patrícia de deus
sem querer uivo sagrado
e oração poética
sonoros vértices de dentes rangentes
rigorosas sombras pulverizadas de fumaça
poeira cósmica falsificada
demodê ô caralho
meu nome é
dromedário.
carmo do paranaíba, MG
as divagações epistolares de uma trotamundus sem peias
Bom dia professor.
Deus te abençoe nessa manhã aberta: é a alegria da geléia e a excitação do café: o dia divino de cada momento único. Ah! Escolhas: goiaba ou framboesa? De que me vale a certeza? Escolho sempre dividida e a escolha é essa: perder-se pelas linhas. Nesse momento o auditório da EAPE lotado, vamos seguindo e fazendo história: manada de bois que determinam os destinos das paisagens infantes, as virgens que saltitam pela Terra. Veja: é tão simples: destrua todas as cartas em que talvez eu tenha mencionado minha mãe e guarde as outras dentro de um grande e grosso saco sobre um assoalho antigo e lá esqueça, até que tenha esquecido também de mim e o tempo tenha por sua vez se esquecido de nós e possamos descansar sem culpa ou rancor.
É isso, professor.
Quem te escreve não é sua aluna, é um reflexo do que ela foi.
Estamos do outro lado e adentramos o mistério e é o mesmo barco: construído como queremos e ele ainda flutua, onde nasce a luz e o buraco negro apesar dos pesares.
O Gessinger já sabia ao sabor do acaso.
Morre.
Flutua.
Entende?
Revulocione!
O trabalho mercantil é burrice.
Trabalhe de graça, como os poetas!
Abraços de pupila
in.: cartas p/ o professor
Vida frenética e sem freios, espevitada e desastrada, escorregadia e indecifrável! Ah, mal sobra tempo para as coisas boas da vida: a soneca depois do almoço, as cartas para os amigos, os banhos de cachoeira, os passeios pelo pôr-do-sol...
Mas não há tempo a perder: vou ser feliz agora mesmo, quando te vejo chegando no aeroporto visitando essa Brasólia seca e esquisita. Cá estamos na capital corrupta do país. Mas veja: os hospitais estão em ruínas e a Câmara Legislativa tem até cinema: imponente e exibida no eixo monumental dos superfaturamentos! Veja: as escolas estão ao léu, os pontos de ônibus são feios, as obras estão paradas: ô cidadezinha mal amada essa viu!
(...)
De qualquer forma, podemos esquecer tudo isso e assistir os filmes gratuitos no Cine Brasília ou pegar o ônibus de graça pro CCBB e ver qualquer exposição que lá esteja. Ou ainda podemos ver o pôr-do-sol na Ermida (o ruim é chegar lá de ônibus) e se deslumbrar com esse céu maravilhoso. Depois a gente passa na rodoviária do Plano Piloto e come um pastel na Viçosa. Aproveita e passa na farmácia e compra um sal de fruta e vai dar uma olhada nos produtos dos ambulantes. Tem uns hippies artistas que de vez em quando pintam em frente do Conjunto Nacional. Depois a gente arruma grana, pega um táxi e vai pro Cine Academia ver algum filme alemão ou iraniano.
Seria legal.
E assim, imaginando, te encontro por essas bandas daqui, mesmo você estando nas bandas daí.
Mas cá eu, aprendendo a ser melhor e tentando sanar as dores, trabalhando despreocupadamente e esperando a UnB sair da greve. Pensando nas filosofias. Amando os amigos. Torcendo por dias melhores. Ruminando as dúvidas.
Fico imaginando como você anda e logo penso: com as pernas, é claro! E aí sorrio e penso na beleza charmosa do olhar oblíquo e no sorriso seu aberto e delicioso. Aí agradeço a Deus por ter criado os seres e busco no coração a oração mais apropriada.
Ahôôô! Ê trem bão divino!
Somos pequenos cristais vibrando as energias do espírito! Alegria e tristeza em doses individuais! Mensageiros do amor e guerreiros do bem!
Ahôôô!
É bom viver
Também é bom.
Ensinamentos que nos trarão tesouro,
Essa vida.
in.: cartas p/ vivi
E tenho sido mais grata ainda, nesses dias em que encontro ainda mais seres humanos que me comovem. O amor brota aos borbotões: me apego aos amigos com a serenidade de uma ermitã solitária: sei que eles também irão embora um dia, mas aprecio cada segundo em que tenho a companhia deles, e sei que sua lembrança estará para sempre comigo.
Nem tudo são flores, contudo. Por vezes acordo amaldiçoando a vida e praguejando com o sol. Às vezes sinto Deus distante como uma idéia vaga. Outras vezes deixo cair lágrimas pela minha condição [...]. E, no entanto, sei que tudo é questão de tempo e, num piscar de olhos, lá estará eu agradecendo a vida e admirando a beleza desse mundo. É o espírito do invisível se revelando diante de meus olhos incrédulos. E então a idéia de Deus se me torna íntima, e eu sou toda agradecimentos.
in.: cartas para amarante
Posso dizer que estou redescobrindo-me e essa é a chance de compreender melhor a solidão e não mais temê-la, pois tudo tem sua razão de ser.
