terça-feira, 4 de agosto de 2009

mais palavras

A noite cai. Eu caio junto. Esperando o sabor das estrelas.

Espero o tambor tocar na minha goela e a voz gritar:

Palavra! Chuva cósmica a descer no manto da noite infinda...

Venha dar lugar à minha cadeira de poeta.

Minha vida entorna mistérios: são sonhos e desavenças,

São ritos inquestionáveis,

Peças que desencaixam.

É o leite entornado no chão e o pedido de socorro.

Palavra: traga-me Deus de bandeja pois ele almeja

Ser presença

Ou desavença,

Repetição,

Pecado,

Sexo.

Amargo.

PALAVRA! Diga-me, quem vem lá?

Combinação mágica de fonemas que significam minha vida e

A vida daquela menina que acabou de passar

Inocente no meu horizonte simbólico

De areias que se escorrem em ampulhetas

Que se derretem no nada

Que prenuncia o fim do poema

E a redenção da palavra

Que anseia ser eterna

E morre com minha vida nos braços

Que lânguidos caem com o último suspiro

Da última,

Palavra.



In.: cartas para o professor

sexta-feira, 31 de julho de 2009

SEM TÍTULO

A noite desceu indistinta.
Sem perceber sorvi de sua escuridão devagar.
De repente eu era a Lua que desaparecia
De um lado do mundo para reaparecer em outro.
Mudei de face.
Enchi-me da cor dos astros
E adormeci noturna.

In.: Os Cadernos da Chapada

quinta-feira, 30 de julho de 2009

OS SETE CAPITAIS

Imagine: o ensino superior. Que indústria, hãn? Como as instituições de saúde ou as igrejas: todos vendidos a um preço de mercado, ações fantasmas, estagnação humana.
Há uma verdade monetária em nosso cotidiano. A luta pela sobrevivência pressupõe o lucro. Tempo é dinheiro. E dinheiro é negócio que é propaganda, a alma. PU – BLI – CI – DA – DE ! ! !
Vendamo-nos pois queremos sucesso. Sim! Carro modelo seu e casa arquitetada especialmente ao sabor do seu gosto. Sim! Pessoa bem sucedida não espera ônibus. Sim! Eu quero ser califa no lugar do califa!
Compremos os títulos! Ações! Mentiras!
Bem vindo ao paraíso dos 7 pecados: os capitais. A SOBERBA desfila essa noite, venha participar dessa espetacular experiência de sondar o insondável e querer o impossível que se faz palpável.
Compre pecados a prestação. Via internet você os recebe.
Oh, GULA! Delícia de visão nos braços da LUXÚRIA, mulheres minhas de aluguel. Beijam-se em lençóis vermelhos enquanto ORGULHO as observa com os olhos lacrimejantes a olhar a tela da câmera digital. Sim, elas se beijam e se entrelaçam nuas, únicas na noite cheia de soberba.
“-Beba!” – sussurra-me no ouvido, a AVAREZA. Como se lhe assaltasse um surto de generosidade, ela quer me conquistar, estou lisonjeada. Bebo: o vinho é profundamente vermelho, meus lábios se pintam de doce e eu me deito com ela. É a cama que abriga um terremoto. E eu que me mergulho nela. Fim. Alvo reto! Gosto meu cheio de primícias peculiares. Ela que me suspira! Ira! IRA!
E por fim, a PREGUIÇA, deitada nos meus sonhos a dormir profundamente.
iN.: cArtAs P/ HelÔ (RevIsItAdAS)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

ovoNovo

Escrevo-te pois soa em mim o timbre do estranhamento:
Tudo é Nada e é Novo, de Novo, Ovo.
Coração descompassado: quem é ela?
É a árvore? A espera?
É Letícia? Daniela?
Não, é ela. Que zumbe voando rasante para além de meu ouvido:
Ela sem nome, sem umbigo.
Um raio de sol ou gota de orvalho,
Um novo andar por um novo assoalho.
De madeiras milenares
De estórias incontáveis.
Ela invisível que ruge no verso,
No avesso do inverso,
Do poeta que vive.


In.: cartas para felipe

segunda-feira, 22 de junho de 2009

mais tecitura de signos

Procuro as palavras e encontro barulhos: bater de picaretas, soar de vozes, explosões de neurônios. Dendrito, axônio, núcleo, dendrito. Palavras e líquidos, livros, idéias. Eu vejo a face da morte por detrás da máscara do espelho. Não há imagem sem dualidade, e o dois é a morte do um. Procuro as palavras e encontro os números, as multiplicações dentro dos integrais, o big bang desmascarado, o mistério do mundo desvelado pela matemágica do pensavento, ou algo assim.


In:cartas para heloisa

quarta-feira, 17 de junho de 2009

a alma, o espelho, e deus

"The mirror is round and entire, he said: like a soul that is in union with God. The soul reflects the dazzling beauty of God. In so far as the soul turns towards this beauty, it participates in it. By receiving the image of God it is transformed, and ends up sharing the very beauty it has sought and to which it has opened itself. God becomes part of the soul.
(...)
Why are we so often frightened to look for long into our own eyes in a mirror? Jesus asked: is it beacause we fear to see God reflected in there? We must learn from the woman, to look into the mirror more."

"O espelho é circular e inteiro, ele disse: como uma alma em união com Deus. A alma reflete a beleza deslumbrante de Deus. Assim como a alma se direciona a essa beleza, ela também participa da mesma. Quando recebe a imagem de Deus, a alma se transforma, e acaba por compartilhar toda a beleza que procurou e para a qual se abriu. Deus passa a ser parte da alma.
(...)
Por que frequentemente nós temos tanto medo de olhar para nossos próprios olhos num espelho? Jesus perguntou: é porque nós tememos ver Deus refletido lá? Precisamos aprender com as mulheres a olhar mais no espelho."

In.: Wild Girl. Michèle Rogers.
Tradução qualquer

domingo, 14 de junho de 2009

desromantizares

Mas vivo a geração que não sabe amar. Não sabe porque a todo momento quer reinventar o amor: os corpos suados, os parceiros postiços, as relações descartáveis. Vivo a geração do amor camaleônico de cama e banho apenas, a geração dos que fazem das relações pequenos jogos de interesses ególatras: vivo a geração dos homens e mulheres que se perderam de Deus para se encontrarem a si mesmos.
E no espelho viram os olhos do Senhor.


In.: cartas para o único reich

segunda-feira, 8 de junho de 2009

boneca de retalhos de palavras

No domingo eu tô fumando e fumada tomo o comando do avião que são as linhas cruzando o céu azul e branco do papel que diz qualquer coisa sentimentada e

Pára. Sonda. Sonha. Gira.

Estou dançando com a espanhola de cabelo de cetim e pele de veludo, lábios bordados num vermelho azul que se escorre por todo o seu corpo de boneca.

Ela foi costurada com palavras e nunca terá vontade própria. Ela é o recorte desferido no meu rosto exposto em lágrimas: ela se chama Emilia e é o meu amor deitado morto pelo azul da hora de crescer: adeus, brinquedo e olá, guerra.


