quinta-feira, 3 de março de 2011

Marília de Dirceu - Terceira Parte

...o claustro e o exílio...


LIRA II




Em vão do amado

Filho que foge,

Vênus quer hoje

Notícias ter.


Sagaz e astuto

Ele se esconde

Em parte aonde

Ninguém o vê.


Dos sinais dados

Bem se conhece

Que ele aborrece

A Mãe que tem.


Se os seus defeitos

Ela publica

Razão lhe fica

De se ofender


Foge o Menino

E, disfarçado,

Vive abrigado

Numa cruel.


Com mil carícias

A ímpia o trata;

Nem o desata

Do peito seu.


Se a semelhança

Sempre amor gera,

Deve uma fera

Outra escolher.


Ah, se o teu nome,

Marília, calo,

Que de ti falo

Bem podes crer.


Tomás A. Gonzaga, in.: Marília de Dirceu

terça-feira, 1 de março de 2011

Quando os sinos não dobram


São tantos significados

A se dessignificar dentro de mim.

As angústias ontem eu quis beber

Mas só hoje acordei

Pois era doce o soar do desengano.

Gritos ecoavam nos meus salões vazios

Eu era o horror ante o horror de si mesmo.

E tudo chorou dentro de mim.

E assim eu hoje acordei atravessando

O reverso de toda a dor que quero esquecer

Mas, se a esqueço, como fazê-la verso?

Ei-la dor diante de mim.

Mas ainda assim, doce.

Doce dor a dar-me o mistério,

Aquele que se incompleta a cada

Instante indelével em que sou

Gente.





in.: os cadernos p/ mim mesma, 26-02-11

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

aleatórias

A tarde se estica em seu auge ensolarado. Eu mais uma vez refém de meus hábitos: abraço o parque da cidade em minha bicicleta nova: ela não funciona direito mas mesmo assim eu consigo me divertir.

Muita coisa importante ta acontecendo na minha vida. Não há literatura que güente tanta pancada.

Por que diabos aboliram o trema?

Robustez eu não

Tenho. Se tive, o

Cigarro apagou para

Acender a tosse.

Eu sei, eu sei. As pessoas se viciam. Mas eu não tenho medo: a escolha virá linda e dolorosa me fazer decidir.

Sempre é assim: uma opção também denota um abandono.

(...)

Dizem que eu sempre fui melancólica.

Dizem certo, mas se esquecem de dizer

Que eu sou muitas.



in.: os cadernos p/ mim mesma

05-12-10

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

No parque sob o sol

Sobre o tempo e pensando sobre o amor de Lord Henry

As curvas do tempo são surpreendentes. Eis a criança querendo adultecer sem conseguir se expressar. A menina me olha em silêncio, esconde seus pensamentos, torna-se secreta pra mim. Eu a olho e a medida em que os dias passam ela se torna mais e mais desconhecida, ainda criança em minhas memórias, de carnes tenras e olhos puros, mas terrivelmente modificada pela distância crescente que nos separa. A criança adultece sem precisar de mim. Sou um mero brinquedo se tornando aos poucos uma lembrança tênue, quase transparente. Eu fui embora mas ela ficou em mim.


in.: os cadernos para mim mesma, 16-02-11



"My dear boy, people who only love once in their lives are really shallow people. What they call their loyalty, and their fidelity, I call either the lethargy of custom or the lack of imagination."

Lord Henry in The Picture of Dorian Gray




sábado, 19 de fevereiro de 2011

A MEMÓRIA DO TAMBOR DO CORAÇÃO

Ao longe as percussões do parque da

Cidade

Cidade que me leva ao léu do leme da

Vida

Vida que é sofrida e repetida em cada

Compasso

Passo que eu dou em direção às minhas

Mortes

Mortes que são nada além de partes de

Uma história

Esta que é contada e que reside

Na Memória.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Desfrut Bar

Reencontro com meu amigo.
E meus amigos.
Minhas cervejas.
Meus baseados.
Que são esses momentos? A minha bike encostada ali, os nossos pensamentos se trançando, as ideias simples transbordando pela mesa.
Amenidades.
Eu sei, chegamos no momento iminente: é agora ou nunca. Bebo água. Bebo lágrimas. Degluto sorrisos. (...)
Estou ébria porque quero.
Mergulho porque pulo
E pulo porque minhas pernas
se enchem de tensão
para que a mudança venha.

in.: os cadernos para mim mesma, 13-02-11


terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

escreviver

Avoluma-se meu isolamento subjetivo: estou palavra. A síntese do real – que refresca a nuca com vento frio e enche a boca com o gosto do cigarro – se quebra quando é escrita: dita, dilui-se como o sal na água. Não há uma só verdade que perdura: tudo se torna vago e trêmulo como uma tv mal sintonizada.

