-se com as outras e esperar a hora em que terá de encarnar para aprender. (...)
Quando, fortuitamente, o Poleiro das Almas está repleto de almazinhas recém-nascidas, a agitação febril de tantos jovens ansiosos pelo aprendizado e pelo cumprimento de suas sinas chega a fazer fibrilar o cosmo e a perturbar um pouco o perfeito funcionamento dos relógios astrais e demais mecanismos celestes. Nesses casos, é comum que, em revoadas nervosas e espasmódicas, como lavandeiras que estejam a mariscar e sejam espantadas por uma pedra, as almas novas desçam iguais a flechas em direção ao planeta, chispando de um ponto a outro com a velocidade de relâmpagos, até acharem um ovo, um útero, uma semente, algo vivo para animar. E, naturalmente, não descem como desceriam se fossem corpos, talvez propriamente nem desçam, já que suas trajetórias são simultaneamente perpendiculares aos planos de todas as três dimensões e, se não é possível compreender isto, é porque pouco se compreende de quartas, quintas ou sextas dimensões, inclusive as almazinhas, que, assim, antes de chegarem, nunca sabem onde estão. E dá-se muito que a primeira encarnação das almazinhas não seja em gente, mas em bicho ou planta, (...)

in.: Viva o Povo Brasiliero

domingo, 16 de maio de 2010

brasília e memória místicas

Vida frenética e sem freios, espevitada e desastrada, escorregadia e indecifrável! Ah, mal sobra tempo para as coisas boas da vida: a soneca depois do almoço, as cartas para os amigos, os banhos de cachoeira, os passeios pelo pôr-do-sol...

Mas não há tempo a perder: vou ser feliz agora mesmo, quando te vejo chegando no aeroporto visitando essa Brasólia seca e esquisita. Cá estamos na capital corrupta do país. Mas veja: os hospitais estão em ruínas e a Câmara Legislativa tem até cinema: imponente e exibida no eixo monumental dos superfaturamentos! Veja: as escolas estão ao léu, os pontos de ônibus são feios, as obras estão paradas: ô cidadezinha mal amada essa viu!

(...)

De qualquer forma, podemos esquecer tudo isso e assistir os filmes gratuitos no Cine Brasília ou pegar o ônibus de graça pro CCBB e ver qualquer exposição que lá esteja. Ou ainda podemos ver o pôr-do-sol na Ermida (o ruim é chegar lá de ônibus) e se deslumbrar com esse céu maravilhoso. Depois a gente passa na rodoviária do Plano Piloto e come um pastel na Viçosa. Aproveita e passa na farmácia e compra um sal de fruta e vai dar uma olhada nos produtos dos ambulantes. Tem uns hippies artistas que de vez em quando pintam em frente do Conjunto Nacional. Depois a gente arruma grana, pega um táxi e vai pro Cine Academia ver algum filme alemão ou iraniano.

Seria legal.

E assim, imaginando, te encontro por essas bandas daqui, mesmo você estando nas bandas daí.

Mas cá eu, aprendendo a ser melhor e tentando sanar as dores, trabalhando despreocupadamente e esperando a UnB sair da greve. Pensando nas filosofias. Amando os amigos. Torcendo por dias melhores. Ruminando as dúvidas.

Fico imaginando como você anda e logo penso: com as pernas, é claro! E aí sorrio e penso na beleza charmosa do olhar oblíquo e no sorriso seu aberto e delicioso. Aí agradeço a Deus por ter criado os seres e busco no coração a oração mais apropriada.

Ahôôô! Ê trem bão divino!

Somos pequenos cristais vibrando as energias do espírito! Alegria e tristeza em doses individuais! Mensageiros do amor e guerreiros do bem!

Ahôôô!

É bom viver

Também é bom.

