Eis a vida: ela nasce e cresce, simples assim. Nesse interim, eis-nos. Nunca os mesmos. Pela manhã berramos a fome: queremos Peito no nosso peito, alimentação de calor. Ah, a dor do primeiro corte, a eterna separação De si mesmo no outro. Aberto ao contrário: somos os assassinos De nossos próprios desejos. Não temos idéia da grandeza que somos E pela noite morremos Como se começássemos a sonhar.
Ah, a literatura é academia que é quimera diante da vida ególatra que quer gritar: mulheres e homens de toda a Terra, uni-vos em prol da vida! E eis que o coração pulsa e a alma sonha e quer desconjuntar a superestrutura desse nosso atual sistema pseudo-democrático, essa democracia que nada mais é que uma burocracia do demo, onde satanás com seus belzebuzinhos faz morrer milhares para apadrinhar alguns que jogam dados e decidem vidas e leis, sistema de apostas de vaidades e de joguetes de poderes, colarinhos roxos (de falta de vergonha) e presidentes do senado ilesos saindo com os rabos escondidos dentro das calças nos carros oficiais para os apartamentos funcionais para as milhas e milhas de viagens para toda a família: Sra. Senadora, Srta. Senadorinha, Senador Jr., Vovó Senadorona, Genro Senador e Nora Senadora, sobrinho Doutor Senador, Dona Senadorinha, e tantos outros da mesma estirpe, sustentados pela ruína moral de um país inteiro. Eis a burocracia da pseudo-democracia do demo, o povo. Que povo é esse que acata isso? Que povo é esse que se vende por isso? Não é o mesmo povo das escolas negligenciadas deliberadamente e dos hospitais sem leis e das periferias explosivas, enfumaçadas de pedra e descaso? Ou o país dos interioranos sem água mas cheios de esperança nas promessas dos crápulas de gravatas que enchem suas piscinas com água mineral e cheiram cocaína no lixo da nossa Constituição? Sim, eis o país que fazemos e que fizemos desde tempos irrefletidos, perdidos na nossa memória coletiva, nossa história de reis, coronéis ou senadores, quaisquer desses déspotas sem vergonha que comandam prefeituras, berçários, delegacias, tribunais, secretarias. Que mundo é esse que construímos? Amiga engenheira... Roguemos às pedras dos túmulos de Che Guevara ou Ghandi, esses homens sem túmulos, sim, roguemos às pedras da Terra que engole os corpos físicos mas que absorve também a energia de toda a nossa história; que a utopia viva e a mudança aconteça, primeiramente dentro de nós. Eu vivo para procurar a cura. Eu acredito em milagres. Que a humanidade renasça outra vez.
Às vezes escrevo não para tentar fazer poesia ou divagação filosófica, mas simplesmente para entrar em contato com algum ser humano, um contato físico, pelos átomos do papel e pela emoção da caligrafia, um contato que ecoe o incrível da experiência humana.
Sim, ser humano humano humano e desconhecer o que é humano... Ser pulsão e irracionalidade e pensamento e ciência. O que é Deus? O que é universo?
Amigo! A filosofia não comporta a magnitude infinita do universo, muito menos a ciência o faria!
Mas a religião aponta um dos caminhos: o espírito é necessário e a humanidade não deve compartimentar seus conhecimentos: a transdisciplinariedade, contudo, existe?
Como conhecer sem criar um ponto de vista?
Para ler Machado ou Huxley, preciso ter a literatura em vista?
Para ler o mundo, só a antropologia basta?
O mundo está mudando freneticamente. Vivemos a era intensa da revolução digital e tecnobiológica (genética!). Mudamos paradigmas em questão de décadas. Cagamos nas mesmas instituições que ajudamos a criar. Comemos lixo. Assassinamos nossos descendentes e desrespeitamos nossos ascendentes. Maculamos nossa própria casa e jogamos pedras nas dos outros.
Onde paramos? Já nem sabemos mais porque ir.
Que geração é essa, que consome todas suas esperanças em janelas de computadores?