Eis que eu tento apreender esse real: há pássaros gritantes, uma mangueira acolhedora, passantes com suas bolsas. Veja: as pequenas sementes da grama balançam levemente pra cá e pra lá, espetadas no carpete verde que me rodeia. Guapuruvus agigantam-se mais adiante. São meus pois eu os escrevo, eis minha porção mais egoísta.

Mas onde está a poesia. Sempre a procurei, por muitas vezes passei meses pensando ter a encontrado. No entanto, que estrago: tudo o que escrevo são cartas, pois esse egoísmo tão nato não quer se fazer tão possessivo: busca amenização nos olhares alheios: cartas pra que as quero. Não há outro meio: sempre que escrevo, relembro de ti ou dela, dele, as pessoas que me sabem humana e me conhecem na minha porção mais real: aquela de fora de mim, com cabelos que embranquecem e unhas mal cuidadas, sardas espalhadas e gargalhada esparramada. Quando o remetente se delineia eu me consigo fazer presença real. A poesia mistura tudo, falseia a experiência imediata: essa que me corre nas veias. Eu quero que a frase seja dita sem precisar rimar com nada: tudo o que existe em mim é suposição quando eu coloco na boca: as palavras são tudo o que tenho, mas nunca saberão expressar o que sou.

Então quero me descobrir aqui. Mesmo que eu duvide de tudo, as metáforas são os instrumentos mais propícios para a expressão de mim mesma, essa explosão de significados que afoga qualquer tentativa de contenção: de repente tenho frases saindo da boca e adentrando o papel. De repente quero dizer que hoje eu não fui trabalhar pois tudo se perdeu: eu precisava andar de bicicleta e pensar na vida. Estou feliz, mas estou triste. A ansiedade é algo que me salta nos atos: meus dedos se contorcem, minha perna tremilica, meu nariz coça. Como é imenso ser humana: a gente expressa essa angústia no próprio corpo.

E, no entanto, oh não, onde eu comecei, onde vim parar, onde, onde...

Estou sob a mangueira de bicicleta e uma chuva vem aí. Vou saindo dessa e entrando em outra.



in.: cartas p/ o fotógrafo, dez/2010

domingo, 13 de fevereiro de 2011

o surto

01-02-11

Num banco sob a sombra agradável, 312SUL

Antes de mais nada adianto- me: a loucura – nua e crua

- não é nada agradável.

Ela grita, sapateia, inventa, devaneia, contradiz, recontradiz e continua.

- nua e crua

- como um assassinato.

Nessa noite eu atravessei a barreira do insondável ouvindo meu grande amigo em seu devaneio psicótico.

Ele surtou. Meu Deus. Ele surtou.

Oi!

Ou foi eu?

Foi?

No final das contas, como meu amigo, eu resumiria toda minha angústia em pequenas frases com o meu sentido mais íntimo.

A culpa não foi nossa.

A culpa é dos livros. A culpa é do Zizeck e sua visão em paralaxe. A culpa. Culpa.

Onde foi que eu me perdi?

Na noite anterior olhos lacrimejando desreconheci meu amigo, olhei-o nos olhos sem o ver, ele com seu orgulho intocável, sua estatura acadêmica e esquizofrênica bem mais imponente que a minha, ele que é um dos caras mais inteligentes, seguro de si – e portanto às vezes orgulhoso em demasia, ele, quem? Olhei-o nos olhos e continuei a procurá-lo a noite inteira, sem conseguir, até que me rendi a ouvir seus disparates, estirada na cama com os olhos vermelhos de sono, exercitando minha paciência, deixando que seus discursos repetitivos ecoassem sórdidos na minha cabeça, assim loucamente até que me cansei, levei o colchão para o banheiro e lá me deitei, assombrada pela transformação do sujeito em mero discurso insandecido, a descida do consciente ao inominável, os solavancos de um eu despedaçado ante o desaparecimento da censura. Ele me gritava impropérios e eu os escutava como se não viessem dele, como se viessem de um mundo paralelo para além de meu amigo que, surtado, desfilava um sintoma seguramente enlouquecedor diante de mim.

E que fique claro, agora: para ele, a culpa era da televisão, que servia de palco horripilante para toda a carnificina da modernidade, essa loucura cruel que as gerações vindouras herdarão: a que gera moral a partir do mercado.

Portanto: a culpa é dos livros ou da televisão?