In.: cartas para clarice

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A FRONTEIRA

A vida, tão frágil. Sento-me sobre os restos do meu dia.
A morte ágil a tricotar ciladas com dedos maquiavélicos.
Meu olhos cantam o medo: já estivestes na fronteira de
Perder alguém?
Assim, sem mais nem menos, alguém a menos em tua
Vida.
A morte, a armadilha, o precipício aglutinante da dor,
A sepultura diante dos olhos incrédulos, a injustiça,
O desespero.
Eis logo ali o fim da travessia, da nossa irmã,
Da nossa vida com ela, eis a despedida, ai.
A fronteira de perder alguém me alcançou, meu peito chia.
Senhor, me ampare, eia, adeus,
Morrerei também com ela pois ela
Morrerá em minha vida.
A vida nos constrói as tocaias, é ela. A morte só espreita.
Não crês no invisível, não te toca a fragilidade?
Eia, adeus, o fim do poema propaga a idéia
E a alma se liberta para reencontrar o mistério.


In.: cartas para o menino meu, o machado amarante

quarta-feira, 27 de maio de 2009

a voz da criança

“Eu acho que deus não terminou de criar o universo

Porque o universo não tem fim

E deus ainda está criando novas coisas”

(“Toque de criança" – Casa Redonda – Carapicuíba - SP)

terça-feira, 26 de maio de 2009

CONSTRUTIVISMO

Provoque. Provoque, coloque em xeque, desconserte.
Enlouqueça e incite o enlouquecimento, ironize,
provoque outra vez de novo ao contrário do avesso,
Faça com que surja o imprevisível.
Mobilização interna.
Já tenho o fogão, a cama e o cobertor na sala da mente.
Avante e rente, crie respostas, ouça, veja.
Pare. Erre. Pare outra vez. Erre de novo.
Faça a curva e curve-se, leve-se leve.
Deixe-se ser tomado.
Plane sem plano.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

carta p/ a dona do lago

Venho dizer que sou uma farsa que persiste adiante criando mundos. É uma tarde triste, uma garota dobra barquinhos de papel para jogá-los da janela do oitavo andar. Os rios secaram, a criança é presa de seus próprios desejos. Barcos de papel não voam, a garota me chama com sua voz de mármore sonoro. Ela é mais alta que eu, ela tem um balançar mais feminino. Mas ela não sabe, não sabe que o papel é dúbio, os rios secaram, é inútil debater-se pois os barcos não alcançarão os portos.

Mas a garota me chama, ela é sonora, sua voz me perfura. Não sei o seu nome mas vislumbro o papel que ela encena: está desejosa, me acena carinhos, tenta soprar meu suor. O papel ela dobra em barco e me lança através da janela. Ela quer beijar mas, muito mais, ela quer falar para se mostrar máscara, ela vem dividir a farsa comigo que aceito passiva sua intervenção dobrada em silêncio.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

carta p/ g. em março

E, afinal, por que vivemos? Que desígnios intermináveis residem no intervalo de nossa existência? Hoje passei o dia dentro de casa e me senti inútil e confortável. Estou vendo a vida passar e assumindo minha ordinariedade intrínseca. Ser humana e padecer no inferno e mesmo assim ter tempo de inventar algum paraíso.
A vida é tão frágil... Um simples desarranjo orgânico e eu sou tomada pelas garras da morte... E quando eu morrer pensarei novamente: por que vivi? E a resposta não virá pois não terei mais tempo para pensar. Padecerei. Desaparecerei. Não ouvirei os lamentos dos que me amaram. Não decifrarei o mistério da vida e adentrarei o mistério da morte tão ignorante e inocente quanto quando nasci.
E então! Que melancólica essa existência! Que construir, se tudo será destruído inevitavelmente pela ação do tempo? Que buscar, quando o corpo está cansado e a psique abalada? Que fazer, amiga, senão viver e suportar uma existência inteira?

quarta-feira, 6 de maio de 2009

abelhas e bestas

Mais um dia trespassado por entre meus átomos, esse dobrar de ângulos e papéis que é o tempo nos abocanhando e mastigando e cuspindo fora para abocanhar de novo num movimento acelerado que aponta para o apagamento de sermos finalmente engolidos e passarmos ao interior da escuridão do tempo que nos toma de cabo a rabo.

Estou abestalhada. E não sei se sou eu ou é o mundo, pois tudo se confunde. Estou abelhas.

A besta existe, tem chifres espiralados e lúgubres, e um sorriso escancarado, ela existe e tem olhos vermelhos e ela sai voando com rabinhos de capeta a balançarem no traseiro empinado, numa dança de cadeiras atrevidas e zombeteiras.

Estou abestalhada. Abelhas e bestas me invadem.



In: Cartas Para O Menino Meu

sexta-feira, 24 de abril de 2009

palavras ao vento

Desserenizo-me. Estou à deriva e quero desafiar o equilíbrio das coisas: trêmulas sombras no limite dos corpos. No horizonte a manhã se colore sombria e cinza, o sol se esconde com medo da densidade da chuva que vem apagar o fogo. Escureço ao redor. Gris melancolia trazendo o tom da minha imaginação criadora. Mais tremores nos limites das coisas: é meu coração que pulsa ou o derredor que sopra? É a maré dos ventos me bombeando vida pelas veias, a força do invisível a habitar os vãos de meu eu.
Meu corpo sonha uma alma. Ela tem um rosto de Lua, iluminado e pálido, cheio de solidão. Meu corpo sonha uma alma. Seu corpo são raízes infiltrando-se na terra úmida e fria que se abrasa com a vida que invade. Sonhos de resgate, desejos de dissipação. Meu corpo imagina o intangível que se solidifica no material onírico que nasce com o balançar das árvores do meu jardim. Ela tem os gestos verdes e o semblante carregado de placidez. Eu a procuro.


In Cartas para Heloisa Árvore

domingo, 12 de abril de 2009

DYLAN THOMAS

Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a luz se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo salário mínimo
De seu mais secreto coração.

Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da luz enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.


Tradução de Ivan Junqueira



(...)
(presente que mamãe me deu)

sexta-feira, 10 de abril de 2009

continuando a carta da tristeza....

(...) ainda erro, erros, como errando pelas linhas e escutando o semáforo do Vanguart me lembro das vanguardas dadas surreais que despedaçavam a arte e percebo que na literatura eu coloco música e sou teatro pois permaneço esperando Godot e acredito no relógio mas sei de sua efemeridade pois o tempo é só estória e a história é dos vencedores, porra, e quem disse que eu quero compactuar com isso, com essa dinâmica torpe desse mundo de vencedores raros e hordas infindas de perdedores que choram a morte de um filho ou a injustiça de um P.M.? Me diga: quantos são corruptos? Quantos não o são? E os que não são, ainda estão vivos? Me diga: por que o umbigo? Senão para que olhes sua inutilidade, seu mero aspecto ornamental, o umbigo ego que cega qualquer um que viva nesse mundo de outdoors e jogadas de marketings pessoais.

A História e a Literatura são vozes dos vencedores.

Mas a Literatura ao menos humilde tenta chegar à voz dos todos outros perdedores, que ficaram sem voz diante do meritíssimo juiz da comarca.

Eu perco. E luto. Gosto do povão. Acho que sou um deles, mesmo burguesa nascida que sou.

Amigo meu. Hoje sou perdedora. Perco a fala diante dos maurícios e patrícias dessa vida.

É isso. Nunca quis ser Patrícia! Sou introvexa! Cancerígena! Caranguejeira! Puro veneno, emoção, sentimento! Sou a cadeia montanhosa de signos em avalanche de pedras atravessando as linhas e destilando o soro antígeno da cura que tenta chegar através das palavras.


