terça-feira, 27 de julho de 2010

sobre a vida sob o sol

Amo a liberdade debaixo das árvores

Elas dançam com o vento que me afaga os cabelos.

A vida é isso: o que vemos, o que sentimos, o que provamos.

A vida não é o que pensamos.



Olhe: ontem eu acreditei em Deus e dei eco à sua minha causa.

Eu sabia que eu estava sujeita a erros, mas eu não temia errar.



Deus me veio como num orgasmo:

ele era pura sensação e não havia pensamento que pudesse sintetizá-lo.



Eu simplesmente agradeci a vida e a liberdade



in.: cartas p/ dionis

segunda-feira, 19 de julho de 2010

poema de novo

Noite de braços transparentes
Luz do meu mais negro jardim
Onde se arrastam as correntes
Onde se escrevem todos os motins

Traga-me a força do guerreiro
Jogue em mim o seu manto negro
Leva-me ao porto derradeiro

E me guia na volta


in.: os cadernos para mim mesma

sexta-feira, 16 de julho de 2010

poema

EXPERIÊNCIA DIVINA
É TUDO
O SER EM EXERCÍCIO
E O NÃO SER AO MESMO TEMPO
SEM TEMPO

in.: os cadernos p/ mim mesma, 07-06-10

quarta-feira, 14 de julho de 2010

a fonte da juventude

Se somos tão perfeitos quanto o são os rios e as árvores então por que nos fazemos tão cheios de rancor? Onde está a verdadeira fonte da juventude? Para que buscar alquimias escondidas a sete chaves se a verdadeira magia está nos momentos mais simples: a perfeição da madeira, árvore que morta sustenta a mesa em que bebemos e escrevemos os sonhos. Tudo tem sua razão de ser e a perfeição existe mesmo na medida impura da mágoa e na arbitrariedade da dor. A perfeição também reside na maturidade e também floresce na velhice. A fonte da juventude é uma ilusão a qual devemos deixar pra trás.

(...)

Acho que tudo que escrevo precisam ser cartas.

Para todos e para

Você.


in.: cartas p/ hugh link, 13-02-10

domingo, 11 de julho de 2010

o amor do agora e sempre

Sou o amor de cada encontro único

Vibrando em corações enlaçados

Luas em céus infinitos

Sóis em galáxias vindouras


Luminosas relações a enredar momentos

A moça da voz mais feminina que já conheci

Os amigos de olhares distantes

Os sorrisos abertos pela noite infinda

A vinda das descobertas

Sou isso que experimento


Sou carne e cimento


Sou copos de cerveja

E violões rachados. Pensamento e ato.

Amor elevado à verdade.


in.: os cadernos p/ mim mesma. 03-06-10, carmo do paranaíba

quinta-feira, 8 de julho de 2010

poema em mesa de bar II

Bem antes de nascer eu já amava meus amigos
Pois eu sabia que nosso encontro seria mágica
E já sabia dos desencontros, pressentia-os na alma

Quero ver agora, que já nasci.

Que surpreendente esses momentos em que o diálogo brota.
Eu sou feliz e estou aqui.


in.: os cadernos para mim mesma
cenário, do lado do pôr-do-sol, hoje

terça-feira, 6 de julho de 2010

A Morte do Vulcão

Diante da fraqueza do corpo

Eu rezo um terço sem nexo

Dor do espelho convexo

Tudo com prós e com contras


Ouço o meu terço miúdo

Rogo a Deus que Vesúvio

Não torne mais a cuspir


Vejo: a paixão vai-se embora

Onda que jaz no agora do corpo

Pra renascer amanhã só no sonho



in.: os cadernos para mim mesma, 02-06-10

domingo, 4 de julho de 2010

meu nome

meu nome é
patrícia de deus
sem querer uivo sagrado
e oração poética

sonoros vértices de dentes rangentes
rigorosas sombras pulverizadas de fumaça
poeira cósmica falsificada

demodê ô caralho
meu nome é
dromedário.

in.: os cadernos para mim mesma, 04-06-10
carmo do paranaíba, MG

quinta-feira, 1 de julho de 2010

poema em mesa de bar

Pela virtude que não teme o escárnio
E pela nobreza patética de todas as boemias
Eu escrevo sobre a mesa azul minha poesia
E sarcástica rasgo o verbo que alforria
E retorno ao jugo da escravidão:
Sou filha da terra estuprada pelos pais
E desprezada pelas filhas.
Sou a poetiza que se quer poeta
E sem cerimônias quebra a seta de Eros
E oferece cerveja à Baco.
Sou escrava dos catalizadores
Sonhadora de mundos
Cavalgando na mesa azul do bar que abriga
Minha qualquer poesia.


em frente ao Pôr-do-Sol, 23-06-10

quarta-feira, 30 de junho de 2010

A EMOÇÃO MOMENTÂNEA

As emoções são explosões,
Sacodem mundos e, portanto,
É conveniente evitá-las.

No entanto, "sabemos-nas" à espreita
E elas num mover de olhos nos assomam.

Eis a solidão dos carentes de amor
O orgulho dos arrebanhados em ego
O rancor dos desenganados
O medo dos imaturos.
Eis tudo: emoções que nos assomam,
Homens e mulheres,
Flores e espinhos.

A emoção tão minha
Tão sua
Tão nossa que ...
Nossa!
É conveniente evitá-las.