Independentemente de tudo, percebo: a culpa era nossa.



in.: os cadernos para mim mesma, 01-02-11

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

cartoema

Às vezes pareço estar no limite: muitas coisas ao mesmo tempo, o meu caos extrapola o aceitável e a angústia latejando no peito. Impossível me desvencilhar dela. Apenas na oração consigo aceitá-la, porém nunca me livrarei dela. Nunca nos livraremos dela, mas é bom que não pensemos nela. É bom que olhemos os novos horizontes com perseverança a salgar a boca. Não há escapatória: vivamos. Atravessando os dias azuis de desilusão, as tardes vermelhas de paixão, as noites brancas em sonhos. Não consigo evitar: a poesia invade a carta e não sou eu que pedi para ela entrar. Ela atravessa minha escrita com passe livre, disfarçada nos mais variados trajes.

Ah, sim. A poesia. Ela me relembra a angústia reveladora de ser homem e mulher. Não preciso explicar: é como se minha barba crescesse a olhos vistos e meu marido fizesse serenatas apaixonadas na madrugada dos meus sonhos mais femininos. De repente me dou conta que é isso: a poesia faz com que eu me encontre mesmo perdida entre as metáforas, mesmo tão dúbia e ilógica, mesmo tão Teresa e tão de Deus.

Amigo meu!



in.: cartas p/ amarante

sábado, 29 de janeiro de 2011

em última análise, ...

Eu falava do fim. Era numa manhã bem cedo, eu saía do consultório. Eu me desapaixonei por todos. Apaixonada eterna que era, me desapaixonei para assim permanecer. Era ela ou Ela era? Sondei o coração e ele não bombeava lágrimas. Eu estava cheia, ou quase isso. Como garrafa cheia de areia mas onde ainda cabe água. Eu não tinha medo, degustava minha apreensão. Estava livre, mas sabia que para isso era necessário que eu entendesse minhas próprias pernas, e os limites delas. Qualquer passo desmedido causaria uma queda.

Então caminhei. Andei sem medo, levada pela novidade. Acreditei em mim pois era só eu e o mundo. Então o mundo me mostrou Deus e eu deitei lágrimas de alegria e agradecimento, estranhei a natureza de sentimentos tão contraditórios, eu era só mas tinha Deus, como era possível? Entendi então que Deus não precisava ser possível, pois, mesmo impossível, ele seria.



in.: cartas p/ amarante, 03-12-10

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

sobre os sonhos e os fatos

(...)
E os sonhos, o que são? Devaneios presentes de um futuro passado, metáforas do real, os sonhos, o nosso combustível cruel e misterioso.
E os fatos, o que são? Pano de fundo dos sonhos, tentativas desencontradas de se organizar o caos que nos trespassa. Os fatos são cacos espalhados nos segundos que já passaram.

in.: os cadernos de viagens, 13-11-10
Rio de Janeiro

domingo, 23 de janeiro de 2011

ELA (de novo)

(...)Ela
Uma pessoa
que atravessou meu coração
sem precisar parti-lo no meio.


in.: Os Cadernos de Viagens, 27-11-2010
Belo Horizonte

sábado, 22 de janeiro de 2011

O NOVO VEM

Como um caminho disperso, sou trilhas cortando chãos. Atravesso ruas. Ela está aqui. Amanhã não sei: quedo-me nesse momento. Meu presente é sonho, dissipa-se num despertar. O amor existe assim como o sono insiste em se fazer palpável. Tudo bruma, um respirar e tchau. Vou embora, além na alma, tudo que vive morre, é a lei da natureza, a lógica cósmica: o novo sempre tem que vir.

in.: Os Cadernos de Viagens, 04-01-11
Mar del Plata

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

MAR DEL PLATA

"3 dias de muitas nuvens e pouca praia em muitas intensidades. Bebidas, comidas, estrangeiros. Sonhos que respingam na chuva que cai lá fora. Aqui dentro, os amigos espalhados pela cama, os resquícios da viagem se acumulando pelos cantos do quarto de hotel, os momentos nostálgicos se condensando em instantes eternos. Depois que a chuva para e a terra seca... 'Teresa, você devia estar aqui e não escrevendo...'
...
a gente lembra

que viver é mais."



in.: Os Cadernos de Viagens - Mar del Plata, 06-01-11

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A CACHOEIRA

(...) A cachoeira canta pra mim hinos de sagrada beleza aquosa.
(...) Deixo que os sonhos toquem sua harmonia caótica, que ecoem com sua sede de real dentro do meu coração que deseja. Estou natureza como se residisse nas pedras e comesse oxigênio. A vida ao meu reduor deslumbrante me sorri plena de si: o vento me refresca as costas e eu sonho a realidade enigmática da terra que me abraça mãe sem tréguas. Ali logo a frente a cachoeira se presentifica: há pessoas nadando, uma criança grita de alegria quando sente a areia tocando seus pés. A formiga perdida aqui do lado dá voltas pela pedra que continua contando suas inúmeras estórias.
Assim a pedra sonha e eu reverbero meus sonhos nela.