27-03-09

segunda-feira, 6 de abril de 2009

a tristeza

Hoje estou triste. A melancolia de todos os meus ancestrais reúne-se nessa noite para tomar-me por completo. Percebo-me como nunca antes: sou temor e resignação, sou rendição, sou lágrima. Sem motivo aparente, mergulho em sensações tenebrosas, desenho no livro de minha vida o símbolo da derrota: gemidos de traços trêmulos, corações expostos, desesperança aglutinante de todos os males. Eis-me no hoje triste. Estou desistente, chorosa. Não creio mais nem na palavra: morro no ponto final.
Ah! O que acontece é que não me encaixo na dinâmica exasperante do mundo e então ela me sufoca e eu quero que tudo desapareça. Tenho vergonha da máscara social que uso mas mesmo assim não tenho condições de outra usar. Isolo-me cada vez mais, pois as pessoas me acuam, suas palavras são como monstros que me envolvem ameaçadores, seus olhares são dardos alvejados contra minha frágil configuração: sou a estranha dos dedos de contorcionista, a doidona da risada escandalosa, a moça de quem não sabem o nome. Sou o ápice do uncool, o apogeu do mal-gosto estilístico, o vértice da sem-gracice. Sou a pessoa que se esconde atrás dos estereótipos mas que os carrega como armaduras incômodas, uniformes sem brilho. Sou isso, sou aquilo, e sigo só e sem nome de renome, sem estrela na calçada, sem outdoor de promoção. A ordinariedade me trespassa, ardo de rancor para comigo mesma, carrego anos de decepções amorosas e séculos intermináveis de solidão. Revolto-me mais uma vez contra a dinâmica do mundo e do meu rosto descem lágrimas e gritos de desespero: tudo é em vão para mim, mesmo não o sendo para o tudo! Minha vida, peça dolorida no tabuleiro imaginário do jogo que deus joga com o diabo.
Ah! Tudo queima, arde como sal na ferida, rasga como hemorróidas lambuzadas de bosta, tudo fede e machuca como as palavras dos inimigos, tudo aponta e acusa como as mãos dos judeus que mataram o Cristo, tudo anseia eternidades e chora pecados... Tudo me magoa e é minha própria mão que balança o ritmo dessas palavras de fel que querem ser expiação pois é só isto que resta: entôo cânticos de maldições infindas e meu suspiro espera a morte. Tudo é dor dentro do meu eu em pedaços, dilacerado por uma existência de conflitos internos impronunciáveis e de desarranjos sociais notáveis a olho nu. Choro minha singularidade que revela não só a mim, mas ao eu de todos aqueles que viveram a oportunidade desesperadora de um mundo onde os deuses nascem mortos e os anjos não existem. Sou a lágrima derradeira de um sonho-pesadelo: meu reflexo no espelho.


In.: Carta para Amarante

sexta-feira, 3 de abril de 2009

CASOS DE FAMÍLIA

Agora eu estou em casa de minha avó e tomo uma limonada enquanto Dona Geni come um abacate com açúcar e Tina degusta uma maçã. Casos de família.

Temos uma tia, a Dedé, irmã da Tina, filha da Dona Geni. Ela nos dizia que havia ganhado um pozinho mágico de uma bruxa, o qual ela guardava num saquinho que nos mostrava para nos fazer medo. Dizia que aquele pó a transformaria num monstro, e ela então nos engoliria pois fazíamos muita bagunça. Ela se transformava num daqueles monstros horríveis do Jaspion. Foi uma moça estranha – uma bruxa! – num banco de praça que a presenteou com aquele pozinho mágico, dizendo que com aquilo ela poderia fazer o que quisesse e sonhasse, mas que deveria ter muito cuidado ao usá-lo. Algo deve ter dado errado. Ela se transformava em monstros do Jaspion! Meus Deuses, que viagem! Ser criança é mesmo um tróço único.


In.: Carta pro menino amigo meu.

domingo, 29 de março de 2009

GUIMARÃES ROSA, João

"Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual, o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou - amigo - é que a gente seja, mas sem precisar saber o por quê é que é. Amigo meu era Diadorim; era o Fafafa; o Alaripe; Sesfrêdo. Ele não quis me escutar. Voltei de raiva."

In.: GRANDE SERTÃO: VEREDAS

segunda-feira, 23 de março de 2009

HORTA, Maria Teresa

TATUABEM

Ossifico a dor
o dia

Tatuagem
de tatuar o espaço
livre

onde a queda
a neve
ou o meio-dia
multiplica

a multiplicação
do sangue
um sulco claríssimo

qualquer coisa
de vário
ou de estranho

a moleza branca
de um calor
rosado

Tatuagem feita
vezes quatro

Aquidade espessa
de chuva sem
passagem

olhos animais de cornos
azuis

e perfilados
com lágrimas por dentro
ou neve ossificada

Tatuagem
tatuo no ventre um filho
Mãe depois e nunca
verificada

Mãe de ovários
duros
e peitos madrugada
com um amante
por noite

um animal

uma harpa

Ou qualquer coisa
de bom
de esquecimento
de sono

o para sempre estar deitada
as pernas
sementes várias

o para sempre estar escolhida
entre mulheres
sem imagem

Tatuagem
violada
que se traz sob um dos
braços

uma agudeza
de água
epiderme rouca e parca

Partida
sem ser viagem

ou despedida
ou embarque

Tatuar
de tatuagem

sede de queda
oxidada


In.: Cidadelas submersas



sexta-feira, 20 de março de 2009

carta para o daniel de olhos cálidos

Teu nome ressoa profético e milenar como o trabalho das abelhas ou as espumas do mar. Lembro-me de uma cova, alcova, caverna, onde leões rosnavam ameaçadores. Era na noite onde teu nome ecoou antes mesmo de teu nascimento.
Não somos nós o desenrolar das palavras, das estórias, dos sonhos dos nossos antepassados?
Sim, a profecia das abelhas
E os milênios do mar...
Nossas palavras,
Nosso ressoar.

Veja!

Hoje larguei de lado, pelo menos por enquanto, a psicanálise. Deixei-a no divã com a doutora de olhar amarelo do lado. Foi-se, num tantico de lágrimas amargas e orgulhosas, foi-se. Acabou-se.
E, do outro lado da história, meu caminho se abrindo selvagem e vacilante, mas cheio de coragem.
O bom da vida está aí. É coisa da Santa Natureza. Tem gente que pensa que o humano não é natural. Talvez não seja mesmo. Talvez o humano respire um ar artificial. Mas, então, não seria a própria Natureza uma produtora de artificialidades?
É. Não há como fugir do tecnológico. Ele nos traga, está por todos os lados. Ondas eletromagnéticas que nos trespassam subliminares, sutis, enigmáticas. Um amigo meu me disse que inevitavelmente o homem se tornará máquina, pois a vida é frágil e a máquina permanece. Me deu foi medo essa idéia dele. A máquina já não seria humana, seria?
De qualquer forma, confesso ser avessa a tecnologias. Mas estou contaminada por elas.
Talvez por isso ainda precise de amar o contato do papel e da caneta entre os dedos. Para amenizar a derrota progressiva dos manuscritos, e manter a resistência ativa e na luta pela caligrafia...
Obviamente, para além dessa grande viagem em prol da escritura sem teclas, escrevo no papel pois o correr da caneta é necessário e meu olhar busca as formas das palavras se encontrando.
Amigo! Leia e escreva sua vida com fé em si mesmo e no mundo, meu querido Daniel na cova dos leões como eu...

carta para o destinatário que mora comigo amigo

19-02-09

(...)

Ela apareceu por aqui e eu gozei pois era bom ritmar aquela música de sexos. Foi lindo!

Eu estou faminta agora. Ela foi embora.

(...)

Amigo meu. Que estranha conexão é o sexo o os sentimentos que dele advêm! Pois somos tão diferentes e que modo desesperado e louco é esse de nós nos tocarmos. Coisa de pele, que só a pele explica, quando toca, quando arrepia, quando sua. Que loucura.