(pensando no patétido do Schiller)


in.: os cadernos para mim mesma, 16-06-10

quinta-feira, 24 de junho de 2010

TCHEKHOV, Anton

"- E a imortalidade?
- Ora, mudemos de assunto!
- O senhor não acredita, bem, mas eu acredito. Numa obra de Dostoiévski ou de Voltaire alguém diz que, se Deus não existisse, seria inventado pelos homens. E eu creio profundamente que, se a imortalidade não existe, será inventada cedo ou tarde por uma grande inteligência humana."


in.: Enfermaria nº 6
Tradução de Maria Jacintha e Boris Schnaiderman

quinta-feira, 17 de junho de 2010

BURROUGHS, William e GINSBERG, Allen

Carta de Allen a Bill durante a viagem ao Peru onde esteve a comungar o yage, ou ayahuasca

10 de junho de 1960


"Ayahuasca pode ser engarrafada e transportada e mantém-se forte, se não fermentar - a garrafa precisa estar bem fechada. Tomei uma xícara: a mistura estava um pouco velha, tinha sido feita há muitos dias e um pouco fermentada também; deitei-me e depois de uma hora (numa choça de bambu, [...] comecei a ver ou sentir o que pensei ser o Grande Ser, ou alguma de suas manifestações [...]
Bem, encurtando a história, fui a uma sessão de grupo formal ontem à noite - dessa vez a mistura estava fresca e apresentada com todo o cerimonial, ele cantarolava (e assoprava fumaça de cigarro ou cachimbo) docemente sobre a xícara alguns minutos antes [...], então acendi um cigarro, dei uma baforada sobre a xícara e bebi. Vi uma estrela cadente - aerolito - antes de entrar, e a lua cheia, e me serviu primeiro. Então deitei-me esperando sabe Deus que outra visão agradável, então começou a bater e então toda essa porra de cosmos desprendeu-se à minha volta, acho que foi a coisa mais forte e pior que já me aconteceu [...]
senti-me como uma cobra vomitando o universo, ou um jívaro de cocar com dentes de cobra vomitando ao compreender o Assassinato do Universo - minha morte por vir - a morte de todos por vir - ninguém está preparado - eu não estou preparado - ao meu redor, nas árvores, o barulho desses animais espectrais, os outros bebedores vomitando (parte normal das sessões de Cura) na noite de sua horrível solidão no universo - vomitando sua vontade de viver, de ser preservado nesse corpo, quase - [...]
Toda cabana parecia rajada de presenças espectrais, todas sofrendo transfigurações pelo contato com uma única coisa misteriosa que era nosso desino e que, mais cedo ou mais tarde, nos mataria [...] criaturas espectrais colocadas aqui misteriosamente para viver, serem Deuses vivos e sofrerem a Crucificação da morte como Cristo, mas se perdem ou morrem na alma ou entram em contato e têm um novo nascimento para continuar o Processo de ser (apesar de eles mesmos morrerem, ou não?

[...] disse que quanto mais se satura de ayahuasca, mais fundo se vai - visitar a lua, ver os mortos, ver Deus - ver os espíritos das árvores etc.

[...] essa quase esquizofrênica alteração da consciência é apavorante.

Resposta de Bill a Allen

21 de julho de 1960



"Não há nada a temer. Vaya adelante. Olha. Escuta. Ouve. Tua consciência ayahuaski é mais válida que a sua "consciência normal"?"Consciência Normal" de quem? Por que voltar a ela? Por que está surpreso em me ver? Você está seguindo meus passos. Conheço vosso caminho. Sim, conheço a área melhor do que você pensa. Tentei contar a você mais de uma vez, comunicar o que sei. Você não ouviu, ou não conseguiu ouvir. "Não se pode mostrar a alguém algo que essa pessoa não viu." Hassan Sabbah citado por Bryon Bysin. Ouviu agora? [...]"





in.: Cartas do yage.
William Burroughs & Allen Ginsberg
Tradução de Bettina Becker

terça-feira, 8 de junho de 2010

a força da alma que suporta o corpo

(...)
Tenho fome. O estômago vazio faz pesar todo o corpo. Talvez por isso o Ramadã seja fortalecer a alma.
Haja força espiritual para suportar o peso.


in.: os cadernos para mim mesma

terça-feira, 1 de junho de 2010

uma descoberta

Há dias que tombo na cama procurando os sonhos mais profundos e neles mergulho como se fosse nunca mais voltar. Grande descoberta, essa da eternidade, presença divina a vibrar nos átomos, matéria do invisível enredando o nada.
Sou assim: como nunca fui ou serei.


in.: os cadernos para mim mesma

segunda-feira, 31 de maio de 2010

aleatórias

Entre os sons do anoitecer e sob as luzes que começam a se acender. Observo meu corpo mudado pelos anos, minhas mãos de rugas simples, as pintas na pele que o Sol cavou. Respiro os sons. Ouço o medo da tarde morrendo. Sinto o espírito do invisível correndo pelas coisas e trago mais fumaça enquanto o paioso em brasa queima, na minha mão a caneta chora uma lágrima de entendimento.


in.: os cadernos para mim mesma

sábado, 29 de maio de 2010

vamo lá no guapuruvu

Na liga!
Rememorando os guapuruvus
Verdes e balouçantes
Os amigos internacionalmente candangos
As estórias dos drãos e dos manos
Romanos ou ciclanos
Fulanos em ônibus e satélites
Ensandecidos pela vida
Nascidos em Taguatinga
Crescidos na Ceilândia
E amados no Plano Piloto
Os manos que lindos gritam na UnB
Quem ama, cola no Gama
Fi
De deus como eu.


in.: os cadernos para mim mesma

domingo, 23 de maio de 2010

parafraseando eu mesma

Bom dia professor.