in.: Os Cadernos de Viagens, Pirenópolis
11-12-10

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

oração

(...)
E agora?
Tudo vem de fora!
Sinfonia de cigarras sob templo feito de nuvens: anjos tocam trombetas no céu que aurorece como ouro: as bases desse templo dão o tom dourado que me invade os olhos no lacrimejo simples de meu coração... A obra que Deus me deu é essa que descrevo aos trancos e barrancos, nos solavancos do meu peito, esse céu sagrado que o mistério colocou em minha vida: meus amigos, meus amores. Eis a cura do mal que inventei pra mim.
A solidão é benesse também. Me dá rigidez de espírito, afia minha alma. Sabemos já de antemão: nascemos sozinhos e sozinhos morremos.
(...)
Ciclo que se renova. Vidas que vem e vão. Força que me bate o peito: prepara meu coração! Que os ventos não me abalem, que meus dias não percam a cor! Que meus medos não falem, que em tudo eu credite amor! Que os anjos povoem os sonhos e que eu ouça todo o esplendor da vida em todos os momentos de minha existência.

in.: os cadernos da chapada, vol. Cavalcante II

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

a dialética da consciência

(...)

esse imenso mistério ensurdecedor.

Às vezes parecemos adormecer com a alma serenizada, as dúvidas varridas para fora da casa do coração. Mas bastam-nos os sonhos para que os incômodos fracassos voltem à tona ao amanhecer. Então acordamos para um novo dia novamente realimentados em dúvidas e nadando indefesos na imensidão do acaso.

Hoje meu dia amanheceu domingo azul e belo, haviam flores nos olhos das pessoas, eu sorri. E no final da noite já eram trevas novamente: dei de encontro com tropeços que deixaram meu coração machucado. Quis voar em direção ao espaço e sumir na solidão de mim mesma. Então me deitei sobre minha cama toda desarrumada e pensei em te escrever e a sensação de deitar palavras sobre o teu papel é algo que me acalma o espírito da angústia imorredoura que sempre me povoou a alma: amanhã morrerei e o sentido da vida é bruma, muito embora eu acredite vislumbrar de longe o sentido da morte.

Busco o amor. E ele parece sempre escapar entre os dedos. Mas foi ele que me restou ao acordar do sonho.


(...)


in.: cartas p/ dionis

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Cachoeira do Poço Encantado

Terezina de Goiás, 12-10-10

Poço
Em que compartilho minhas alegrias e meus dilemas.
Escorrem-se pelas tuas pedras as lágrimas da terra na cachoeira que entoa cânticos de dor e de esperança.
Os ensinamentos também fazem doer e os encontros vão se desencontrar um dia.
Sorri a poesia pois mesmo assim serei bela: a dor tem seus traços serenos, envolve-nos com seus braços fortes para no fim adornar nossos semblantes com a beleza da experiência.
Lá se vão as desavenças: escorrem como a água da cachoeira.
Não há nada como o tempo para cicatrizar as feridas.

in.: os cadernos da chapada

sábado, 4 de dezembro de 2010

conexões

Avistei no horizonte da tela do celular
Hugo Lins chamando
Eu atendendo e sendo transportada
Para o parque da cidade
Com latinhas sobre a mesa de concreto
E estórias dos amigos verdadeiros
Que mudam no mistério dos encontros.
À primeira vista, amor.
À segunda vista, diálogo.
À terceira vista, sabe-se lá o que!

in.: os cadernos p/ mim mesma

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Segunda Epístola aos Coríntios

"É por isso que nós não perdemos a coragem; e mesmo se, em nós, o homem exterior se encaminha para a sua ruína, o homem interior se renova dia a dia. Pois nossas tribulações de um momento são leves com revelação ao peso extraordinário de glória eterna que nos preparam. O nosso objetivo não é o que se vê, mas o que não se vê; o que se vê é provisório, mas o que não se vê é eterno.

Pois sabemos que, se a nossa morada terrestre, que não passa de uma tenda, vem a destruir-se, nós temos um edifício, obra de Deus, uma morada eterna nos céus que não é feita por mão de homem."



Capítulo 4, 16-18

Capítulo 5, 1


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

dos sonhos sem poupar excessos

Boa parte de meus sonhos se perdeu na estrada, mas nessa perdição eles acabaram por encontrar outras pessoas para ser sonhos novamente nelas. E nessas pessoas meus sonhos vicejaram dentro e fora de mim.