20-02-09


Eu não consigo mais ficar como quando tola eu ficava pela minha amiga ou minha analista: perdidamente apaixonada. Eu não mais me apaixono perdidamente. Quando eu me apaixono, procuro ser achada. Achadamente apaixonada.





domingo, 15 de março de 2009

carta para luciana

MAIS AMOR...


É muito difícil ter que carregar uma história inteira nos braços. Por isso eu conto várias outras. Para que a variedade labiríntica delas me disperse da minha verdadeira história, tão difícil de ser carregada.

E minha verdadeira estória chora o amor de Werther, de Florentino Ariza jovem, de Riobaldo temeroso. Ontem pela noite, com ela nos meus braços, a estória do meu fantasma de olhos incertos tomou lugar em minha boca e eu não chorei pois precisava engolir a seco e ela me ouviu sem entender realmente e eu me perguntei por que as cicatrizes daquele meu precioso fantasma ainda doem tanto.

Imaginei então que bem dentro delas o ferimento ainda pulsava dor. E pela primeira vez em anos me vi adolescente e aceitei minha ingenuidade. E pela segunda vez em anos vi e senti com todas as letras que meu fantasma me acompanhará sempre que eu tiver uma mulher entre os braços. E já não temi a presença dele, sorvi a dor e me preparei para desafiá-lo.

(...)

Redesenho minha Carlota, minha Fermina, meu Diadorim. Um fantasma de vários olhos no pesadelo das minhas linhas quebradas ao meio. Me trespassa com a rejeição, me traz lágrimas aos olhos, me condena a penitências eternas. Grilhões nas mãos e pernas, mordaças na boca sedenta, vendas nos olhos desencantados. Quero gritar mas não tenho voz.

Ah! Imaginação cortante!

O fantasma.

Na sala de fundo meu amor me espera nua e sem literatura, mas suando poesia.

Não há deslumbramento melhor que a desilusão adocicada pelo livramento.

O mote dos amargurados.

O xote dos apaixonados.

Águas passadas que novas lavarão.



03/03/2009

sábado, 14 de março de 2009

CAEIRO, Alberto

EU NUNCA GUARDEI REBANHOS

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

[...]


sexta-feira, 13 de março de 2009

MORISSETTE, Alanis

Incomplete

One day I'll find relief
I'll be arrived
And I'll be friend to my friends who know how to be friends
One day I'll be at peace
I'll be enlightened and I'll be married with children and maybe adopt
One day I will be healed
I will gather my wounds forge the end of tragic comedy

I have been running so sweaty my whole life
Urgent for a finish line
And I have been missing the rapture this whole time of being forever incomplete

One day my mind will retreat
And I'll know God
And I'll be constantly one with her night dusk and day
One day I'll be secure
Like the women I see on their thirtieth anniversaries

I have been running so sweaty my whole life
Urgent for a finish line
And I have been missing the rapture this whole time of being forever incomplete

Ever unfolding
Ever expanding
Ever adventurous
And torturous
And never done

One day I will speak freely
I'll be less afraid
And measured outside of my poems and lyrics and art
One day I will be faith-filled
I'll be trusting and spacious authentic and grounded and home

I have been running so sweaty my whole life
Urgent for a finish line
And I have been missing the rapture this whole time of being forever incomplete



lindo!

terça-feira, 10 de março de 2009

A GUERRA

carta p/ F.

Estou radiante, mesmo a noite sendo plena, eu radiante na suspensão dos momentos que se esbarram entre os diálogos que são travados como aventuras que são as estórias que as linhas contam. Nessa tarde secular eu liderei exércitos – eram soldados amarelos e radiantes como eu radiante agora nessa noite que é plena – que saíram da América para adentrar a Ásia e por fim desolar a África e eram exércitos cheios do orgulho da guerra alimentada única e exclusivamente por ambições pessoais e o sangue correu em milhares de litros e braços e orelhas decepados e caralhos voando sob o som das bombas que explodiam imaginárias dentro do tabuleiro do jogo de estratégia.

Foi assim que ganhei War II pela primeira vez.


MENDES, Murilo

A POESIA É A REALIDADE; A IMAGINAÇÃO, SEU VESTÍBULO.


In.: O Discípulo de Emaús



again and again

segunda-feira, 9 de março de 2009

carta para o artesão dos olhos encantados com estórias de pescador

Mas olhe, pesco as palavras, é um negócio de sorte ou azar, esse pescar. Lógico que se deve ter em mente a logística do rio, das águas, dos barrancos, sim, conhecimentos de pescador. Mas pescar também é sorte que eu sei. Como tirar da cartola alguma coisa: você não sabe se será esperança ou destruição, mas você pesca alguma mágica quando se põe a escrever contando com a sorte.

É certo que, depois de se pescar, é necessário preparar o peixe. Da mesma forma a escrita. A gente rabisca, muda de lugar, acrescenta. No fim tem um bom peixe empanado.

Aí você come. Aí você caga e a bosta volta pra terra. E pronto, a história nunca termina.

Por isso que temos que parar por agora.


17/02/09

domingo, 1 de março de 2009

carta p/ heloisa

"(...)E me canso do livro e olho para as árvores e vejo-as acenando para mim. E elas são lindas e eu lamento não poder ser árvore para dizê-las que me apaixonei pelo balançar de suas folhas, tão cheio de verão.
(...)Minha alma não sossegará na sobriedade insípida. Provo da loucura de cada momento de lucidez e da maldição sagrada de cada gole de vinho.
Todo método se esgota por si mesmo."

JANEIRO/2009

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

RIMBAUD, Arthur

(...)
Seu corpo! A libertação sonhada, a arrebatação da graça cruzada de violência nova! seu olhar, seu olhar! todas as ajoelhações antigas e as penas resgatadas após sua passagem.
Seu dia! a abolição de todos os sofrimentos sonoros e que se movem na música mais intensa.
Seu passo! as migrações mais enormes que as antigas invasões.
Ó ele e nós! o orgulho mais benévolo que as caridades perdidas.
Ó mundo! e o canto claro das novas desgraças!
Ele nos conheceu a todos e a todos amou. Saibamos, nesta noite de inverno, de cabo em cabo, do pólo tumultuoso ao castelo, da turba à praia, de olhar em olhar, forças e sentimentos cansados, chamá-lo à fala e vê-lo, e mandá-lo embora, e, sob as marés e no alto dos desertos de neve, seguir suas vistas, suas respirações, seu corpo, sua luz.


In.: GÊNIO. (Iluminações ou Uma temporada no Inferno??? Não me lembro o livro)
(jovem gênio, jean-nicolas... arthur...rimbaud)
a tradução é de Lêdo Ivo
e o tema se dá ao redor do amor

sábado, 14 de fevereiro de 2009

CARTA PARA O MENINO MEU

É. É intenso demais. Uma loucura. Apoteose de sensações. Ápice metafísico. Como uma vertigem. Um orgasmo. É como chorar de alegria.

Isso também é a vida.

(...)

Logo ali à frente garotos andam de skate num cenário grafitado. O sol estatela nas testas. O barulho das rodinhas no cimento ressoa cativo dos motores dos carros. Respingando, o canto das cigarras completa os sons da cena. Os jovens skatistas se sentam embaixo de uma árvore, e eu me preparo para partir.