Deus te abençoe nessa manhã aberta: é a alegria da geléia e a excitação do café: o dia divino de cada momento único. Ah! Escolhas: goiaba ou framboesa? De que me vale a certeza? Escolho sempre dividida e a escolha é essa: perder-se pelas linhas. Nesse momento o auditório da EAPE lotado, vamos seguindo e fazendo história: manada de bois que determinam os destinos das paisagens infantes, as virgens que saltitam pela Terra. Veja: é tão simples: destrua todas as cartas em que talvez eu tenha mencionado minha mãe e guarde as outras dentro de um grande e grosso saco sobre um assoalho antigo e lá esqueça, até que tenha esquecido também de mim e o tempo tenha por sua vez se esquecido de nós e possamos descansar sem culpa ou rancor.

É isso, professor.

Quem te escreve não é sua aluna, é um reflexo do que ela foi.

Estamos do outro lado e adentramos o mistério e é o mesmo barco: construído como queremos e ele ainda flutua, onde nasce a luz e o buraco negro apesar dos pesares.

O Gessinger já sabia ao sabor do acaso.

Morre.

Flutua.

Entende?

Revulocione!

O trabalho mercantil é burrice.

Trabalhe de graça, como os poetas!

Abraços de pupila



in.: cartas p/ o professor

quinta-feira, 20 de maio de 2010

UBALDO RIBEIRO, João

"(...) A alma não aprende nada enquanto alma, necessita da encarnação para aprender, (...)
Há poucas almas novas, embora todos os dias algumas sejam criadas, na grande sopa cósmica que rodeia os planetas e as constelações. Sabe a moderníssima Biologia que, há muitos e muitos milhões de anos, não existiam seres vivos, mas as substâncias que hoje os compõem boiavam soltas no caldo primordial dos mares e então, num lindo dia de sol, a luz bateu sobre algumas dessas substâncias bem ha hora em que o balanço das ondas as aproximava, com o resultado de que apareceu algo vivo pela primeira vez. A mesma coisa que os sábios mostram ser tão simples se dá com as alminhas novas, quando se formam na grande sopa cósmica. As alminhas são como certas partículas de matéria, também descritas pela moderníssima ciência, que têm cor, sabor e preferências, mas não têm corpo nem carga. Tanto as alminhas quanto as partículas não obstante existem, tudo dependendo da inquantidade de nada que não entra em sua incomposição e, com quase toda a certeza, de outras condições científicas, tais como pressão, temperatura e a presença de bons catalisadores para reações de nada com nada. Então, nas amplidões siderais, imensuráveis e copiosas não-massas de nada escorrem, obviamente sem qualquer velocidade que lhes seja inerente, para juntar-se nas proximidades de algum poleiro d'almas. Se o nada procura os poleiros d'almas ou se os poleiros d'almas procuram o nada, não há como saber. O fato é que, nas vizinhanças de um poleiro d'almas, o que ocorre é nada, nada por todos os lados, uma infinitude de nada inimaginável em toda a sua inextensão. Nada e mais nada e mais nada e mais nada ali se vai aglomerando, até o ponto em que se acumula tanto nada que ele se transmuta num nada crítico e desta maneira surge algo desse nada. Não mais é, essa repentina não-forma do nada, que uma almazinha nova, inexperiente e inocente como todas as criaturas muito jovens, por isso mesmo sujeita a grande número de percalços, pois a única coisa que sabe é que deve ir para o Poleiro das Almas, empoleirar-se com as outras e esperar a hora em que terá de encarnar para aprender. (...)
Quando, fortuitamente, o Poleiro das Almas está repleto de almazinhas recém-nascidas, a agitação febril de tantos jovens ansiosos pelo aprendizado e pelo cumprimento de suas sinas chega a fazer fibrilar o cosmo e a perturbar um pouco o perfeito funcionamento dos relógios astrais e demais mecanismos celestes. Nesses casos, é comum que, em revoadas nervosas e espasmódicas, como lavandeiras que estejam a mariscar e sejam espantadas por uma pedra, as almas novas desçam iguais a flechas em direção ao planeta, chispando de um ponto a outro com a velocidade de relâmpagos, até acharem um ovo, um útero, uma semente, algo vivo para animar. E, naturalmente, não descem como desceriam se fossem corpos, talvez propriamente nem desçam, já que suas trajetórias são simultaneamente perpendiculares aos planos de todas as três dimensões e, se não é possível compreender isto, é porque pouco se compreende de quartas, quintas ou sextas dimensões, inclusive as almazinhas, que, assim, antes de chegarem, nunca sabem onde estão. E dá-se muito que a primeira encarnação das almazinhas não seja em gente, mas em bicho ou planta, (...)

in.: Viva o Povo Brasiliero

domingo, 16 de maio de 2010

brasília e memória místicas

Vida frenética e sem freios, espevitada e desastrada, escorregadia e indecifrável! Ah, mal sobra tempo para as coisas boas da vida: a soneca depois do almoço, as cartas para os amigos, os banhos de cachoeira, os passeios pelo pôr-do-sol...

