Nos submundos da universidade maconheira Eis que sobranceira pinto minha cor de solidão. As salas abandonadas são os refúgios Dos poetas desterrados em seu próprio lar.
Estou sozinha com o baseado E o subterrâneo é meu: Fantasmas arrastam carteiras pelos corredores Os professores falam e falam Sempre tentando fazer com que o relógio ande mais rápido ou mais lento, mas ande. E os alunos indo e vindo sem distinção, Cada qual com o seu umbigo peculiar.
A academia treme em sua base Mas os diplomas continuam a ser produzidos E então Eu Cá Embaixo Nos submundos da UnB Com a teoria entre os dentes e a prática sobre a carteira.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
NÃO TENHO MEDO DO PROFANO ELE TAMÉM PROFETIZA VERDADES A FERRO E FOGO AQUI ELE TAMBÉM É PRESENÇA DE ESPÍRITO A CERVEJA E AS GARGALHADAS COM OS DADOS DO DESTINO: LANÇADOS SOBRE A MESA, AS VELEIDADES BENDITAS OS SABORES DAS BOCAS DA PERCEPÇÃO SIM, ABRINDO AS PORTAS COMO BOCAS, AS PERCEPÇÕES DA MATÉRIA O PROFANO SAGRADO DA HUMANIDADE EM EXERCÍCIO
Aí o cenário: cerradão cinza quebrado pelo amarelo do sol que se põe no horizonte seco. Árvores que retorcem lânguidas e harmoniosas na lentidão de seus movimentos autótrofos: tão sábias e tão serenas são elas! Para entortar a natureza corta ali a estrada de concreto dos homens, os veículos zunem motorizados e eu escuto em som amplificado o meu silêncio interior.
A solidão me lança à evasão nas coisas. Veja: a formiga passa logo ali embaixo. As nuvens são poucas, os ônibus barulhentos. Ah... Quem sou eu que diviso tudo isso?
Pouco de mim se escreve. Muito de mim se especula. Na minha escrita surgem várias vozes: não sei quem sou, mas cá estou contando os segundos desse pôr-do-sol no cerrado. Logo ali passa um quero-quero e mais pra lá voa um tesourinha. Os mosquitos me pousam e eu vou embora adentrar o tempo.
"(...) Ainda não faz dois meses que uma calma absoluta voltou a meu coração. Havia muito tempo eu nada mais temia, mas esperava ainda, e essa esperança, ora alimentada, ora frustrada, era uma via pela qual mil paixões distintas não cessavam de me agitar. Um acontecimento tão triste quanto imprevisto veio por fim apagar de meu coração esse tênue fio de esperança e me fez ver meu destino fixado em definitivo, para sempre, neste mundo. Desde então, me resignei sem reservas e reencontrei a paz. (...) Sozinho para o resto de minha vida, visto que encontro apenas em mim o consolo, a esperança e a paz, só devo e quero me ocupar de mim. (...) Destino meus últimos dias a estudar a mim mesmo e a pareparar com antecipação as contas que não tardarei a prestar sobre mim. Entreguemo-nos por inteiro à doçura de conversar com minha alma. (...) O hábito de entrar em mim mesmo por fim me fez perder a sensação e quase a lembrança de meus males; aprendi, assim, por minha própria experiência, que a fonte da verdadeira felicidade está em nós e que não depende dos homens tornar miserável aquele que sabe querer ser feliz."
Salva Jorge Caveleiro, Guerreiro Santo protetor Salva a Chapada dos Veadeiros Cristal, diamante de honraz valor. Cavaleiro de Deus, São Jorge Cidade que o Goiás abraçou No alforje do mochileiro Viaja a alegria que o tempo inventou Na terra que leva seus pés Repousam estórias que a estrada cunhou.
Então deixa de besteira, Tira a roupa E pula na cachoeira!
Ah. São novamente tempos de indefinição. Há um abade sentado num camelo: cruzam o deserto com mouros liderando. Parecem ir para o abate, mas vão para a guerra. Em seus rostos há medo e sangue: a tensão agarra os músculos de seus pescoços. Não há vento: o calor é o inferno mas acima dos olhos há a imensidão do céu.
Lá vai o abade. Em seu peito pende uma cruz. Os mouros cingem espadas. São todos homens e todos têm um quê em comum. Ali se encontraram.
Pudera eu te dizer, amigo, das mil e uma transformações que aconteceram na minha vida. Não tenho paciência para tanto, então prefiro metaforizar: os sonhos têm se tornado reais porquanto me dou serena à solitude. Não brinco em serviço: tenho meus mais secretos planos. Onde mais me reconheço? Sob as árvores. Elas me sussurram os mais singelos poemas. Seus movimentos são obras de arte: verdadeiros teatros vegetais. Seus papéis são obra do acaso, mas suas sombras aconchegantes são sempre universais. Sob as três árvores na octogonal Eu me sentei E pedi que a musa me dispusesse a inspiração necessária pra dizer dos anseios do meu coração. Vieram as incontáveis musas da natureza: como o vento agora no meu rosto, e me fizeram despedaçar: Meu coração era livre de todos os males voando solto no cosmos ilógico da morte. Quem sou eu? Sou a árvore, sou a formiga, sou a cigarra. Chega de viagem.