Fui-me indo vou.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

RILKE, Rainer Maria

"O tempo, neste caso, não é uma medida. Um ano não conta, dez anos não são nada. Ser artista é não contar, é crescer como a árvore que não apressa a sua seiva, que resiste, confiante, aos grandes ventos da Primavera, sem temer que o Verão possa não vir. O Verão vem. Mas só vem para aqueles que sabem esperar, tão calmos como se tivessem na frente a eternidade. Aprendo-o todos os dias à custa de sofrimentos que bendigo: a paciência é tudo."

In.:Cartas a um Poeta.
Tradução de Fernanda de Castro

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

ein Brief für den Baum

(...)

Eu escrevo o meu tempo onde os papéis vão acabando e os dígitos binários vão se multiplicando em progressão geométrica ou algo assim. Vivo o tempo em que as personalidades são fluidas como a tela de um computador e onde os sonhos dão lugar à realidade virtual que se expande tocando a vida real e maculando a verdade filosófica em um século de incertezas e distopias. Os espaços de discussão reduzidos a um quadro hipnótico de luzes alienantes. Digitalizo-me e sou ciborgue a moldar a carne do imaterial formado de Kbs e Mbs. Eu escrevo no papel o sonho que se dissipa num horizonte cibernético.

Eu sou o medo que vive a morte da eternidade da carne.

(...)

Tenho sede de expressão estética. Escrever é como sentir um sabor específico, querido, gozoso. Ou um cheiro peculiar que traz revivências à tona. A frase traz um som que vibra como música e que me faz querer dançar. A semântica pode ser afago ou espinho, mas de qualquer maneira será catarse ou consciência.

Tenho sede e troto livre pelo meu universo literário. Literal. Sede.


Vou tomar água agora

JANEIRO DE ALFORRIA NO ANO ÍMPAR CELESTIAL

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

NA CIDADE ONDE NASCI

Distância no horizonte opaco entre 4 paredes no sobradinho de um amigo anjo que conheci entre as esquinas do céu. Outro Rafael. Bebamos pois é sexta-feira e eu ainda consigo enxergar as asas brancas do meu amigo anjo de carne e osso.
(...)
Não tenho nada além do leito de colchão inflável e alguns trocados no banco e o cigarro entre os dedos e a intenção de novo na mente. Amo os momentos de museus em pinturas de mulheres nuas e gemidos ao pé do ouvido e rangidos de dentes e de colchões pela noite invadindo a madrugada de barulhos esparsos sob a lua crescente de janeiro adentro.

09-01-09, patos de minas

domingo, 25 de janeiro de 2009

MAIAKOVSKI, Vladimir

Nos demais,
todo mundo sabe,
o coração tem moradia certa,
fica bem aqui no meio do peito,
mas comigo a anatomia ficou louca,
sou todo coração.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

carta p/ g. em papel rosa e caneta azul

Andei por caminhos tortos, irresponsáveis, mandei tudo às favas, amei uma loucura e me vesti de preto na noite escura onde o gato negro da desventura cruzava uma encruzilhada encantada.
Agi como se dirigisse bêbada: levada pelo reflexo inconsciente, quase morta, rendida, eu que nem sei dirigir.
Foram momentos intempestivos mas cheios de lições. O peito me doeu e a desesperança galopou frenética pelo meu coração acelerado.
No final do dia eu estava só e derrotada.
Só então aprendi a amar.


13/01/2009

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

PICHAÇÃO

"FORA GOVERNANTES EMPREITEIROS
ESTUDANTES CONTRA O GENOCÍDIO
SANTUÁRIO NÃO SE MOVE"

Eu vi escrito em spray
Nos muros da Biblioteca Central da UnB
E resolvi ressoar o grito dentro

de minhas linhas anônimas
e subversivas
sub versos
e ingênuas
e senis...

Governantes, uni-vos ao povo
Em busca de boa educação
Governantes, fechai-vos as bocas.
É feio comer com elas abertas.

12-12-08

domingo, 11 de janeiro de 2009

poema

o poeta sentou e chorou e pôs-se de joelhos diante da musa assassinada

Pois quando o sol se apagar e tudo ser catástrofe:
Olheiras. Corpos.
A cidade dos sonhos sendo tragada pela
Monstruosa boca assassina do mar
E a terra esmagando o aço por vingança.
Caos. Injustiça. Fome.
O céu tomando a cor lúgubre das cinzas
Chorando o ódio que inunda as outras cidades
E virão as pestes e o desespero
E as palavras serão vãs

E então começarás a orar.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

CARTA AO AMIGO

AO SOM DE "AS ONDAS", VIRGINIA WOOLF

Estamos envelhecendo e nosso tempo está se esgotando aos poucos, e é maravilhoso poder participar desse processo juntamente com você que me lê. As nossas vidas, histórias únicas, cheias de labirintos e lições, enroscando-se como novelos de lã que se desenrolam todos juntos dentro de um grande cesto e que vez ou outra formam um nó. Acho que foi isso: nós demos um nó, criamos laços, e passamos sim, vamos embora, mas lá está o laço criado, o nó que se encerra. Enquanto isso, o meu e o seu novelo continuam a se desenrolar em meio a tantos outros de cores e texturas e tamanhos variados, e a vida segue, e criamos ou não novos laços nesse emaranhado de fios que se cruzam. É fantástico, é extasiante, é vivo, provoca emoção.
Eis-nos aqui, amigo, os corações pulsantes e as almas abertas a todos os tipos de vibrações. Um lapso apenas, um suspiro, e logo ali termina nossa estrada. Bendito o amor, bendita a ilusão. Bendita a tristeza, que tempera tudo isso. Cada vez mais tenho mais certeza de que somos divinos e de que é sublime cada fluxo de respiração. Obrigada pela sua alteridade, amigo, pois é também com ela que me percebo e nela lanço - também - toda a minha alegria de viver.
novembro/2008

sábado, 20 de dezembro de 2008

A EXISTÊNCIA DE TERESA

CARTA P/ O AMIGO

A noite se aprofundando com suas raízes negras sobre a terra. Eu sou um suspiro e respiro cheia de mistério. Minha vida espalhada pelos confins dos mundos. Quero me despedaçar em infinitos átomos e povoar o universo inteiro. O movimento da minha mão a balançar a caneta é rítmico e cíclico como as estações do ano. Está chegando dezembro e as pessoas engendram seus enfeites e espíritos natalinos. Eu estou viva e preciso de amor. Estou esgotada pela confusão dos homens e mesmo assim tenho forças para precisar do amor.
De repente, não quero livros, nem monumentos, não quero nomes, não quero posteridade. Não quero Iso ou Aquilo. Quero ser e deixar escorrer o momento, esse momento que se esgota, os diálogos na televisão ligada ali na sala e esse forro de mesa com peixinhos, navios e faróis. Quero eu nessa cena absurda, eu que movo minhas pernas frenéticas e morro um pouco a cada segundo. Quero estar para ser o inverossímil humano. Estou trespassada pelo heroísmo de nossa derrota diariamente anunciada. Lá de fora, a noite se afunda e engole ainda mais a terra, e aqui dentro de mim minha escuridão sobrevive graças a minha pequena e insistente chama de vida: Amor! Amor! Amor! Esperança ao fim! Em breve, a escuridão será plena e então ela mesma se extinguirá no vazio opaco da não-existência, e minha mão não mais balançará sobre a terra e minha boca não mais pronunciará meus cantos de amor. Em breve, muito mais breve do que eu espero, minha alma não mais se refletirá no fulgor dos meus olhos, meu ser secará sobre a terra, e minha morte, por sua vez, se despedaçará em infinitos átomos e abarcará o mundo inteiro, que não será sequer o vulto de uma lembrança.