Mas não há tempo a perder: vou ser feliz agora mesmo, quando te vejo chegando no aeroporto visitando essa Brasólia seca e esquisita. Cá estamos na capital corrupta do país. Mas veja: os hospitais estão em ruínas e a Câmara Legislativa tem até cinema: imponente e exibida no eixo monumental dos superfaturamentos! Veja: as escolas estão ao léu, os pontos de ônibus são feios, as obras estão paradas: ô cidadezinha mal amada essa viu!

(...)

De qualquer forma, podemos esquecer tudo isso e assistir os filmes gratuitos no Cine Brasília ou pegar o ônibus de graça pro CCBB e ver qualquer exposição que lá esteja. Ou ainda podemos ver o pôr-do-sol na Ermida (o ruim é chegar lá de ônibus) e se deslumbrar com esse céu maravilhoso. Depois a gente passa na rodoviária do Plano Piloto e come um pastel na Viçosa. Aproveita e passa na farmácia e compra um sal de fruta e vai dar uma olhada nos produtos dos ambulantes. Tem uns hippies artistas que de vez em quando pintam em frente do Conjunto Nacional. Depois a gente arruma grana, pega um táxi e vai pro Cine Academia ver algum filme alemão ou iraniano.

Seria legal.

E assim, imaginando, te encontro por essas bandas daqui, mesmo você estando nas bandas daí.

Mas cá eu, aprendendo a ser melhor e tentando sanar as dores, trabalhando despreocupadamente e esperando a UnB sair da greve. Pensando nas filosofias. Amando os amigos. Torcendo por dias melhores. Ruminando as dúvidas.

Fico imaginando como você anda e logo penso: com as pernas, é claro! E aí sorrio e penso na beleza charmosa do olhar oblíquo e no sorriso seu aberto e delicioso. Aí agradeço a Deus por ter criado os seres e busco no coração a oração mais apropriada.

Ahôôô! Ê trem bão divino!

Somos pequenos cristais vibrando as energias do espírito! Alegria e tristeza em doses individuais! Mensageiros do amor e guerreiros do bem!

Ahôôô!

É bom viver

Também é bom.

Ensinamentos que nos trarão tesouro,

Essa vida.




in.: cartas p/ vivi

terça-feira, 11 de maio de 2010

aleatórias

É hora de recomeçar. Por onde andamos? Jovens da era sem nome, essa do agora.
Bem antes de nascer eu temia o nascimento mas corria pelos reinos do espírito feito criança a brincar, para esquecer da noite em que dormiria para renascer.
(...)
Aonde vamos é mistério para todos.
O que queremos só não é mistério para nós.

in.: cartas secretas p/ D.

domingo, 9 de maio de 2010

yindo e yangando II ou pêndulo giratório

(...)
negra me visto não pelo sinistro desta cor mas pela beleza do branco brilhoso no negro arrebatador do espaço: "luz que se fez então... a dor da respiração..." Nasci.
Eu era estrela
No céu pulsante
Vibrei e descobri a alegria
Mudei e fui descoberta pela tristeza
Assim sucessivamente

in.:cartas p/ dulcinéia

terça-feira, 4 de maio de 2010

DOMINGO 2 PELA TARDE

Debaixo de duas árvores das favoritas
Entre a loucura e a preguiça
Deita a voz do ser humano só
Eu.
Dentre eus, Deus.
Palavra anunciada sob a lótus de minhas pernas.

Eu de Deus e Eu e Deus
De mãos dadas
Em qualquer lugar debaixo de duas árvores das favoritas.

Os pássaros param
A dor é sentida.
No leito da Terra a
Solidão espera.

in.: os cadernos para mim mesma

domingo, 2 de maio de 2010

yindo e yangando

E tenho sido mais grata ainda, nesses dias em que encontro ainda mais seres humanos que me comovem. O amor brota aos borbotões: me apego aos amigos com a serenidade de uma ermitã solitária: sei que eles também irão embora um dia, mas aprecio cada segundo em que tenho a companhia deles, e sei que sua lembrança estará para sempre comigo.

Nem tudo são flores, contudo. Por vezes acordo amaldiçoando a vida e praguejando com o sol. Às vezes sinto Deus distante como uma idéia vaga. Outras vezes deixo cair lágrimas pela minha condição [...]. E, no entanto, sei que tudo é questão de tempo e, num piscar de olhos, lá estará eu agradecendo a vida e admirando a beleza desse mundo. É o espírito do invisível se revelando diante de meus olhos incrédulos. E então a idéia de Deus se me torna íntima, e eu sou toda agradecimentos.



in.: cartas para amarante

terça-feira, 27 de abril de 2010

VERÍSSIMO, Érico.