Para então, enfim, se perderem novamente, rumo ao infinito e cada vez mais distantes da dor.


in.: os cadernos para mim mesma, 08-11-10

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

ROSA, Guimarães

"Ah, o tempo é o mágico de todas as traições... E os próprios olhos, de cada um de nós, padecem de viciação de origem, defeitos com que cresceram e a que se afizeram, mais e mais. Por começo, a criancinha vê os objetos invertidos, daí seu desajeitado tactear; só a pouco e pouco é que consegue retificar, sobre a postura dos volumes externos, uma precária visão. Subsistem, porém, outras pechas, e mais graves. Os olhos, por enquanto, são a porta do engano; duvide deles, dos seus, não de mim. Ah, meu amigo, a espécie humana peleja para impor ao latejante mundo um pouco de rotina e lógica, mas algo ou alguém de tudo faz frincha para rir-se da gente... E então?"

in.: O espelho.
Primeiras Estórias

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Cigarras, Cigarros

Brasília, 21-10-10

Olho a UnB de fora de mim mesma
obviamente
Batuqueira em roda
Teatro de cigarras e cigarros
Homens seres no exercício do tambor
Pisando a terra que a chuva molhou.

Sorrisos gratuitos na medida de seus mistérios
Olhares sós...
Eu só observo, sob as cigarras
Que gritam e mijam sobre mim.

Ah, chega de poesia.
Agora é só cigarro e som.

in.: os cadernos p/ mim mesma

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

DIAGAY: 24, BARDOT, Vicente Pires

24-09-10
Somos levados pelas vibrações dos átomos do espírito, tragamos os segundos, vibramos junto ao desejo de ser: ar sem parapeito, planar sem destino, amar com desatino. Confluências divinas ou divinatórias.
Glória também é ser carne
a trotar em sonhos.

Deus abençoe os gostos
ou mesmo os desgostos.

SAIBAMOS VIVER

COMENTÁRIO DO REICH: "Marlene Matos ao lado!"

domingo, 31 de outubro de 2010

Tão Brasília

Cá eu num gramado em frente à EPIA e à Octogonal.

Tão Brasília.

Fui à Taguatinga de camela, sem capacete.

EPTG em obras.

Adoro viver perigosamente.

Como um D’artangnan justiceiro – mas não vingativo.

Saio cortando o vento e o trânsito.

Responsável porém apressada, pois o tempo urge:

Isso aqui é Brasília e os minutos escorrem

Gota a gota dentro do meu ser de asfalto.

Estou cidade.


in.: cartas p/ anna k.

domingo, 24 de outubro de 2010

Academia Universitária

Nos submundos da universidade maconheira
Eis que sobranceira pinto minha cor de solidão.
As salas abandonadas são os refúgios
Dos poetas desterrados em seu próprio lar.

Estou sozinha com o baseado
E o subterrâneo é meu:
Fantasmas arrastam carteiras pelos corredores
Os professores falam e falam
Sempre tentando fazer com que o relógio
ande mais rápido ou mais lento, mas ande.
E os alunos indo e vindo sem distinção,
Cada qual com o seu umbigo peculiar.

A academia treme em sua base
Mas os diplomas continuam a ser produzidos
E
então
Eu
Cá
Embaixo
Nos submundos da UnB
Com a teoria entre os dentes e a
prática sobre a carteira.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

NÃO TENHO MEDO DO PROFANO
ELE TAMÉM PROFETIZA VERDADES
A FERRO E FOGO
AQUI ELE TAMBÉM É PRESENÇA
DE ESPÍRITO
A CERVEJA E AS GARGALHADAS
COM OS DADOS DO DESTINO:
LANÇADOS SOBRE A MESA,
AS VELEIDADES BENDITAS
OS SABORES DAS BOCAS
DA PERCEPÇÃO
SIM, ABRINDO AS
PORTAS COMO BOCAS,
AS PERCEPÇÕES DA MATÉRIA
O PROFANO SAGRADO
DA HUMANIDADE EM EXERCÍCIO

(NO BAR)

24/09/10


in: os cadernos p/ mim mesma

domingo, 17 de outubro de 2010

cartas para hugo em julho

Aí o cenário: cerradão cinza quebrado pelo amarelo do sol que se põe no horizonte seco. Árvores que retorcem lânguidas e harmoniosas na lentidão de seus movimentos autótrofos: tão sábias e tão serenas são elas! Para entortar a natureza corta ali a estrada de concreto dos homens, os veículos zunem motorizados e eu escuto em som amplificado o meu silêncio interior.