Não. Não melembrodosmeussonhos. Mas abro os olhos para a realidade lancinante da vida: nada vale a pena, nem uma palavra, nem um poema. Não existe pena que valha, apenas somos todos tragados pelo movimento pendular da vida. Ela nos empurra para cá e para lá, num ciclo indefinitivamente, até que o cordão arrebente e cortemos qualquer ligação com essa existência misteriosa. Sim, nada vale a pena até que inventemos algo fantástico que nos faz permanecer vivos como sombras fantasmagóricas que somos: meros bibelôs do universo, enfeitando uma sala de visitas que não reparam em nada. Passamos pela vida como bólidos que se dissipam deixando um rastro que também se apaga. Somos marionetes manipuladas pela mão do invisível que nos engole. Assim, então, que invento hoje para valer a pena? Brinco com a esperança dissimulada que tenta ser verdadeira dentro de minha fantasia. Olho ao redor e percebo os homens: estão vencidos, comprados, corrompidos pelos seus próprios desejos. Então eu choro e percebo que minha invenção é como um brinquedo para alguém que já cresceu: nada mais sem propósito, porém dotado de alguma beleza nostálgica e impertinente. Minha imaginação também se corrompeu e eu jogo com os dados das Parcas, que, sorridentes, engendram meu destino de vivente fugaz que se apaga no tempo irrefletido. Observo minha vida: não há propósitos e nem destinos. Apenas. Caminhos.
Sim, sou como ele e como vários, eu, ele, nós, vocês, todos. Uma humanidade inteira numa ínfima faísca de luz que nasce no tempo. Assim como se Deus quisesse algo, eis Adão surgindo e comendo com Eva. Eis o desejo que escapa por entre os dedos de Deus só para ser pego logo ali, como se Deus tivesse mãos. O universo é o meu eu ao avesso. Tantos universos! Incontáveis eus passageiros, boiando na essência do cosmos! Oh, matéria inapreensível, energia inabalavelmente misteriosa! Quem disse que não há destino, quem falou? Que destino ingrato esse do que não tem destino, se movendo ao léu em meio a uma indefinição avassaladora! Ah, abismo de escuros, explosões dolorosas de luz, ah, incoerências! Mas no meu palco eis o enredo já escrito, na antesala entre a realidade e o teatro, no interim entre o tempo e a imobilidade. Eis o intervalo enigmático onde deita a vontade de Deus.
A manhã já passou. Eu espero a onda do dia que vem me beijar devagar, como se eu fosse praia... O salgado do mar me vem à boca: é a brisa que sopra metáforas no meu rosto. (...) Pôr-do-sol na antena de celular. O laranja que se dissipa, o azul-lilás, sinestesia silenciosa. Pássaros muitos pretos e marrons. Estranhos que vêm e se vão como se nunca houvessem existido. Sim, sim, sim, estou aqui mesmo como se nunca estivesse, estou e estarei. E cada lágrima é um sorriso a menos Ou um ensinamento a mais.
Se eu te escrevesse algo sobre o amor seria que os relacionamentos humanos, principalmente os que envolvem sexo, são todos problemáticos e inexplicáveis, e por isso mesmo acabam por trazer muita dor de cabeça e, principalmente as, fincadas no coração.
Homens e mulheres são todos muito vulneráveis e por isso mesmo egoístas, por vezes cruéis sem nem o saber.
Mas sim, como é bom sentir no peito a leveza pura e simples dos apaixonados...
E, no entanto, eis-nos amigas e mulheres que amamos demais às nossas maneiras, completamente conscientes da insanidade imoral ou doentia desse amor de querer ter, possuir entre os braços, acalentar no regaço, dizer o que quer que seja, amenidades...
E de repente a quebra: por um motivo ou outro, nós impedidas de amar esse ou aquela, indefesas, vencidas pelas conseqüências da vida.
Mas persistamos. A esperança é o dom eterno.
Não sei o que é escrever cartas, Gabriela.
Sigo a linha da vida e ela grita.
Passarela onde desfilo: parágrafos.
Quartos que se abrem para que estranhos entrem.
Sejam bem-vindos ao submundo de mais um de meus eus.
Líricos.
Versos ricos como os lírios do campo
Amplo
Paráfrase sem licença: pena sem juiz: roupa sem costura.
No fim da linha da estrada some minha amada que se afoga detrás do horizonte. Nunca mais a verei como a vi sem nunca conhecê-la verdadeiramente mesmo com o meu corpo inteiro a cantar o seu nome impronunciável. Ela que não era bela nem feia nem era qualquer qualidade aquém ou além do sublime. Ela que existiu somente nos meus sonhos mais espontâneos e livres. Ela que foi-se embora por detrás do horizonte sem me dar o sabor de um beijo sequer.