"Um dia caiu um raio na casa do velho Galvão, matando-o e ferindo-lhe a filha. 'Deus castigou. Eles eram muito malvados.' Além do castigo da professora, do castigo dos pais da gente, havia então um castigo maior e mais tremendo - o castigo de Deus?
Eugênio temia esse Deus que em vão a mãe lhe queria fazer amar. Quando à noite rezava o 'Padre nosso que estais no céu...' - ele imaginava um ser de forma humana mas terrível, misterioso e implacável. Era invisível mas estava em toda parte, até nos nossos pensamentos.
(...)
- Se Deus existe, então por que não se revelou?
- Porque até Deus precisa de oportunidades. (...)
- Se Deus existisse, eu já o teria encontrado.
(...)
- Vocês ateus nos querem tirar Deus para nos dar em lugar dele... o quê? É o mesmo que tirar pão da boca de quem tem fome e dar-lhe em troca um punhado de cinza ou de areia.
(...)
- Não te esqueça de que Cristo ressuscitou Lázaro. (...)
- Isso foi no tempo em que Jesus andava pelo mundo. (...)
- Mas Jesus ainda anda pelo mundo. Será preciso que a gente só acredite no testemunho dos cinco sentidos? Jesus nunca deixou de estar no mundo. O pior cego é aquele que não quer ver.
Ele sacudiu a cabeça com obstinação. Não lhe era possível distinguir a imagem de Jesus no meio daquele matagal cerrado de problemas, idéias confusas, conflitos, interesses cruzados, dúvidas e baixezas. E, se Jesus ainda estivesse na terra, decerto como medida de defesa se tinha adaptado à miséria do mundo, como um camaleão. Quis dar palavras a esta idéia. Um secreto temor, porém, o deteve. "


in.: Olhai os Lírios do Campo

domingo, 25 de abril de 2010

descrição

Dentro do ônibus
Balouçando a caneta
E ainda desencontrada
Pela força de ervas sagradas
Cipós de braços milenares
Entrecortada pelo espírito do ônibus
Nessa manhã de domingo candango
Buscando força no sonho
Na luz que por mim atravessa
Os cantos de espíritos ancestrais.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

BRASÍLIA 50 ANOS

A esquadrilha da fumaça dá rasante pelo céu. Sou tomada pela minha tristezaalegre enquanto o feriado no parque da cidade pinica sob a sombra gostosa de uma árvore e eu penosa tento recolher os cacos da minha intrigante história. Com lágrimas nos olhos e sorrisos nos lábios desfaço meu tempo desacreditando no amanhã e buscando toda a enorme força do hoje em que me espelho: reflexo mutante como a Brasília Elefante que se me atravessa com a esquadrilha da fumaça passando novamente no céu que se azula amarelando as nuvens. Que houve com os sonhos de Brasília? Em que latrina deram nossos representantes!
Mas o avião novamente
A ex-quadrilha
De novos candangos
Atravessa o céu da poesia e,
Quem diria
Sonha com dias melhores
Em ressacas de shows gratuitos.
Pedalando bicicletas em tardes verdes
No parque da cidade
Renatando as camelas
Recortando a semântica
Destilando os venenos
Amaldiçoando folhas de arruda
Impotente diante dos jornais
Ouvindo GOG dar idéia
E todo mundo ouvir
E ninguém fazer nada
E beber mais uma gelada
E fumar mais uma marafa
E ninguém sem fazer nada
Os pobres ouvindo, os pobres morrendo
Os ricos sorrindo, a miséria crescendo
E Brasília escancarada:
Babilônia
sodomizada!
Senhor Deputado,
onde quer levar o dinheiro?
No pé ou na bunda?
Meia ou cueca?
Que vexa!
Brasíla 50 anos. Onde sonhastes teus sonhos?
Teus filhos são tão medonhos
Teus risos, aleatórios
Tuas pragas,
licitações roubadas.
Assim termino, com uma trava no verso, diante de meus excessos da vida que me vivi, dos sonhos que deixei desacreditados.
Da descrença mórbida diante do futuro do capitalismo totalitário.
Eu sou Brasília
No verso que é desenhado.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O VIOLETAR-SE

Posso dizer que estou redescobrindo-me e essa é a chance de compreender melhor a solidão e não mais temê-la, pois tudo tem sua razão de ser.

Estou cansada de obsedar-me.

Hoje pela manhã a tristeza soou viciada e cega, inescrupulosa tristeza. Me pegou pelas costas, deu-me uma chave de braço e me imobilizou no chão.

Não é momento de explicar-te: é momento de descrever-te o tom: o tom cinzento azul do momento, em breve violetar-me-ei.

A cura vem de cima e dos lados.

Estou cruzando oceanos de milênios.

As vidas, os castigos, os prêmios.

Transmigrações.


in.: cartas p/ amarante

terça-feira, 13 de abril de 2010

VERÍSSIMO, Érico.

"- Mas vosmecê nunca pensa em Deus?
- Uma vez que outra.
- Não reconhece que Ele fez o mundo e todas as pessoas que há no mundo?
- Se Deus fez o mundo e as pessoas, Ele já nos largou, arrependido.
- Não diga tamanho absurdo! Se Ele tivesse largado, tudo andava de pernas para o ar.
- E não anda?
[....]
- Deus escreve direito por linhas tortas.
- Mas o diabo é que ninguém sabe ler o que Ele escreve."

Diálogo entre o Pe. Lara e Capitão Rodrigo Cambará
in.: Um Certo Capitão Rodrigo.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

contatos

Não tenho mais prisão
Pois o espelho é a trapaça
E o ego a ilusão.
Estou sob ondas de luz sem nexo
Rogando a anjos
Sonhando com rimas
Pedindo cores.
Uma aleluia albina pousa sobre meus pés descalços.
Os grilos me abraçam.

in.: os cadernos da chapada, vol. III

quinta-feira, 8 de abril de 2010

confuso porém incluso

O papel compartilhado com os recados cheios de pressa no despertador atrasado e as letras de música, a suavidade das páginas sendo viradas a cada quebra contextual das páginas: dedos, segundos, olhos. O sussurrar das frases enquanto o tempo passa e o espelho grita sem ser ouvido enquanto a casa é talhada na pedra do ser e os séculos gritam cheios de temor, mistério e, principalmente de, gratidão.