Ensinamentos que nos trarão tesouro,

Essa vida.




in.: cartas p/ vivi

terça-feira, 11 de maio de 2010

aleatórias

É hora de recomeçar. Por onde andamos? Jovens da era sem nome, essa do agora.
Bem antes de nascer eu temia o nascimento mas corria pelos reinos do espírito feito criança a brincar, para esquecer da noite em que dormiria para renascer.
(...)
Aonde vamos é mistério para todos.
O que queremos só não é mistério para nós.

in.: cartas secretas p/ D.

domingo, 9 de maio de 2010

yindo e yangando II ou pêndulo giratório

(...)
negra me visto não pelo sinistro desta cor mas pela beleza do branco brilhoso no negro arrebatador do espaço: "luz que se fez então... a dor da respiração..." Nasci.
Eu era estrela
No céu pulsante
Vibrei e descobri a alegria
Mudei e fui descoberta pela tristeza
Assim sucessivamente

in.:cartas p/ dulcinéia

terça-feira, 4 de maio de 2010

DOMINGO 2 PELA TARDE

Debaixo de duas árvores das favoritas
Entre a loucura e a preguiça
Deita a voz do ser humano só
Eu.
Dentre eus, Deus.
Palavra anunciada sob a lótus de minhas pernas.

Eu de Deus e Eu e Deus
De mãos dadas
Em qualquer lugar debaixo de duas árvores das favoritas.

Os pássaros param
A dor é sentida.
No leito da Terra a
Solidão espera.

in.: os cadernos para mim mesma

domingo, 2 de maio de 2010

yindo e yangando

E tenho sido mais grata ainda, nesses dias em que encontro ainda mais seres humanos que me comovem. O amor brota aos borbotões: me apego aos amigos com a serenidade de uma ermitã solitária: sei que eles também irão embora um dia, mas aprecio cada segundo em que tenho a companhia deles, e sei que sua lembrança estará para sempre comigo.

Nem tudo são flores, contudo. Por vezes acordo amaldiçoando a vida e praguejando com o sol. Às vezes sinto Deus distante como uma idéia vaga. Outras vezes deixo cair lágrimas pela minha condição [...]. E, no entanto, sei que tudo é questão de tempo e, num piscar de olhos, lá estará eu agradecendo a vida e admirando a beleza desse mundo. É o espírito do invisível se revelando diante de meus olhos incrédulos. E então a idéia de Deus se me torna íntima, e eu sou toda agradecimentos.



in.: cartas para amarante

terça-feira, 27 de abril de 2010

VERÍSSIMO, Érico.

"Um dia caiu um raio na casa do velho Galvão, matando-o e ferindo-lhe a filha. 'Deus castigou. Eles eram muito malvados.' Além do castigo da professora, do castigo dos pais da gente, havia então um castigo maior e mais tremendo - o castigo de Deus?
Eugênio temia esse Deus que em vão a mãe lhe queria fazer amar. Quando à noite rezava o 'Padre nosso que estais no céu...' - ele imaginava um ser de forma humana mas terrível, misterioso e implacável. Era invisível mas estava em toda parte, até nos nossos pensamentos.
(...)
- Se Deus existe, então por que não se revelou?
- Porque até Deus precisa de oportunidades. (...)
- Se Deus existisse, eu já o teria encontrado.
(...)
- Vocês ateus nos querem tirar Deus para nos dar em lugar dele... o quê? É o mesmo que tirar pão da boca de quem tem fome e dar-lhe em troca um punhado de cinza ou de areia.
(...)
- Não te esqueça de que Cristo ressuscitou Lázaro. (...)
- Isso foi no tempo em que Jesus andava pelo mundo. (...)
- Mas Jesus ainda anda pelo mundo. Será preciso que a gente só acredite no testemunho dos cinco sentidos? Jesus nunca deixou de estar no mundo. O pior cego é aquele que não quer ver.
Ele sacudiu a cabeça com obstinação. Não lhe era possível distinguir a imagem de Jesus no meio daquele matagal cerrado de problemas, idéias confusas, conflitos, interesses cruzados, dúvidas e baixezas. E, se Jesus ainda estivesse na terra, decerto como medida de defesa se tinha adaptado à miséria do mundo, como um camaleão. Quis dar palavras a esta idéia. Um secreto temor, porém, o deteve. "


in.: Olhai os Lírios do Campo

domingo, 25 de abril de 2010

descrição

Dentro do ônibus
Balouçando a caneta
E ainda desencontrada
Pela força de ervas sagradas
Cipós de braços milenares
Entrecortada pelo espírito do ônibus
Nessa manhã de domingo candango
Buscando força no sonho
Na luz que por mim atravessa
Os cantos de espíritos ancestrais.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