A solidão me lança à evasão nas coisas. Veja: a formiga passa logo ali embaixo. As nuvens são poucas, os ônibus barulhentos. Ah... Quem sou eu que diviso tudo isso?

Pouco de mim se escreve. Muito de mim se especula. Na minha escrita surgem várias vozes: não sei quem sou, mas cá estou contando os segundos desse pôr-do-sol no cerrado. Logo ali passa um quero-quero e mais pra lá voa um tesourinha. Os mosquitos me pousam e eu vou embora adentrar o tempo.


quinta-feira, 14 de outubro de 2010

aleatórias

O meu dilema é vazio como um sonho sem dono.

Nossos corpos inexistem: são meras projeções

De algo há muito já perdido.

O meu dilema é de todos nós: devaneio da morte.

Flutuo absorta na minha metafísica esperançosa.


(...)


Adicta a meus anseios refrescados pela fumaça

Das motocicletas eu distância etérea

Como os desfalecimentos das nuvens

Nos ventos secos de setembro

Entrando na veia do poeta o aceno do

Final do ano

Vamo que vamo


in.: cartas p/ giuliani

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

ROSSEAU, Jean-Jacques

"(...) Ainda não faz dois meses que uma calma absoluta voltou a meu coração. Havia muito tempo eu nada mais temia, mas esperava ainda, e essa esperança, ora alimentada, ora frustrada, era uma via pela qual mil paixões distintas não cessavam de me agitar. Um acontecimento tão triste quanto imprevisto veio por fim apagar de meu coração esse tênue fio de esperança e me fez ver meu destino fixado em definitivo, para sempre, neste mundo. Desde então, me resignei sem reservas e reencontrei a paz.
(...)
Sozinho para o resto de minha vida, visto que encontro apenas em mim o consolo, a esperança e a paz, só devo e quero me ocupar de mim. (...) Destino meus últimos dias a estudar a mim mesmo e a pareparar com antecipação as contas que não tardarei a prestar sobre mim. Entreguemo-nos por inteiro à doçura de conversar com minha alma.
(...)
O hábito de entrar em mim mesmo por fim me fez perder a sensação e quase a lembrança de meus males; aprendi, assim, por minha própria experiência, que a fonte da verdadeira felicidade está em nós e que não depende dos homens tornar miserável aquele que sabe querer ser feliz."

in.: Os Devaneios do Caminhante Solitário

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O Agora

Gosto de escrever do agora.

Os Bem-te-vis me chamam fortes

E bem me vêem

Mesmo sem me ver.

Lá detrás a bem-te-vi responde:

Vi!

E assim o diálogo,

Sucessivamente.

O agora é isso: Bem-te-vi

Vi!

Bem te vi!

E eu também vi.

A natureza dialoga:

Os carros gritam.

As nuvens vão dormir.

Eu vou ainda só: é ordem de partida.

Vou montar na bicicleta

E ir emborar,

Trotar mundos.



in.: cartas p/ amarante

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

PARA SÃO JORGE

Salva Jorge Caveleiro,
Guerreiro Santo protetor
Salva a Chapada dos Veadeiros
Cristal, diamante de honraz valor.
Cavaleiro de Deus,
São Jorge
Cidade que o Goiás abraçou
No alforje do mochileiro
Viaja a alegria que o tempo inventou
Na terra que leva seus pés
Repousam estórias que a estrada cunhou.

Então deixa de besteira,
Tira a roupa
E pula na cachoeira!


in.: cartas p/ o fotógrafo

terça-feira, 14 de setembro de 2010

o abade e os mouros

Ah. São novamente tempos de indefinição. Há um abade sentado num camelo: cruzam o deserto com mouros liderando. Parecem ir para o abate, mas vão para a guerra. Em seus rostos há medo e sangue: a tensão agarra os músculos de seus pescoços. Não há vento: o calor é o inferno mas acima dos olhos há a imensidão do céu.

Lá vai o abade. Em seu peito pende uma cruz. Os mouros cingem espadas. São todos homens e todos têm um quê em comum. Ali se encontraram.