A graça que nos é dada no primeiro vislumbrar da manhã na Terra: odisséia nossa de mundos e vidas. Propagação do amor. Ilimitude cíclica e sísmica.

Eis a humanidade orando frenética no deglutir da maçã.

Somos um e pagamos por todos.

Vivamos em todas as letras em direção ao amor e através da guerra.


in.: cartas p/ natália

domingo, 28 de março de 2010

ROSA, Guimarães

"- Seu doutor, a gente não deve ficar adiante de boi, nem atrás de burro, nem perto de mulher. Nunca que dá certo..."

Conselho de Tertuliano Tropeiro ao Seu Doutor, em "Minha Gente"
in.: Sagarana

sábado, 27 de março de 2010

oração

Maestro de todas as orquestras cósmicas
Senhor dos senhores do mundo,
lance sobre os seres terrestres toda
sua misericórdia
E conceda a eles a vida eterna
nos muitos dos seus braços.

AMÉM, TREM

terça-feira, 23 de março de 2010

os caminhos

Assim andamos pelos sagrados caminhos dos encontros desencontrados. Pousamos nossos olhos na estrada e cingimos os ombros como valentes à espera da morte. Veja: o pássaro voa sabendo por onde mas não se importando para onde. O sol não hesita em sua direção.


in.: cartas para mim mesma. 21-02-10

sábado, 20 de março de 2010

brasília babilônia

Árvores em Brasília e políticos marginais soltos pelas ruas com suas artimanhas assassinas.
Arruda, P.O. e sua corja de lambe-solas vendendo as almas pelo ídolo dinheiro: bezerro de ouro! Mera ilusão material: expressão inequívoca do mal. A ruína moral dos líderes demonstra o aceno do apocalipse: anuncia-se a tragédia dos pais que traem os filhos e dos políticos que enganam seu povo.
As imagens de madeira choram e as crianças perdem a inocência ainda no berço.
Oremos pelas nossas almas.
Olhemos pelos nossos rios.
Roguemos à terra misericórdia
E a Deus humildemente peçamos:
Que a justiça haja para todos nós.

in.: cartas para mim mesma, 10-03-10

quarta-feira, 17 de março de 2010

ROSA, Guimarães

"Inútil nos defendermos, Bento! A tristeza já veio, já caiu aqui perto de nós. Eu estou pensando... Talvez, num lugar que não conheço, aonde nunca irei, more alguém que está à minha espera... E que jamais verei, jamais."

Minha Gente
In.: Sagarana

terça-feira, 16 de março de 2010

sobre as lembranças ruins

BRANDI x TERESA

[b]Brandi.[/b] diz:

estou com raiva.

Teresa diz:

não está

[b]Brandi.[/b] diz:

com raiva

Teresa diz:

está só passando por um momento ruim q, com certeza, como qualquer outro momento, passa

[b]Brandi.[/b] diz:

nada passa

[b]Brandi.[/b] diz:

é mentira

[b]Brandi.[/b] diz:

nunca passa

[b]Brandi.[/b] diz:

vai tá contigo, sempre

[b]Brandi.[/b] diz:

gravado

Teresa diz:

mentira é querer acreditar nisso q vc disse

[b]Brandi.[/b] diz:

é verdade

Teresa diz:

de alguma forma, vc leva lembranças.

Teresa diz:

mas elas tb vão ficando rarefeitas

Teresa diz:

e são lembranças bem guardadinhas, dentro do fundo da gaveta



in.: crônicas de messenger on line

sexta-feira, 12 de março de 2010

sobre duas árvores na octogonal

(...)
Há duas árvores cujos nomes não sei.
Uma tem folhas largas e grossas.
A outra, pequeninas e suaves.
Uma deu sementes que crescem exatamente aqui do meu lado.
A cria da árvore de folhas largas floresce rente ao tronco da árvore de folhas suaves.
As duas árvores estão crescendo uma filha.
Ela é linda e me sorri tão feliz.
Sua mãe de lá lhe criou e cria, sua mãe de cá a protege.

...

in.: cartas para mim mesma, 21-02-10

segunda-feira, 8 de março de 2010

SOBRE O AMOR EM CARTAS

OH! PARA QUEM ESCREVO? LAMPEJO!
VEJO OS OLHOS DE HELOISA, DE LUCIANA A SILHUETA
OS LÁBIOS DE CLARICE, A MÁGICA DAS PALAVRAS
OS CABELOS DE HENRIQUE, DANÇA DE VIVIANE
MÃOS DESCONHECIDAS MAS BRANCAS COMO A CLARIFICAÇÃO DAS IDÉ IAS

LUZ. LAMPEJO! GABRIELA!
QUE MÃOS SÃO ESSAS QUE DIZEM AIS
E A BOCA CALA , PEDINDO PAZ?