Andar sozinha no mato e não chegar a lugar algum além do próprio horizonte individual. Percorrer página e páginas de um livro e não ler história alguma além da própria estória, em cada entrelinha, em cada reticências... Sim. Eu me tenho desesperadamente e sinto o ar do pomar inexistente que existe em minha casa amarela deitada no vale aberto de meus sonhos. Hoje o dia passou sorrateiro... Andei solitária pelos caminhos que cortam a terra e segui os vôos das borboletas, a natureza brincou comigo em seus enigmas silenciosos. Ao mesmo tempo, sua orquestra de sons verdes preenchia meu derredor de modo solitário e ritualístico. Cada passo meu era uma oração inteira. Eu senti a tristeza do leito do rio que se deitava melancólico sobre as pedras. Era lodo e frio. Já o cascalho era seco e tilintava quebradiço. A umidez das baixadas tinha os cheiros da minha infância. Uma flor vermelha piscou pra mim. Feliz fiquei. E assim mesmo chorei.
Por mais que eu me esconda de mim mesma, sei que tudo aqui se remete a mim. Sim. Pois nada me pertence e tudo é me dado Como Deus numa bandeja ou a morte dormindo ao lado, eis. Sim. Esiseis esis eis Eis Que Qualquer Coisa O Pó da Estrada. (...)
Meu querido pai. Tudo que escrevo é pra Vo6 2. Feliz todos os dias.
A noite desceu indistinta. Sem perceber sorvi de sua escuridão devagar. De repente eu era a Lua que desaparecia De um lado do mundo para reaparecer em outro. Mudei de face. Enchi-me da cor dos astros E adormeci noturna.
Imagine: o ensino superior. Que indústria, hãn? Como as instituições de saúde ou as igrejas: todos vendidos a um preço de mercado, ações fantasmas, estagnação humana.
Há uma verdade monetária em nosso cotidiano. A luta pela sobrevivência pressupõe o lucro. Tempo é dinheiro. E dinheiro é negócio que é propaganda, a alma. PU – BLI – CI – DA – DE ! ! !
Vendamo-nos pois queremos sucesso. Sim! Carro modelo seu e casa arquitetada especialmente ao sabor do seu gosto. Sim! Pessoa bem sucedida não espera ônibus. Sim! Eu quero ser califa no lugar do califa!
Compremos os títulos! Ações! Mentiras!
Bem vindo ao paraíso dos 7 pecados: os capitais. A SOBERBA desfila essa noite, venha participar dessa espetacular experiência de sondar o insondável e querer o impossível que se faz palpável. Compre pecados a prestação. Via internet você os recebe. Oh, GULA! Delícia de visão nos braços da LUXÚRIA, mulheres minhas de aluguel. Beijam-se em lençóis vermelhos enquanto ORGULHO as observa com os olhos lacrimejantes a olhar a tela da câmera digital. Sim, elas se beijam e se entrelaçam nuas, únicas na noite cheia de soberba. “-Beba!” – sussurra-me no ouvido, a AVAREZA. Como se lhe assaltasse um surto de generosidade, ela quer me conquistar, estou lisonjeada. Bebo: o vinho é profundamente vermelho, meus lábios se pintam de doce e eu me deito com ela. É a cama que abriga um terremoto. E eu que me mergulho nela. Fim. Alvo reto! Gosto meu cheio de primícias peculiares. Ela que me suspira! Ira! IRA! E por fim, a PREGUIÇA, deitada nos meus sonhos a dormir profundamente.
Escrevo-te pois soa em mim o timbre do estranhamento: Tudo é Nada e é Novo, de Novo, Ovo. Coração descompassado: quem é ela? É a árvore? A espera? É Letícia? Daniela? Não, é ela. Que zumbe voando rasante para além de meu ouvido: Ela sem nome, sem umbigo. Um raio de sol ou gota de orvalho, Um novo andar por um novo assoalho. De madeiras milenares De estórias incontáveis. Ela invisível que ruge no verso, No avesso do inverso, Do poeta que vive.