08/11/2008

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

GORKI, Máximo

"(...)
E acrescentou com um acento de tristeza:
- Mas raro sucede que eu queira alguma cousa.
- Pelo contrário, eu quero sempre alguma cousa - replicou Malva. - Quero... o quê? Nem sei. Às vezes quisera meter-me numa barca e perder-me ao longe na vastidão infinita das ondas. Tão depressa sinto lástima de todos, sobretudo de mim própria, como sinto desejos de matar todos e dar a mim própria uma morte horrível. Quero rir e me aborreço, porque, afinal, os homens todos não merecem um pouco de atenção; são volúveis como piões.
- De madeira podre - acrescentou Serejka. - Bem dizia eu: não és gato, nem pássaro, nem pez... és um pouco de tudo... em nada te pareces com as outras mulheres.
- Graças a Deus - replicou ela, sorrindo.
(...)"

In.: GORKI. OS VAGABUNDOS - Malva.
Tradução de Araujo Alves

domingo, 14 de dezembro de 2008

carta p/ d. de olhos cálidos

(...) Para poder lhe dizer exatamente (ou quase isso) o que se passa comigo ultimamente somente por meio de misteriosas metáforas.
Pois o meu mundo é insano como o olhar da menina psicótica que perde sua filha para os homens do governo.
Pois estamos separados - todos - desde o início até o fim.
Pois é triste como o pai alcóolatra sendo carregado pelas filhas evangélicas bar afora, tão triste e cheio de fé como todos nos bares.
Pois estamos separados, todos - desde o início até o fim.
Pois é devastador como o crescimento potencial da ganância dos homens, nossos filhos e irmãos, nossos reflexos.
Pois eis-me eu.
Numa ilha. Numa clínica. Numa prisão.
Lendo-me fria no banheiro.
No berçário. No caixão.
(...)


sábado, 13 de dezembro de 2008

fazendo dezembro no campus

acho hoje no pio desse pássaro desconhecido
e dessas árvores milenares
que aprender a escrever um livro
é perceber que é mais proveitoso o caminhar
que o destino final em si.


É tão bom assim
Quanto o improviso de um blues
Com o azul ou o amarelo
Do céu e da flor do agora.


quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O AMOR COM SEXO

Um transe
Bem transado.
A transa
Sem dissimulado.


no raiar de novembro de 2008

sábado, 6 de dezembro de 2008

TSVETAEVA, Marina

À VIDA

Não roubarás minha cor
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.

Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço o cavalo
Árabe -
E abre a veia da vida.


Apesar disso, ela trotou

até se suicidar em 1941.

domingo, 2 de novembro de 2008

Para Minha

Meu amor, estou te amando ainda mais hoje
E te quero livre e te quero minha
E te quero como jamais ousei querer alguém
E me lanço a você com a alma acalentada
E me lanço buscando também a sua alma

Encantada, eu com você, numa onda
Que ultrapassa os maias e ruma para o Oriente
Numa viagem eterna.
Conheço-te para aquém da existência
E te beijo do verso ao multiverso.

Meu amor te espero há muito
E te amo sem ter tempo nem espaço.
Energia vibrante, simplemente.
Imaterial no toque dos nossos corpos.
Somos nós cordas que se enlaçam.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

DOSTOIÉVSKY, Fiódor

"(...) todos nós, e com bastante freqüência, agimos quase como loucos, apenas com a pequena diferença de que os "doentes" são um pouco mais loucos que nós, porque neste caso é necessário distinguir o limite. Já o indivíduo harmonioso, e isso é verdade, quase não existe; em dezenas, e talvez até em muitas centenas encontremos um, e ainda por cima em espécimes bastante fracas..."

In.: CRIME E CASTIGO

domingo, 26 de outubro de 2008

esperando o baú

A primavera em Brasília quente
Estou esperando ônibus que me leva
A visitar meu pequeno amor singelo
E o ônibus dura uma eternidade
E não é só porque hoje é domingo
E ninguém gosta de trabalhar
É também porque o amor
Odeia esperar

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

RETRATO COM MACONHA E MORRISON

Não consigo dormir. Mais coca-cola. Cigarros. Vícios.
Eis o meu retrato: bagulhos espalhados pelo quarto.
Psicodelia fluindo das caixas de som para meus ouvidos
Converso com Jim Morrison sobre a insanidade
Das crianças que são vozes a gritar lá de fora
E daqui de dentro do prédio a cidade de concreto
Se assoma como uma redoma cunhada em estruturas sociais

Artefatos como o ônibus azul
Que nos chama a viajar dentro das caixas de som
Que cantam as crianças a sentir o gosto de ter voz
E caminhar e invadir o meu quarto com o seu timbre
Infantil. Patinetes. Gritos.
Mas, "pai, eu quero te matar"
E, "mãe, eu quero te foder"

Quebro as estruturas sociais e fujo para os guetos
E nos guetos me entrego ao sexo que é amor desnivelado
E nas quebradas escondo meus crimes e cuspo nos costumes
E na derrota sou vitória pois resisto para além de glória ou honra
E esse é o fim
A fantasia em pedaços e o corpo em decomposição

sábado, 18 de outubro de 2008

carta p/ raposa gata

"(...) o meu amor calado, aquele amor puro e ingênuo que perdi há milênios atrás em algum bordel de beira de estrada, aquele par de olhos verdes que consumiu meus anos pueris de homossexualidade dúbia e romantismo cego. Você se lembra? Meu amor platônico consumiu-me até lavar meu orgulho na merda, e eu cheguei às vias de minha morte em vida, tudo em nome do meu amor de sonhos rodeados em gozo e saciedade, do meu amor, do meu amor, do meu amor. Mas ele mostrou-se infértil e tomou todas as feições doentias da loucura. E eu o sufoquei com algum travesseiro enquanto ele dormia. Mas deitei-me sobre o mesmo travesseiro, sabendo que no sono o meu amor ressuscitaria em sonhos.
E cá eu hoje, incapaz de enxergar o amor como o via, deplorando a amargura da minha realidade que acusa a verdade dos relacionamentos: trocas meramente egoísticas e destinadas à auto-satisfação de desejos solitários.
Mas lá, no sonho, lá eu o tenho, o meu amor, e ele me revela a esperança que brota dos seus olhos verdes e eu pacifico minha alma pois sei que tudo pode acontecer. A física quântica me permite isso.
Mas aqui, quando acordo, sei que para sempre serei só e mulher alguma no mundo tirará de mim a dor de ser humana. Entretanto, uma ou outra podem, ocasionalmente, amenizar minha tragédia."


terça-feira, 16 de setembro de 2008

cadernos de viagem - belo horizonte, são lucas

Noite adentro descobrindo o corpo da mulher que o acaso me trouxe e que se deita comigo agora imensa na cama a interferir nas minhas linhas, ela que se ri vendo Jô Soares e eu que me rio
lembrando da nossa cama há momentos atrás.
Gosto do gozo que vem do dentro do ritmo do conjunto da orquestra dos toques das peles que desejam e que milagrosamente se conectam rendidas sabe-se lá porquê.

relembrando agosto de 2008

sábado, 13 de setembro de 2008

ANTERO DE QUENTAL

Quando a sede nos seca o paladar,
E o sol a pino o peito nos esmaga,
Se enfim se chega à praia, junto à vaga,
Quem hesita entre a areia e entre o Mar?

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Pater - parte V.

ao Divino indizível

Ele, o Deus sem nome...
Aquele inonimável que repousa
Na nossa respiração...