OUÇA: A VOZ É VIDA, GRITE POR ELA:
VENHA, FLECHA DE EROS.
VOA, DOR DE PLATÃO.


in.: cartas p/ g. branquinho

sexta-feira, 5 de março de 2010

recados internéticos para luis

grande comunicólogo, há qto não nos teclamos! a vida faz e desfaz os laços e nós, e lá vamos nós aprendendo a arte do encontro! te reencontro aqui, entre os dígitos binários, apenas para dizer: um, dois, lembrei de você, três, tiau! nos vemos um dia, quem sabe, em breve farás anos e me lembrarei novamente de você, que deus te abençoe, com ele encontramos a luz que guia em qualquer escuridão! sonhe, luis, voe entre os braços do tempo e abrace-o: a vida é um deslizar sem tréguas, mas não se entregue à correnteza: tudo há de se dar conforme deus quis: então lute, para que sua causa seja a única correta.

deus é um e está dentro de você

te amo mesmo sem te conhecer

pratique isso. um beijo.




quinta-feira, 4 de março de 2010

ORAÇÃO DE INSPIRAÇÃO LAKOTA

vamo q vamo vou


Oh GRANDE ESPÍRITO, PAI e MÃE de todos os seres viventes
que caminha nas asas do vento e sua voz se faz nos trovões.

Abençoe toda a humanidade, traga luz a nossas mentes.

Que um país não guerreie o outro, que haja paz nos corações.

Que forjem estufas de seus canhões e sementeiras de seus mísseis

Que contemplem a mãe natureza, compreendam suas leis e lições.

Que saibam que a única vitória é a que não deixa derrotados.

Que toda ação e palavras proferidas sejam na direção do amor

Que os víveres de todos os planos possam se sentir amados

Que teus olhos e ouvidos vejam e escutem este clamor.

Que desvaneça o egoísmo e que surja a luz da generosidade.

Que desvaneça a ignorância e que surja a luz da compreensão.

Que desvaneça a falsidade e que surja a luz da verdade.
Que compreendam a felicidade que provém de suas mãos

Que acordem da ilusão das drogas, que saiam da iniqüidade.

Que alcancem o equilíbrio entre o espírito e a razão.

Que se libertem da ilusão da culpa e que vivam a verdade.

Que alcancem o estado de Buda e gozem da liberdade.

Que saibam que o que sai do DIVINO também é divindade.

Que o CRISTO interno dos homens já se torne uma realidade.
Que conheçam o espírito de tribo e que vivam em irmandade.

Que todos compreendam de vez, que para um mundo de paz.

Um sorriso e uma mão firme estendida, muita diferença faz.

Mitakue Oasin.



fonte: céu nossa senhora da conceição

segunda-feira, 1 de março de 2010

sobre os sentidos da vida

Que é que há, Clarice? Eu filosofo sem ter ponto de chegada. Eu estou assustada pelo mundo, dividida pelas minhas relações duvidosas, extremamente cansada de ser cizânia e bizonhice: porra, Clarice, chega.
É claro que há esperança. Ela só pode residir em nós mesmos! Você sabe disso melhor do que eu: olhe pra dentro de si e veja! Eu descobri o meu caminho e digo-lhe: foi sozinha. Só eu e Deus, e Deus nada mais é do que a mais profunda solidão. Então todos os dias encontro-me com esse Divino ao me encontrar comigo mesma. E agradeço: ALHAMDULILLAH, AMÉM, SARAVÁ EU CREIO.
A morte é o fim da estrada, mas é o início do descanso para a próxima jornada.
Lembremo-nos disso sempre, pois o nosso juízo final chegará: ele virá após a última respiração e sim, todos verão o dia das revelações pois todos teremos a fronte tocada por Anúbis: o chacal nos acompanhará através do portal e nos mostrará que Deus nada mais é do que tudo, qualquer um pois o um é único, divino.
Os anjos me dizem que hoje eu sou.
E assim sou, Clarice. Admiro a transcendência e creio no contato. Estou distante de tudo, mas sou o tudo, ao mesmo tempo, e por isso estou aqui contigo pois a distância nos sustenta mas ela se desfaz com um mero mover de células: a alma vibra os neurônios. Pensamento. Pensavento. Sentimento. Sentivento.
Amiga.
Não entenda.
Sinta.
É maravilhoso viver.
É único e passará
Como passaremos
E passarinhos.


in.: cartas p/ clarice, nov/2009

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

encontrando as vozes

Eu acredito em Deus e acredito que Maomé tenha sido um dos mensageiros. Mas sei também que mensagem alguma é eterna pois nada permanece, muito embora tudo esteja conectado: e vieram Abraãão, Moisés, José, Davi, Jesus, Maomé, todos homens de muita fé guiados pelo único Deus que já existiu: Ele, o único, o inapreensível, o onisciente, ALLAH. JEOVÁ. JAVÉ.

Quaisquer sejam os nomes que queremos dar a ele que nos diz com todas as letras:

Qualquer oração tem poder.