Aqui se despedem para todo o sempre.



in.: cartas p/ badu

domingo, 12 de setembro de 2010

aleatória

Pudera eu te dizer, amigo, das mil e uma transformações que aconteceram na minha vida. Não tenho paciência para tanto, então prefiro metaforizar: os sonhos têm se tornado reais porquanto me dou serena à solitude. Não brinco em serviço: tenho meus mais secretos planos. Onde mais me reconheço? Sob as árvores. Elas me sussurram os mais singelos poemas. Seus movimentos são obras de arte: verdadeiros teatros vegetais. Seus papéis são obra do acaso, mas suas sombras aconchegantes são sempre universais.
Sob as três árvores na octogonal
Eu me sentei
E pedi que a musa me dispusesse a inspiração necessária pra dizer dos anseios do meu coração. Vieram as incontáveis musas da natureza: como o vento agora no meu rosto, e me fizeram despedaçar:
Meu coração era livre de todos os males voando solto no cosmos ilógico da morte.
Quem sou eu? Sou a árvore, sou a formiga, sou a cigarra.
Chega de viagem.


in.: cartas p/ felipe

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

não há escapatória

Olhe bem: não há escapatória. Somos donos e escravos dos nossos próprios tos. Nada determinamos e por nada somos determinados.

Não há escapatória.

(...)

Ah! E eu? A pessoa ego do poeta profetiza! O que há que se me sinaliza? Sou preguiça e tenacidade, contradição estática. Mais liberta eu não estaria, senão...

Bem, olhe. Também estou presa.

Parque da Cidade, mangueira centenária, os gritos dos jovens no Nicolândia. Estranhos sons canabinóides: olhe: eu fumo porque qui-lo

e fumo quilos.



in.: cartas p/ badu

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

a lógica do vício na sociedade do consumo

O tabaco industrializado faz mal à saúde, isso é fato incontestável, dizem alguns.

Mas tá. E daí? O meu vício é fumar ou comprar?




terça-feira, 7 de setembro de 2010

Nadando Sobre o Tudo e o Nada

Quero tudo porém nada
Pois prefiro no final nadar mesmo
Já que a água acorda gelada:
Não posso e nem preciso ter tudo,
Lá vou eu: quero nada
E nado feliz no meu querer.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Aniversoário

Hoje era ontem e já foi.

Pra que temporalizar?

O ontem é hoje: meu vô sorri no meu colo.

Sei que era mensagem: a morte é nossa se nós quisermos.

Ontem à noite estavam encarecendo as passagens de ônibus

E hoje de manhã eu ganhava pulseiras de presente.

Sente? O dia hoje era ontem, de novo noite.

Não preciso entrar em detalhes lógicos

Pois a poesia dispensa formalidades.

A cidade é como uma constelação:

Cruzeiro que Novo estrela

Guapuruvus com nuvens e velas

Motores sonoros

A Santa Teresinha e seu neon desligado.

De cá diviso a quadra em seu quadro solitário

No mesmo momento em que escuto gritos

E me relembro dos homens do basquete.

De suas cestas, sua pontaria.

Invejo suas objetividades e no rabisco do verso grito minhas bolas:

Hoje é dia do padeiro.

Então que venha a massa real.



in.: os cadernos para mim mesma, 08-07-10

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O Morcego Poeta

Vem o morcego rasante versejar na noite
Corta o ar numa curva bruxuleante
Asas desengonçadas projetam-se em harmonia
Eis o morcego selvagem em plena bizarria
Rindo da minha apreensão momentânea
Ante seu vôo de tamanha singeleza.
Vem o morcego me cantar da beleza
Dos porões escuros que habitam árvores cheias de vida e de sonhos.


in.: os cadernos para mim mesma
17-08-10

terça-feira, 24 de agosto de 2010

...

Sim, eu ouço os sussurros sibilantes dos ventos e os ensaios distantes da escola de música, eu me aventuro no verso da vida sentando na grama e fazendo do joelho uma mesa, do absurdo, o possível, da tristeza o desafio, da dor a lição. Então. Sou eu ou é o mundo???



in.: cartas p/ machado amarante

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

COMPÊNDIO DIVINO

Por onde andará Jesus Cristo?
Onde colhe Gabriel os lírios?
João Batista batizou no limbo?
Nunca ninguém escutou a flauta de Krishna
Mas alguns poucos sentem que ela toca todos os dias.
O que Muhammad diria a Joseph Smith e vice-versa?
Ousaria Kardec ou Chico intervir no colóquio?
Nunca! Nunca nos esqueçamos: Judas também senta à mesa
E Sidarta bebe do maná dos céus.

Como Oxossi descobriu o Brasil?
Onde São Jorge afia a espada?
Eros precisa mesmo ferir?
Como Thor se resolve com Zeus? E Tupã?
Não nos enganemos: Lúcifer era o preferido de Deus...
Mas onde andará Raimundo Irineu?
A voz do trovão e o cheiro do vento
São força de vida que Gaia nos deu.



in.: cartas p/ hugh link

domingo, 15 de agosto de 2010

sobre o que é bom

Escrevo-te de dentro do meu estranhamento perante o mundo. A vida é mesmo uma gangorra de conflitos. Nunca sei como me portar propriamente perante a porra paranóica desse mundo. Hesito, perco, sou levada. Mas sabe, mesmo assim é bom. Há os pequenos consolos.