Procuro as palavras e encontro barulhos: bater de picaretas, soar de vozes, explosões de neurônios. Dendrito, axônio, núcleo, dendrito. Palavras e líquidos, livros, idéias. Eu vejo a face da morte por detrás da máscara do espelho. Não há imagem sem dualidade, e o dois é a morte do um. Procuro as palavras e encontro os números, as multiplicações dentro dos integrais, o big bang desmascarado, o mistério do mundo desvelado pela matemágica do pensavento, ou algo assim.
"The mirror is round and entire, he said: like a soul that is in union with God. The soul reflects the dazzling beauty of God. In so far as the soul turns towards this beauty, it participates in it. By receiving the image of God it is transformed, and ends up sharing the very beauty it has sought and to which it has opened itself. God becomes part of the soul. (...) Why are we so often frightened to look for long into our own eyes in a mirror? Jesus asked: is it beacause we fear to see God reflected in there? We must learn from the woman, to look into the mirror more."
"O espelho é circular e inteiro, ele disse: como uma alma em união com Deus. A alma reflete a beleza deslumbrante de Deus. Assim como a alma se direciona a essa beleza, ela também participa da mesma. Quando recebe a imagem de Deus, a alma se transforma, e acaba por compartilhar toda a beleza que procurou e para a qual se abriu. Deus passa a ser parte da alma. (...) Por que frequentemente nós temos tanto medo de olhar para nossos próprios olhos num espelho? Jesus perguntou: é porque nós tememos ver Deus refletido lá? Precisamos aprender com as mulheres a olhar mais no espelho."
Mas vivo a geração que não sabe amar. Não sabe porque a todo momento quer reinventar o amor: os corpos suados, os parceiros postiços, as relações descartáveis. Vivo a geração do amor camaleônico de cama e banho apenas, a geração dos que fazem das relações pequenos jogos de interesses ególatras: vivo a geração dos homens e mulheres que se perderam de Deus para se encontrarem a si mesmos. E no espelho viram os olhos do Senhor.
No domingo eu tô fumando e fumada tomo o comando do avião que são as linhas cruzando o céu azul e branco do papel que diz qualquer coisa sentimentada e
Pára. Sonda. Sonha. Gira.
Estou dançando com a espanhola de cabelo de cetim e pele de veludo, lábios bordados num vermelho azul que se escorre por todo o seu corpo de boneca.
Ela foi costurada com palavras e nunca terá vontade própria. Ela é o recorte desferido no meu rosto exposto em lágrimas: ela se chama Emilia e é o meu amor deitado morto pelo azul da hora de crescer: adeus, brinquedo e olá, guerra.
A vida, tão frágil. Sento-me sobre os restos do meu dia. A morte ágil a tricotar ciladas com dedos maquiavélicos. Meu olhos cantam o medo: já estivestes na fronteira de Perder alguém? Assim, sem mais nem menos, alguém a menos em tua Vida. A morte, a armadilha, o precipício aglutinante da dor, A sepultura diante dos olhos incrédulos, a injustiça, O desespero. Eis logo ali o fim da travessia, da nossa irmã, Da nossa vida com ela, eis a despedida, ai. A fronteira de perder alguém me alcançou, meu peito chia. Senhor, me ampare, eia, adeus, Morrerei também com ela pois ela Morrerá em minha vida. A vida nos constrói as tocaias, é ela. A morte só espreita. Não crês no invisível, não te toca a fragilidade? Eia, adeus, o fim do poema propaga a idéia E a alma se liberta para reencontrar o mistério.
Provoque. Provoque, coloque em xeque, desconserte. Enlouqueça e incite o enlouquecimento, ironize, provoque outra vez de novo ao contrário do avesso, Faça com que surja o imprevisível. Mobilização interna. Já tenho o fogão, a cama e o cobertor na sala da mente. Avante e rente, crie respostas, ouça, veja. Pare. Erre. Pare outra vez. Erre de novo. Faça a curva e curve-se, leve-se leve. Deixe-se ser tomado. Plane sem plano.
Venho dizer que sou uma farsa que persiste adiante criando mundos. É uma tarde triste, uma garota dobra barquinhos de papel para jogá-los da janela do oitavo andar. Os rios secaram, a criança é presa de seus próprios desejos. Barcos de papel não voam, a garota me chama com sua voz de mármore sonoro. Ela é mais alta que eu, ela tem um balançar mais feminino. Mas ela não sabe, não sabe que o papel é dúbio, os rios secaram, é inútil debater-se pois os barcos não alcançarão os portos.