Amiga. Deus é o maior. Só ele permanece, e, mesmo assim, nunca é o mesmo. Veja: todos os profetas já se foram, não voltará a voz. Esperamos a grande mudança, o tempo da revolução do espírito: o homem reencontra Deus à medida que conhece a si mesmo. E então ele vê que Deus é o maior e nada suplanta essa realidade. A oração cresce e se torna obra de vida.



in.: cartas p/ vivi, outubro/2009

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

cingi os espíritos

Quem disse que estamos prontos pra morrer? Se nem para a vida estamos prontos, por que estaríamos para a morte?
Ah, meras ilusões. Eis a vida pronta especialmente para a gente.
Bem-te-vi que pousa no galho: ela é fêmea pois não veste a máscara negra. Ela foi embora quando eu levantei o pescoço para não vê-la no braço da árvore que balançava. Ela tinha flores amarelas e sementes que pendiam em vagens sim vastas paisagens se dissolvendo em vida. O vento que me vibra. Os bem-te-vis cantantes. As nuvens que se assomam. Os prédios que se vingam. A anciã que espera. A criança que ainda não foi.
Quem disse que não estamos prontos pra morrer?

in.: carta p/ o sapo e as borboletas

domingo, 21 de fevereiro de 2010

em honra às lágrimas

Todas as lágrimas são justificadas.

Quando caem é para serem verdadeiras

Mesmo num palco de teatro

Ou numa sala de delegacia escura

As lágrimas são lindas

Pois ora, veja a criança que chora

com as mãos cruzadas

e as cabeças entre as pernas

as culpas e as cruzes

não seria sua face

molhada e contraída

o espelho

da própria beleza

de Deus?

Mas não chore,

criança.

É tão bom brincar!.



in.: cartas p/ hugh link

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

o espírito criança

Sim, me lembrei já que ontem outro meninim ligou serelepe pra mim, e a meninice custosa dando cambalhotas pelo texto para relembrar nossas gargalhadas de crianças, éramos pequenos mas sabíamos conversar com os animais, as árvores e as pedras, habilidade que perdemos estupidamente quando nos tornamos adultos; mas o menino gritava: pelota! E era uma bola latina descalça no asfalto, pelada, hermanos e irmãos jogando juntos no mesmo time:
Hasta la revolucion del
Espírito que enche-nos de luz.

Não é preciso saber como. É preciso saber que é.

Sim, pois o sentido é encontro,
Esse é o encontro: sentido!
Eu, você, ele, elas, todos. Um lapso cheio de encontros cósmicos.
Quantos somos, quantos fomos, quantos não somos mais.
Poeira divina
Carreguemos o arsenal do amor. Amém

É bom: luz é Deus. Até a planta sabe.
Vida. Que divino!


in.: cartas p/ felipe

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

sentires

O sentido da vida são sentires

O som da água corrente

A palavra acuosa

A aranha tecendo sobre nós

Os seus muitos olhos.

Bem, o sentido da vida são os encontros.

A folha seca que cai sobre o ombro

De novo a aranha pulando sobre o papel

Os olhos que se cruzam

E as existências que se vão quase sorrindo.

Sim, os sentidos da vida.



in.: cartas p/ helô

sábado, 13 de fevereiro de 2010

inspirando guimarães

O Guimarães, aquele rosa. Ele tinha umas tirada cabulosa. Tipo aquela: viver é muito perigoso. Eita verdade incisiva.

Estou naquele dia de alegria dura, de tristeza lânguida. Não sei da Lua, contemplo os dedos e faceio o sono. A alegria existe e é relance: momentos faceiros e súbitos; a tristeza não existe mas dura uma eternidade.



in.: cartas para amarante

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

sobre a viagem

O céu é bem cinza, as nuvens baixas, a terra úmida. Eis o panorama: o ônibus anda e os pássaros voam. Eu me desloco: busco os caminhos que me levarão a mim mesma. Sei que o conflito é iminente: hei de encarar meus demônios, é época de renovação. Meu corpo busca meu espírito: meus joelhos se articulam para que meus pés me sustentem: minha alma tem o peso dos séculos, e ela quer sorrir, pois o conhecimento é a chave e é atrás dele que eu estou indo. As paixões são passageiras. A essência permanece indefinidamente.

Meu nome é Peregrino e eu procuro Deus.

A grande viagem é a vida, e ela não tem volta.








in.: os cadernos da chapada, vol II - Cavalcante

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Descobrir e Cobrir os Irmãos


Pois ora. Pois ore.

A humanidade é linda, assim como toda criação. Há flores sem tréguas murchando no copo com água. A saudade que se escreve nos sulcos dos troncos das árvores. A fogueira queimando a vida e a água molhando a morte. A viagem singular única: transmigração. Estupor e desprezo. Alegria e tristeza. Rancor e perdão. Os nós atravessados nas cordas que se cruzam. A humanidade criada junto com a terra que se torna barro. Amor.

Fim.

Começo.

Acaso.

Destino.

Meio.



in.: cartas para o sapo e as borboletas

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

a unicidade divina

Sim. Sim. O positivo me invade. É a lembrança de Deus molhando a fronte. Os pés massageando a lama, a fogueira que traz calor, os sonhos da realidade que circunda: estamos todos conectados como células num tecido.

Vejo minha avó tecendo a roca. É a sabedoria em doses homeopáticas: essa que vem dos nossos ancestrais. Eu sei que havia algo sagrado em cada colherada de arroz, em cada movimentar de lenhas. Era lindo. Era amor, mesmo o frango que morria, era amor.

Eu sei que não preciso mais temer a solidão, pois é somente ela que existe. Minha avó sabia. Talvez soubesse ainda mais no dia de sua morte.
Estou cheia. É imenso. Graças a Deus.


in.: os cadernos da chapada, vol II - Cavalcante