Olhe bem: não há escapatória. Somos donos e escravos dos nossos próprios tos. Nada determinamos e por nada somos determinados.
Não há escapatória.
(...)
Ah! E eu? A pessoa ego do poeta profetiza! O que há que se me sinaliza? Sou preguiça e tenacidade, contradição estática. Mais liberta eu não estaria, senão...
Bem, olhe. Também estou presa.
Parque da Cidade, mangueira centenária, os gritos dos jovens no Nicolândia. Estranhos sons canabinóides: olhe: eu fumo porque qui-lo
Quero tudo porém nada Pois prefiro no final nadar mesmo Já que a água acorda gelada: Não posso e nem preciso ter tudo, Lá vou eu: quero nada E nado feliz no meu querer.
Vem o morcego rasante versejar na noite Corta o ar numa curva bruxuleante Asas desengonçadas projetam-se em harmonia Eis o morcego selvagem em plena bizarria Rindo da minha apreensão momentânea Ante seu vôo de tamanha singeleza. Vem o morcego me cantar da beleza Dos porões escuros que habitam árvores cheias de vida e de sonhos.
Sim, eu ouço os sussurros sibilantes dos ventos e os ensaios distantes da escola de música, eu me aventuro no verso da vida sentando na grama e fazendo do joelho uma mesa, do absurdo, o possível, da tristeza o desafio, da dor a lição. Então. Sou eu ou é o mundo???
Por onde andará Jesus Cristo? Onde colhe Gabriel os lírios? João Batista batizou no limbo? Nunca ninguém escutou a flauta de Krishna Mas alguns poucos sentem que ela toca todos os dias. O que Muhammad diria a Joseph Smith e vice-versa? Ousaria Kardec ou Chico intervir no colóquio? Nunca! Nunca nos esqueçamos: Judas também senta à mesa E Sidarta bebe do maná dos céus.
Como Oxossi descobriu o Brasil? Onde São Jorge afia a espada? Eros precisa mesmo ferir? Como Thor se resolve com Zeus? E Tupã? Não nos enganemos: Lúcifer era o preferido de Deus... Mas onde andará Raimundo Irineu? A voz do trovão e o cheiro do vento São força de vida que Gaia nos deu.
Escrevo-te de dentro do meu estranhamento perante o mundo. A vida é mesmo uma gangorra de conflitos. Nunca sei como me portar propriamente perante a porra paranóica desse mundo. Hesito, perco, sou levada. Mas sabe, mesmo assim é bom. Há os pequenos consolos.
Hoje quero ficar sozinha. O céu vazio de nuvens é convidativo e o sol me veio cantar no rosto. Música nas minhas sardas.
De vez em quando me esqueço dos problemas, nas outras vezes os problemas se esquecem de mim. E assim sigo, bamboleando sem perceber.
Para onde vamos, seres de luz? Por que sombras nos carregam nossos corpos? Por que vales desconhecidos nos levam nossos pés? Assomam-se os amanhãs incontáveis Na eternidade da onda que nasce na estrela Ou na miudeza do elétron: Fóton enigmático Calor efervescente Luz... Imensidão desperta
Para onde amamos, seres de pensamento? Para onde? Se a morte é o voraz remédio Até mesmo para aqueles Que não querem ser curados?
Eis que surge a esperança no desenho do horizonte Olhos verdes como os montes de uma terra já perdida No olhar ela carrega as sementes de uma era Que em sonhos imagina dentro em breve ressurgida
Descansamos nossos pés nos jardins da nova era Nossos corpos nos carregam no infinito de um segundo
Como o tempo é um bom camarada, ele aparece por aqui apenas para traçar a reviravolta de minha narrativa epistolar que contava o fracasso de Eros e minha rendição à casta pureza de Ágape.
E, no entanto, quinze, vinte e cinco dias depois.
Amigo tempo que vem lento mas implacável: eis a morena na minha cama, daqui do parágrafo sinto seu hálito animal e sua grave voz que denuncia o gozo e a rendição à vida: sim, veja: a culpa é de Eros, ele se esbalda em nos pregar peças!
Agora estou nua pela noite lenta: nossos corpos são barcos que navegam devagar se rendendo paulatinamente à violência das águas. Somos tragadas pela maré que insiste em dançar como nós também nua pela noite lenta.
É a força de Eros gritando na seta que atravessa
A carne.
Te digo, amigo: eu e a morena nada temos em comum.