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

carta p/ menino homem com soldados de plástico

Eu tenho dores de cabeça e sinto-me intoxicada de pensamentos. Sou mais uma alma no front e vejo relâmpagos num horizonte cinza, num horizonte sem céu. Há sangue em minhas mãos, eu rosno em agradecimento à vida e clamo o nome do Divino. Há sangue em minhas mãos e eu preciso de um cigarro para engolir a mim mesma a seco. Eu soldado, mudada para sempre.
Mais uma alma no front inundado de lágrimas que correm por dentro do peito. Mais um corpo dormente e abraçado com um fuzil na noite densa e cinzenta. Mais saudades de casa na guerra estrangeira de uma soldado sem pátria.
- Bebamos um vinho essa noite, general. Em homenagem aos mortos, por favor bebamos pois ainda, nessa noite sem céu, estamos vivos, coronel. Bebamos pois somos todos soldados e estamos vivos como homem que somos, tenente. (...) Bebamos, cabo. À vida, gente.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

carta p/ L. em papel azul

Querida,

que durmas com anjos nessa noite de alegrias em cadência azul e única pois é assim que o negro da noite é o azul que pacifica-se escurecendo. Desejo que durmas nessa calma imensidão de azul com anjos pois aqui do meu lado respiras e és angelical dentro da inocência do sono.
Nunca estive tão em paz quanto hoje, dentro desse seu meu azul
nosso azul pequeno e sincero.

hoje eu te amo

Por favor, não desperdicemos juras de amor eterno. Tudo o que existe, um dia finda. Demos graças então, pois ao menos existe algo em nós, mesmo que tão amargamente transitório, como tudo que existe é.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

GARCÍA MÁRQUEZ

Fermina Daza está de volta!

"(...)Era outra: a compostura de pessoa adulta, os botins altos, o chapéu de velilho com a pena colorida de algum pássaro oriental, tudo nela era correto e fácil, como se tudo tivesse sido seu desde sua origem. Achou-a mais bela e viçosa do que nunca, mais irrecuperável, como nunca, embora não tenha compreendido a razão até notar a curva do seu ventre devaixo da túnica de seda: estava grávida de seis meses. Entretanto, o que mais o impressionou foi que ela e o marido formavam um par admirável, e ambos manejavam o mundo com tanta fluidez que pareciam flutuar acima dos escolhos da realidade. Florentino Ariza não sentiu ciúme nem raiva, e sim um grande desprezo por si mesmo. Sentiu-se pobre, feio, inferior, e não só indigno dela como de qualquer outra mulher sobre a terra."

GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. O Amor nos Tempos do Cólera.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

a menina sonha mulher ou vice-versa

O sonho grandioso que sonhei com ela quando tínhamos 39 anos de idade. Ele foi de uma beleza ímpar, suave visão irremediável que me marcou pelo resto da vida. Como posso apagar o que o futuro demonstra dentro do meu coração sonolento de menina de 20?

Coisa cruel é rasgar com as unhas o céu cinzento dos meus sonhos gloriosos de menina. Não quero antever escuridão onde a calma das nuvens anunciava uma garoa calorosa nos braços da minha só minha morena de olhos verdes. Deixe as nuvens serem nuvens. Não rasgue meu céu, não me invada com escuridão. Eu a vi balançar sob as folhas de uma árvore imensa, de galhos cinzentos como o céu e copa esverdeada como os seus olhos alvoroçados, no balanço da gris alvorada de meus sonhos de menina nua e rendida ante a intangibilidade da verdade do amor. Não me faça rasgar os sonhos que vivi com toda a minha alma, uma vez e somente os sonhos únicos e ingênuos que nunca mais haverão de ser como foram naquela ocasião perdida na memória.


segunda-feira, 25 de agosto de 2008

O discípulo de Emaús

Jesus Cristo não esperou a maturidade para liquidar os sábios e doutores: fê-lo aos 12 anos.



Murilo Mendes

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

o peso dos sentimentos

E no domingo sou contagiada pela letargia da minha vida que se escorre lenta pelos buracos que permeiam os átomos. Um clima de desalento e desencanto preenche a minha casa e eu queria estar longe daqui. Queria poder me juntar aos vazios dos átomos para que também minha amargura fosse feita de imaterial e eu não a sentisse mais.
Os sentimentos carregam o peso da matéria.

domingo, 17 de agosto de 2008

carta p/ d.

Como está você? Imagino-te em cotidianos cariocas com o mar no horizonte e garotas de Ipanema a rodear o seu coração imenso de amor. Imagino-te o menino-homem que conheci há cerca de 8 anos atrás cheio de um brilho cálido no olhar. Imagino-te D.B nas ruas de uma Rio de Janeiro que surpreende a cada dia.

Enquanto isso, cá eu, nessa Brasília seca, onde os gramados geométricos trincam um sorriso amarelo árido e cortante. Cá eu trincando no final da tarde que já carrega um azul denso que anuncia a noite.

E pensar que desfrutei de praticamente um mês pelas ruas de minha Belo Horizonte querida, a percorrer morros e bares, a compartilhar de sorrisos e reencontros, a experimentar o frio acolhedor das minhas Minas Gerais... Pensar nisso é reaver a esperança no dia de amanhã candango que se anuncia nesse meu horizonte de baixa umidade relativa do ar.

(...)
Mas, amigo, que alegre é o reencontro! Nem que ele se dê somente na memória, que alegre é!

sábado, 16 de agosto de 2008

HETEROSSEXUAL

o homem que me habita
é a mulher
que em ti suplica


Lorenzo Ferrari (Movimento Poetrix)

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

INUTIL(MENTE)

de que valem
meus versos de amor,
se teu coração é analfabeto?


Angela Bretas (Movimento Poetrix)

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

AMOR PLATÔNICO

de que vale um rosto
se não sei do resto
se nem sei do gosto


Judith de Souza (Movimento Poetrix)

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

AMAR-A-LOUVAR O VERBO

Como não palavrear, quando a realidade não basta?
Minhas veias pulsam por palavras para preencher o vazio
Da própria veia.
Circulação celeste no coração que canta o ritmo
De istmo a istmo
Do planeta e da alma
Só para louvar o verbo.


amaralouvar
o verbo
cantando
é bom

terça-feira, 12 de agosto de 2008

carta p/ meu mestre filósofo professor sitiado barbudo de lá ...

A Universidade toma meus tempos: adoro viver o campus e seus gramados, árvores, caminhos, bancos. Confesso que já não sou a aluna exemplar que um dia fui, e faço o meu mínimo com ares exaustos. Gosto mais é dos bastidores, a academia não me apraz. Já não penso mais em mestrados, só quero aproveitar o conhecimento que a convivência dentro de um ambiente universitário me proporciona. A vida é imensa, não cabe em livros ou em salas de aula. Quero devorar o mundo, mas sei bem que posso queimar meus lábios nessa audaz tentativa. De qualquer forma, cá eu, sem diploma e com verdades transitórias a tira-colo.

E digo-te: a transitoriedade nos trespassa. E nós com a velha vontade de segurar os momentos... Ah, como dói a saudade de outrora!
Mas, eia, na saudade o outrora cavalga e toma forma. Não resta nada, no final das contas: só o "eu" e suas lembranças sem conta.
Viver é uma lição trabalhosa. Mas a gente vai pegando "as manha", sacumé? A gente acaba por calejar e aprender a dinâmica de si mesmo.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

carta p/ g.