Hoje quero ficar sozinha. O céu vazio de nuvens é convidativo e o sol me veio cantar no rosto. Música nas minhas sardas.

De vez em quando me esqueço dos problemas, nas outras vezes os problemas se esquecem de mim. E assim sigo, bamboleando sem perceber.




in.: cartas p/ o fotógrafo


quarta-feira, 11 de agosto de 2010

ecoemos seres de luz

Para onde vamos, seres de luz?
Por que sombras nos carregam nossos corpos?
Por que vales desconhecidos nos levam nossos pés?
Assomam-se os amanhãs incontáveis
Na eternidade da onda que nasce na estrela
Ou na miudeza do elétron:
Fóton enigmático
Calor efervescente
Luz... Imensidão desperta

Para onde amamos, seres de pensamento?
Para onde?
Se a morte é o voraz remédio
Até mesmo para aqueles
Que não querem ser curados?

Eis que surge a esperança no desenho do horizonte
Olhos verdes como os montes de uma terra já perdida
No olhar ela carrega as sementes de uma era
Que em sonhos imagina dentro em breve ressurgida

Descansamos nossos pés nos jardins da nova era
Nossos corpos nos carregam no infinito de um segundo

Pois que vamos por onde amamos,
Seres de luz.

in.: profecias profanas

domingo, 8 de agosto de 2010

eros e ágape

Como o tempo é um bom camarada, ele aparece por aqui apenas para traçar a reviravolta de minha narrativa epistolar que contava o fracasso de Eros e minha rendição à casta pureza de Ágape.

E, no entanto, quinze, vinte e cinco dias depois.

Amigo tempo que vem lento mas implacável: eis a morena na minha cama, daqui do parágrafo sinto seu hálito animal e sua grave voz que denuncia o gozo e a rendição à vida: sim, veja: a culpa é de Eros, ele se esbalda em nos pregar peças!

Agora estou nua pela noite lenta: nossos corpos são barcos que navegam devagar se rendendo paulatinamente à violência das águas. Somos tragadas pela maré que insiste em dançar como nós também nua pela noite lenta.

É a força de Eros gritando na seta que atravessa

A carne.

Te digo, amigo: eu e a morena nada temos em comum.

Ou...

Quase nada.




in.: cartas p/ amarante

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

após um trabalho de ayahuasca

Ainda sinto a força da ayahuasca se movendo pelo meu corpo. As sensações são como ecos: sinto-as várias vezes! Meus ouvidos dançam com a música. A emoção é contida mas se faz intensa por dentro.

Tento organizar as idéias. Mas são tantas coisas! Vejo que estou bem e viva. Dou graças aos deuses, ou ainda melhor: dou graças a Deus pois ele é um só e Ele me determinou. E será Ele que me fará morrer sem precisar me matar.O mistério.

Deus. Só você preenche minha vida. Súbito percebo: é você quem procuro. Está nas minhas raízes. Estou contigo, Deus.

Sim. Cada trabalho é a confirmação de que eu não estou só. Eu vejo as múltiplas vivências e as múltiplas ligações ancestrais. Eu vejo manadas de almas indo e vindo sem saber por quê mas simplesmente vivenciando o estrondo de se nascer e de se morrer. Esse intervalo enigmático que determina tudo: desde o alfa até o ômega. Vida. Dom Divino. A única coisa que existe.




in.: cartas p/ dionis

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

GRAÇAS A DEUS

Ao escrever profetizo lembranças
Lanço minhas palavras ao mar para abraçar os peixes.

Rogo caminhos aos pés
E passo cola nas frases
Pra sustentar o poema

Escavo as memórias antigas
Em busca do dom que perdi
De repente o verso cria vida
E grita cheio de esperança:

Floresce forte, humanidade
Os sonhos são feitos pra perdurar
Tarda por ora, Apocalipse
A profecia inda quer soar.


in.: profecias profanas

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

sobre o medo

Sim, eu tenho medo.

Hesito, erro, a custo percebo:

Eu tenho medo.

Cada respiração expressa em si mesma

A totalidade de meus anseios.

Lá vamos nós novamente ser tragados,

Atravessar todo aquele medo

Vencê-lo ou ser vencidos por ele,

Lá vamos nós novamente.

Vamos sorrir

Quando por fim percebermos

Que depois de tudo

Há um outro medo.




in.: os cadernos p/ mim mesma, 30-07-10