BRASÍLIA 50 ANOS

A esquadrilha da fumaça dá rasante pelo céu. Sou tomada pela minha tristezaalegre enquanto o feriado no parque da cidade pinica sob a sombra gostosa de uma árvore e eu penosa tento recolher os cacos da minha intrigante história. Com lágrimas nos olhos e sorrisos nos lábios desfaço meu tempo desacreditando no amanhã e buscando toda a enorme força do hoje em que me espelho: reflexo mutante como a Brasília Elefante que se me atravessa com a esquadrilha da fumaça passando novamente no céu que se azula amarelando as nuvens. Que houve com os sonhos de Brasília? Em que latrina deram nossos representantes!
Mas o avião novamente
A ex-quadrilha
De novos candangos
Atravessa o céu da poesia e,
Quem diria
Sonha com dias melhores
Em ressacas de shows gratuitos.
Pedalando bicicletas em tardes verdes
No parque da cidade
Renatando as camelas
Recortando a semântica
Destilando os venenos
Amaldiçoando folhas de arruda
Impotente diante dos jornais
Ouvindo GOG dar idéia
E todo mundo ouvir
E ninguém fazer nada
E beber mais uma gelada
E fumar mais uma marafa
E ninguém sem fazer nada
Os pobres ouvindo, os pobres morrendo
Os ricos sorrindo, a miséria crescendo
E Brasília escancarada:
Babilônia
sodomizada!
Senhor Deputado,
onde quer levar o dinheiro?
No pé ou na bunda?
Meia ou cueca?
Que vexa!
Brasíla 50 anos. Onde sonhastes teus sonhos?
Teus filhos são tão medonhos
Teus risos, aleatórios
Tuas pragas,
licitações roubadas.
Assim termino, com uma trava no verso, diante de meus excessos da vida que me vivi, dos sonhos que deixei desacreditados.
Da descrença mórbida diante do futuro do capitalismo totalitário.
Eu sou Brasília
No verso que é desenhado.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O VIOLETAR-SE

Posso dizer que estou redescobrindo-me e essa é a chance de compreender melhor a solidão e não mais temê-la, pois tudo tem sua razão de ser.

Estou cansada de obsedar-me.

Hoje pela manhã a tristeza soou viciada e cega, inescrupulosa tristeza. Me pegou pelas costas, deu-me uma chave de braço e me imobilizou no chão.

Não é momento de explicar-te: é momento de descrever-te o tom: o tom cinzento azul do momento, em breve violetar-me-ei.

A cura vem de cima e dos lados.

Estou cruzando oceanos de milênios.

As vidas, os castigos, os prêmios.

Transmigrações.


in.: cartas p/ amarante

terça-feira, 13 de abril de 2010

VERÍSSIMO, Érico.

"- Mas vosmecê nunca pensa em Deus?
- Uma vez que outra.
- Não reconhece que Ele fez o mundo e todas as pessoas que há no mundo?
- Se Deus fez o mundo e as pessoas, Ele já nos largou, arrependido.
- Não diga tamanho absurdo! Se Ele tivesse largado, tudo andava de pernas para o ar.
- E não anda?
[....]
- Deus escreve direito por linhas tortas.
- Mas o diabo é que ninguém sabe ler o que Ele escreve."

Diálogo entre o Pe. Lara e Capitão Rodrigo Cambará
in.: Um Certo Capitão Rodrigo.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

contatos

Não tenho mais prisão
Pois o espelho é a trapaça
E o ego a ilusão.
Estou sob ondas de luz sem nexo
Rogando a anjos
Sonhando com rimas
Pedindo cores.
Uma aleluia albina pousa sobre meus pés descalços.
Os grilos me abraçam.

in.: os cadernos da chapada, vol. III