Você que se deita sob a sombra de minhas lembranças inventadas. Você serenidade trazendo-me a paz sufocante da nostalgia.
Eu queimo velas vermelhas em forma de coração e tambores tocam eles com cordas de violão ao meu lado. Rouba-me o olhar a Lua, Linda, no alto do céu do Cruzeiro. O Sul. O meu sul em mim, a minha descida ao um bigo abaixo. Fim. Início. Meio. Em cheio sou e tendo a palavrear isso, tendão tentando palavrear isso que sou.

O Sol saiu ontem à tarde dando ares de sorriso à menina desconhecida sentada no ponto de ônibus.
A outra menina na praça deserta acende um cigarro e brinca de amarelinha com a Morte amarelada sob o Sol.

(...)

Acho que no final das contas todos nós nos matamos de tanto viver.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

cadernos de viagem ... mais minas

arraial da lapinha, município de santana do riacho, MG - 9 de julho

Encontramos o Aristide dentro do caroneiro. Ele é filho da Dona Lina e nos ofereceu o pouso por 10 reais a cabeça. Foi muito prestativo e nos deu as indicações para a trilha que vai para o pico do breu (pico da lapinha, ou falso pico do breu). Serão cerca de duas horas de caminhada morro acima. De lá, contaremos um pouco com o acaso. Não conseguimos marcar os pontos no GPS, mas temos indicações de pontos anotados num papel, além do mapa e das indicações de Aristide, e outras informações que colhemos na internet. Eia

(...)

Confundimo-nos, nos perdemos e passamos por caminhos íngremes. Atravessamos um trecho da Serra do Espinhaço por dentro da vegetação seca da montanha e vimos paisagens que talvez jamais veremos de novo. Digo isso porque, mesmo se eu voltar a fazer essa travessia insana não passarei pelos mesmo caminhos que escolhemos dessa vez, nem a pau. (...) Um dia inteiro de caminhada com mochilas pesando cerda de 15 quilos nas costas subindo e descendo morros de pedregulhos imensos sem ter guia e seguindo a direção da intuição com as poucas informações que tínhamos. Saímos por volta das 9 e 45 da manhã e conseguimos avistar a casa de Dona Ana já davam mais de 6 da tarde. Perdidos, íamos acampar numa casa em construção que avistamos de longe, mas por sorte encontramos um pedreiro que finalmente nos deu a localização exata da casa de Dona Ana. Quando, por fim, já escurecendo, ouvimos no meio do nada o barulho de cães ladrando, eu sabia que havíamos chegado. Foi o melhor latido de cães que já escutei em toda a minha vida. (...) Vou apagar a lanterna e cair no sono. Tenho certeza que vou apagar que nem bebê. Dormir profundamenteeeeew.................

(...)
algum ponto entre santana do riacho e conceição do mato dentro, MG -10 de julho

Não. Não dormi que nem bebê e nem profundamente. A barraca, montada já no escuro do início da noite, estava meio que desnivelada. Meu isolante térmico não amenizou os desníveis. Meu corpo dolorido no duro chão de grama da terra que pisei e que piso e que, mesmo seca no árido da montanha e no alto do inverno, faz brotar a vida nos mais remotos pedaços de chão. Embora a noite tenha sido longa e a manhã se mostre cinzenta e fria, o sabor do café de Dona Ana, a companhia dos meus meninos e as lembranças da primeira parte da travessia iluminam meu despertar.

Meu corpo dói e sou feliz.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

cadernos de viagem ...

26 de julho ... Belo Horizonte, São Lucas

E é um entardecer cor-de-rosa no dia do aniversário de minha mãe. Pipas azuis e helicópteros descoloridos cruzando o céu. Quanto mais me permito, mais perco o medo. Os contornos do meu auto-retrato vão ficando mais nítidos à medida em que percorro os pedregulhos das montanhas, que conheço e desbravo os novos amigos, à medida em que sonho com os artesanatos e as pautas musicais, à medida em que desvelo o corpo das mulheres e suas almas que vacilam como a minha. E agora conto uma, duas, três, quatro pipas no entardecer cor-de rosa do aniversário de minha mãe. (...) É Belo Horizonte e seus morros e prédios e lembranças. Há uma pipa vermelha e meu coração imita a cor da paixão despreocupada.

sábado, 19 de julho de 2008

o sonho persegue seu fim

(...) Não digo que a solidão não me é mais mistério: ela ainda por vezes dói, e é sufocante, ultrajante até. Hoje pela manhã senti a solidão do meu corpo. Meu corpo só inundando a solidão da alma. Dói ser jovem e ter o corpo só. Dói mais que solidão de alma, embora as duas coisas se confundam.
(...)
Já em BH, sozinha no quarto de Felipe, choro algumas lágrimas pela solidão do corpo do agora e na lembrança incômoda dos erros do passado. O espelho horroroso e sua verdade que acusa as bizarrices que escancaram: o mundo e os papéis desfilando, heróis heterossexuais com bodas de ouro e vilões descaradamente aviadados dando as bundas nos bares. A que mundo você pertence, imagem no espelho? Que universo é esse onde te deitas nua e assustadoramente atraente? Por que me fizestes assim, imagem no espelho? Que mistério é este que carregas com tanto medo?
(...)
Vi meu corpo se deitando em sonhos e havia um corpo de mulher a mais na cama estreita. Observei-a e era linda demais para que eu me deitasse sem o beijo de boa noite no rosto quente. Vi meu corpo se deitando em sonhos e havia dois corpos de mulher encaixados na cama estreita.
Adormeci sorrindo logo em seguida.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

DON'T PANIC

again and again

Oh, we're sinking like stones,
All that we fought for,
All those places we've gone,
All of us are done for.

We live in a beautiful world,
Yeah we do, yeah we do,
We live in a beautiful world,

Oh, we're sinking like stones,
All that we fought for,
All those places we've gone,
All of us are done for.

We live in a beautiful world,
Yeah we do, yeah we do,
We live in a beautiful world.

Oh, all that I know,
There's nothing here to run from,
And there, everybody here's got somebody to lean on.


e enquanto ninguém compreende comigo
compreendo sozinha
sem ter para onde ou porque fugir.

leaning on myself
and on nobody else

last but not least: a minha insegurança sempre foi por mim.
queimo renato na cruz
e esqueço-me dentro da nossa melancolia em comum

quinta-feira, 17 de julho de 2008

cadernos de viagem

distrito do tabuleiro, conceição do mato dentro, MG
14 de julho de 2008

De todas as descobertas de ontem, duas me ficaram mais marcantes na memória. A primeira, no Poço do Pari, quando eu, deitada nas pedras, me senti conectada a todos os pequenos pedaços de coisas que formam o mundo. Naquele momento eu era toda a existência em um só ponto e pude de maneira extrema sentir a misteriosa presença do Divino. Foi algo mágico e impossível de se descrever propriamente. As folhas das árvores dançavam acompanhadas pelas formas das pedras e pelos movimentos das águas. Naquele momento, eu mesma era as árvores, as pedras e as águas, todas unificadas dentro do meu fogo interior. Chorei pois podia me sentir e me via dentro de todos os lugares. Estava em paz pois sabia da verdade inegável da solidão que me povoa mas podia compartilhar com todas as formas a mesma solidão irrefutável. Todos, tudo estava só, mas tudo se cabia perfeitamente dentro de cada parte mínima. E naquele momento eu me coube em mim e sorri com lágrimas nos olhos.

domingo, 22 de junho de 2008

O PORNÔ GRÁFICO

Tive uma noite desvairada de prazer
Ao lado de uma morena imensa,
Intensa de presença.
Cama pura e sutra e puta sem-vergonha.
Nua a carne no úmido da fronha
Junto ao lençol entrelaçado
À confusão de braços e pernas
Que se tocam em explosão.