Mas a garota me chama, ela é sonora, sua voz me perfura. Não sei o seu nome mas vislumbro o papel que ela encena: está desejosa, me acena carinhos, tenta soprar meu suor. O papel ela dobra em barco e me lança através da janela. Ela quer beijar mas, muito mais, ela quer falar para se mostrar máscara, ela vem dividir a farsa comigo que aceito passiva sua intervenção dobrada em silêncio.
E, afinal, por que vivemos? Que desígnios intermináveis residem no intervalo de nossa existência? Hoje passei o dia dentro de casa e me senti inútil e confortável. Estou vendo a vida passar e assumindo minha ordinariedade intrínseca. Ser humana e padecer no inferno e mesmo assim ter tempo de inventar algum paraíso. A vida é tão frágil... Um simples desarranjo orgânico e eu sou tomada pelas garras da morte... E quando eu morrer pensarei novamente: por que vivi? E a resposta não virá pois não terei mais tempo para pensar. Padecerei. Desaparecerei. Não ouvirei os lamentos dos que me amaram. Não decifrarei o mistério da vida e adentrarei o mistério da morte tão ignorante e inocente quanto quando nasci. E então! Que melancólica essa existência! Que construir, se tudo será destruído inevitavelmente pela ação do tempo? Que buscar, quando o corpo está cansado e a psique abalada? Que fazer, amiga, senão viver e suportar uma existência inteira?
Mais um dia trespassado por entre meus átomos, esse dobrar de ângulos e papéis que é o tempo nos abocanhando e mastigando e cuspindo fora para abocanhar de novo num movimento acelerado que aponta para o apagamento de sermos finalmente engolidos e passarmos ao interior da escuridão do tempo que nos toma de cabo a rabo.
Estou abestalhada. E não sei se sou eu ou é o mundo, pois tudo se confunde. Estou abelhas.
A besta existe, tem chifres espiralados e lúgubres, e um sorriso escancarado, ela existe e tem olhos vermelhos e ela sai voando com rabinhos de capeta a balançarem no traseiro empinado, numa dança de cadeiras atrevidas e zombeteiras.
Desserenizo-me. Estou à deriva e quero desafiar o equilíbrio das coisas: trêmulas sombras no limite dos corpos. No horizonte a manhã se colore sombria e cinza, o sol se esconde com medo da densidade da chuva que vem apagar o fogo. Escureço ao redor. Gris melancolia trazendo o tom da minha imaginação criadora. Mais tremores nos limites das coisas: é meu coração que pulsa ou o derredor que sopra? É a maré dos ventos me bombeando vida pelas veias, a força do invisível a habitar os vãos de meu eu. Meu corpo sonha uma alma. Ela tem um rosto de Lua, iluminado e pálido, cheio de solidão. Meu corpo sonha uma alma. Seu corpo são raízes infiltrando-se na terra úmida e fria que se abrasa com a vida que invade. Sonhos de resgate, desejos de dissipação. Meu corpo imagina o intangível que se solidifica no material onírico que nasce com o balançar das árvores do meu jardim. Ela tem os gestos verdes e o semblante carregado de placidez. Eu a procuro.
Em meu ofício ou arte taciturna Exercido na noite silenciosa Quando somente a luz se enfurece E os amantes jazem no leito Com todas as suas mágoas nos braços, Trabalho junto à luz que canta Não por glória ou pão Nem por pompa ou tráfico de encantos Nos palcos de marfim Mas pelo salário mínimo De seu mais secreto coração.
Escrevo estas páginas de espuma Não para o homem orgulhoso Que se afasta da luz enfurecida Nem para os mortos de alta estirpe Com seus salmos e rouxinóis, Mas para os amantes, seus braços Que enlaçam as dores dos séculos, Que não me pagam nem me elogiam E ignoram meu ofício ou minha arte.
(...) ainda erro, erros, como errando pelas linhas e escutando o semáforo do Vanguart me lembro das vanguardas dadas surreais que despedaçavam a arte e percebo que na literatura eu coloco música e sou teatro pois permaneço esperando Godot e acredito no relógio mas sei de sua efemeridade pois o tempo é só estória e a história é dos vencedores, porra, e quem disse que eu quero compactuar com isso, com essa dinâmica torpe desse mundo de vencedores raros e hordas infindas de perdedores que choram a morte de um filho ou a injustiça de um P.M.? Me diga: quantos são corruptos? Quantos não o são? E os que não são, ainda estão vivos? Me diga: por que o umbigo? Senão para que olhes sua inutilidade, seu mero aspecto ornamental, o umbigo ego que cega qualquer um que viva nesse mundo de outdoors e jogadas de marketings pessoais.
A História e a Literatura são vozes dos vencedores.
Mas a Literatura ao menos humilde tenta chegar à voz dos todos outros perdedores, que ficaram sem voz diante do meritíssimo juiz da comarca.
Eu perco. E luto. Gosto do povão. Acho que sou um deles, mesmo burguesa nascida que sou.
Amigo meu. Hoje sou perdedora. Perco a fala diante dos maurícios e patrícias dessa vida.
É isso. Nunca quis ser Patrícia! Sou introvexa! Cancerígena! Caranguejeira! Puro veneno, emoção, sentimento! Sou a cadeia montanhosa de signos em avalanche de pedras atravessando as linhas e destilando o soro antígeno da cura que tenta chegar através das palavras.
Hoje estou triste. A melancolia de todos os meus ancestrais reúne-se nessa noite para tomar-me por completo. Percebo-me como nunca antes: sou temor e resignação, sou rendição, sou lágrima. Sem motivo aparente, mergulho em sensações tenebrosas, desenho no livro de minha vida o símbolo da derrota: gemidos de traços trêmulos, corações expostos, desesperança aglutinante de todos os males. Eis-me no hoje triste. Estou desistente, chorosa. Não creio mais nem na palavra: morro no ponto final. Ah! O que acontece é que não me encaixo na dinâmica exasperante do mundo e então ela me sufoca e eu quero que tudo desapareça. Tenho vergonha da máscara social que uso mas mesmo assim não tenho condições de outra usar. Isolo-me cada vez mais, pois as pessoas me acuam, suas palavras são como monstros que me envolvem ameaçadores, seus olhares são dardos alvejados contra minha frágil configuração: sou a estranha dos dedos de contorcionista, a doidona da risada escandalosa, a moça de quem não sabem o nome. Sou o ápice do uncool, o apogeu do mal-gosto estilístico, o vértice da sem-gracice. Sou a pessoa que se esconde atrás dos estereótipos mas que os carrega como armaduras incômodas, uniformes sem brilho. Sou isso, sou aquilo, e sigo só e sem nome de renome, sem estrela na calçada, sem outdoor de promoção. A ordinariedade me trespassa, ardo de rancor para comigo mesma, carrego anos de decepções amorosas e séculos intermináveis de solidão. Revolto-me mais uma vez contra a dinâmica do mundo e do meu rosto descem lágrimas e gritos de desespero: tudo é em vão para mim, mesmo não o sendo para o tudo! Minha vida, peça dolorida no tabuleiro imaginário do jogo que deus joga com o diabo. Ah! Tudo queima, arde como sal na ferida, rasga como hemorróidas lambuzadas de bosta, tudo fede e machuca como as palavras dos inimigos, tudo aponta e acusa como as mãos dos judeus que mataram o Cristo, tudo anseia eternidades e chora pecados... Tudo me magoa e é minha própria mão que balança o ritmo dessas palavras de fel que querem ser expiação pois é só isto que resta: entôo cânticos de maldições infindas e meu suspiro espera a morte. Tudo é dor dentro do meu eu em pedaços, dilacerado por uma existência de conflitos internos impronunciáveis e de desarranjos sociais notáveis a olho nu. Choro minha singularidade que revela não só a mim, mas ao eu de todos aqueles que viveram a oportunidade desesperadora de um mundo onde os deuses nascem mortos e os anjos não existem. Sou a lágrima derradeira de um sonho-pesadelo: meu reflexo no espelho.
Agora eu estou em casa de minha avó e tomo uma limonada enquanto Dona Geni come um abacate com açúcar e Tina degusta uma maçã. Casos de família.
Temos uma tia, a Dedé, irmã da Tina, filha da Dona Geni. Ela nos dizia que havia ganhado um pozinho mágico de uma bruxa, o qual ela guardava num saquinho que nos mostrava para nos fazer medo. Dizia que aquele pó a transformaria num monstro, e ela então nos engoliria pois fazíamos muita bagunça. Ela se transformava num daqueles monstros horríveis do Jaspion. Foi uma moça estranha – uma bruxa! – num banco de praça que a presenteou com aquele pozinho mágico, dizendo que com aquilo ela poderia fazer o que quisesse e sonhasse, mas que deveria ter muito cuidado ao usá-lo. Algo deve ter dado errado. Ela se transformava em monstros do Jaspion! Meus Deuses, que viagem! Ser criança é mesmo um tróço único.
"Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual, o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou - amigo - é que a gente seja, mas sem precisar saber o por quê é que é. Amigo meu era Diadorim; era o Fafafa; o Alaripe; Sesfrêdo. Ele não quis me escutar. Voltei de raiva."
Teu nome ressoa profético e milenar como o trabalho das abelhas ou as espumas do mar. Lembro-me de uma cova, alcova, caverna, onde leões rosnavam ameaçadores. Era na noite onde teu nome ecoou antes mesmo de teu nascimento. Não somos nós o desenrolar das palavras, das estórias, dos sonhos dos nossos antepassados? Sim, a profecia das abelhas E os milênios do mar... Nossas palavras, Nosso ressoar.
Veja!
Hoje larguei de lado, pelo menos por enquanto, a psicanálise. Deixei-a no divã com a doutora de olhar amarelo do lado. Foi-se, num tantico de lágrimas amargas e orgulhosas, foi-se. Acabou-se. E, do outro lado da história, meu caminho se abrindo selvagem e vacilante, mas cheio de coragem. O bom da vida está aí. É coisa da Santa Natureza. Tem gente que pensa que o humano não é natural. Talvez não seja mesmo. Talvez o humano respire um ar artificial. Mas, então, não seria a própria Natureza uma produtora de artificialidades? É. Não há como fugir do tecnológico. Ele nos traga, está por todos os lados. Ondas eletromagnéticas que nos trespassam subliminares, sutis, enigmáticas. Um amigo meu me disse que inevitavelmente o homem se tornará máquina, pois a vida é frágil e a máquina permanece. Me deu foi medo essa idéia dele. A máquina já não seria humana, seria? De qualquer forma, confesso ser avessa a tecnologias. Mas estou contaminada por elas. Talvez por isso ainda precise de amar o contato do papel e da caneta entre os dedos. Para amenizar a derrota progressiva dos manuscritos, e manter a resistência ativa e na luta pela caligrafia... Obviamente, para além dessa grande viagem em prol da escritura sem teclas, escrevo no papel pois o correr da caneta é necessário e meu olhar busca as formas das palavras se encontrando. Amigo! Leia e escreva sua vida com fé em si mesmo e no mundo, meu querido Daniel na cova dos leões como eu...
Ela apareceu por aqui e eu gozei pois era bom ritmar aquela música de sexos. Foi lindo!
Eu estou faminta agora. Ela foi embora.
(...)
Amigo meu. Que estranha conexão é o sexo o os sentimentos que dele advêm! Pois somos tão diferentes e que modo desesperado e louco é esse de nós nos tocarmos. Coisa de pele, que só a pele explica, quando toca, quando arrepia, quando sua. Que loucura.
20-02-09
Eu não consigo mais ficar como quando tola eu ficava pela minha amiga ou minha analista: perdidamente apaixonada. Eu não mais me apaixono perdidamente. Quando eu me apaixono, procuro ser achada. Achadamente apaixonada.
É muito difícil ter que carregar uma história inteira nos braços. Por isso eu conto várias outras. Para que a variedade labiríntica delas me disperse da minha verdadeira história, tão difícil de ser carregada.
E minha verdadeira estória chora o amor de Werther, de Florentino Ariza jovem, de Riobaldo temeroso. Ontem pela noite, com ela nos meus braços, a estória do meu fantasma de olhos incertos tomou lugar em minha boca e eu não chorei pois precisava engolir a seco e ela me ouviu sem entender realmente e eu me perguntei por que as cicatrizes daquele meu precioso fantasma ainda doem tanto.
Imaginei então que bem dentro delas o ferimento ainda pulsava dor. E pela primeira vez em anos me vi adolescente e aceitei minha ingenuidade. E pela segunda vez em anos vi e senti com todas as letras que meu fantasma me acompanhará sempre que eu tiver uma mulher entre os braços. E já não temi a presença dele, sorvi a dor e me preparei para desafiá-lo.
(...)
Redesenho minha Carlota, minha Fermina, meu Diadorim. Um fantasma de vários olhos no pesadelo das minhas linhas quebradas ao meio. Me trespassa com a rejeição, me traz lágrimas aos olhos, me condena a penitências eternas. Grilhões nas mãos e pernas, mordaças na boca sedenta, vendas nos olhos desencantados. Quero gritar mas não tenho voz.
Ah! Imaginação cortante!
O fantasma.
Na sala de fundo meu amor me espera nua e sem literatura, mas suando poesia.
Não há deslumbramento melhor que a desilusão adocicada pelo livramento.
Eu nunca guardei rebanhos, Mas é como se os guardasse. Minha alma é como um pastor, Conhece o vento e o sol E anda pela mão das Estações A seguir e a olhar. Toda a paz da Natureza sem gente Vem sentar-se a meu lado. Mas eu fico triste como um pôr de sol Para a nossa imaginação, Quando esfria no fundo da planície E se sente a noite entrada Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego Porque é natural e justa E é o que deve estar na alma Quando já pensa que existe E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos Para além da curva da estrada, Os meus pensamentos são contentes. Só tenho pena de saber que eles são contentes, Porque, se o não soubesse, Em vez de serem contentes e tristes, Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos Ser poeta não é uma ambição minha É a minha maneira de estar sozinho.
One day I'll find relief I'll be arrived And I'll be friend to my friends who know how to be friends One day I'll be at peace I'll be enlightened and I'll be married with children and maybe adopt One day I will be healed I will gather my wounds forge the end of tragic comedy
I have been running so sweaty my whole life Urgent for a finish line And I have been missing the rapture this whole time of being forever incomplete
One day my mind will retreat And I'll know God And I'll be constantly one with her night dusk and day One day I'll be secure Like the women I see on their thirtieth anniversaries
I have been running so sweaty my whole life Urgent for a finish line And I have been missing the rapture this whole time of being forever incomplete
Ever unfolding Ever expanding Ever adventurous And torturous And never done
One day I will speak freely I'll be less afraid And measured outside of my poems and lyrics and art One day I will be faith-filled I'll be trusting and spacious authentic and grounded and home
I have been running so sweaty my whole life Urgent for a finish line And I have been missing the rapture this whole time of being forever incomplete
Estou radiante, mesmo a noite sendo plena, eu radiante na suspensão dos momentos que se esbarram entre os diálogos que são travados como aventuras que são as estórias que as linhas contam. Nessa tarde secular eu liderei exércitos – eram soldados amarelos e radiantes como eu radiante agora nessa noite que é plena – que saíram da América para adentrar a Ásia e por fim desolar a África e eram exércitos cheios do orgulho da guerra alimentada única e exclusivamente por ambições pessoais e o sangue correu em milhares de litros e braços e orelhas decepados e caralhos voando sob o som das bombas que explodiam imaginárias dentro do tabuleiro do jogo de estratégia.
Mas olhe, pesco as palavras, é um negócio de sorte ou azar, esse pescar. Lógico que se deve ter em mente a logística do rio, das águas, dos barrancos, sim, conhecimentos de pescador. Mas pescar também é sorte que eu sei. Como tirar da cartola alguma coisa: você não sabe se será esperança ou destruição, mas você pesca alguma mágica quando se põe a escrever contando com a sorte.
É certo que, depois de se pescar, é necessário preparar o peixe. Da mesma forma a escrita. A gente rabisca, muda de lugar, acrescenta. No fim tem um bom peixe empanado.
Aí você come. Aí você caga e a bosta volta pra terra. E pronto, a história nunca termina.
"(...)E me canso do livro e olho para as árvores e vejo-as acenando para mim. E elas são lindas e eu lamento não poder ser árvore para dizê-las que me apaixonei pelo balançar de suas folhas, tão cheio de verão. (...)Minha alma não sossegará na sobriedade insípida. Provo da loucura de cada momento de lucidez e da maldição sagrada de cada gole de vinho. Todo método se esgota por si mesmo."