Estou cansada de obsedar-me.
Hoje pela manhã a tristeza soou viciada e cega, inescrupulosa tristeza. Me pegou pelas costas, deu-me uma chave de braço e me imobilizou no chão.
Não é momento de explicar-te: é momento de descrever-te o tom: o tom cinzento azul do momento, em breve violetar-me-ei.
A cura vem de cima e dos lados.
Estou cruzando oceanos de milênios.
As vidas, os castigos, os prêmios.
Transmigrações.
in.: cartas p/ amarante
O papel compartilhado com os recados cheios de pressa no despertador atrasado e as letras de música, a suavidade das páginas sendo viradas a cada quebra contextual das páginas: dedos, segundos, olhos. O sussurrar das frases enquanto o tempo passa e o espelho grita sem ser ouvido enquanto a casa é talhada na pedra do ser e os séculos gritam cheios de temor, mistério e, principalmente de, gratidão.
A graça que nos é dada no primeiro vislumbrar da manhã na Terra: odisséia nossa de mundos e vidas. Propagação do amor. Ilimitude cíclica e sísmica.
Eis a humanidade orando frenética no deglutir da maçã.
Somos um e pagamos por todos.
Vivamos em todas as letras em direção ao amor e através da guerra.
in.: cartas p/ natália
BRANDI x TERESA
[b]Brandi.[/b] diz:
estou com raiva.
Teresa diz:
não está
[b]Brandi.[/b] diz:
com raiva
Teresa diz:
está só passando por um momento ruim q, com certeza, como qualquer outro momento, passa
[b]Brandi.[/b] diz:
nada passa
[b]Brandi.[/b] diz:
é mentira
[b]Brandi.[/b] diz:
nunca passa
[b]Brandi.[/b] diz:
vai tá contigo, sempre
[b]Brandi.[/b] diz:
gravado
Teresa diz:
mentira é querer acreditar nisso q vc disse
[b]Brandi.[/b] diz:
é verdade
Teresa diz:
de alguma forma, vc leva lembranças.
Teresa diz:
mas elas tb vão ficando rarefeitas
Teresa diz:
e são lembranças bem guardadinhas, dentro do fundo da gaveta
in.: crônicas de messenger on line
grande comunicólogo, há qto não nos teclamos! a vida faz e desfaz os laços e nós, e lá vamos nós aprendendo a arte do encontro! te reencontro aqui, entre os dígitos binários, apenas para dizer: um, dois, lembrei de você, três, tiau! nos vemos um dia, quem sabe, em breve farás anos e me lembrarei novamente de você, que deus te abençoe, com ele encontramos a luz que guia em qualquer escuridão! sonhe, luis, voe entre os braços do tempo e abrace-o: a vida é um deslizar sem tréguas, mas não se entregue à correnteza: tudo há de se dar conforme deus quis: então lute, para que sua causa seja a única correta.
deus é um e está dentro de você
te amo mesmo sem te conhecer
pratique isso. um beijo.
vamo q vamo vou
Oh GRANDE ESPÍRITO, PAI e MÃE de todos os seres viventes
que caminha nas asas do vento e sua voz se faz nos trovões.
Abençoe toda a humanidade, traga luz a nossas mentes.
Que um país não guerreie o outro, que haja paz nos corações.
Que forjem estufas de seus canhões e sementeiras de seus mísseis
Que contemplem a mãe natureza, compreendam suas leis e lições.
Que saibam que a única vitória é a que não deixa derrotados.
Que toda ação e palavras proferidas sejam na direção do amor
Que os víveres de todos os planos possam se sentir amados
Que teus olhos e ouvidos vejam e escutem este clamor.
Que desvaneça o egoísmo e que surja a luz da generosidade.
Que desvaneça a ignorância e que surja a luz da compreensão.
Que desvaneça a falsidade e que surja a luz da verdade.
Que compreendam a felicidade que provém de suas mãos
Que acordem da ilusão das drogas, que saiam da iniqüidade.
Que alcancem o equilíbrio entre o espírito e a razão.
Que se libertem da ilusão da culpa e que vivam a verdade.
Que alcancem o estado de Buda e gozem da liberdade.
Que saibam que o que sai do DIVINO também é divindade.
Que o CRISTO interno dos homens já se torne uma realidade.
Que conheçam o espírito de tribo e que vivam em irmandade.
Que todos compreendam de vez, que para um mundo de paz.
Um sorriso e uma mão firme estendida, muita diferença faz.
Mitakue Oasin.
fonte: céu nossa senhora da conceição
Eu acredito em Deus e acredito que Maomé tenha sido um dos mensageiros. Mas sei também que mensagem alguma é eterna pois nada permanece, muito embora tudo esteja conectado: e vieram Abraãão, Moisés, José, Davi, Jesus, Maomé, todos homens de muita fé guiados pelo único Deus que já existiu: Ele, o único, o inapreensível, o onisciente, ALLAH. JEOVÁ. JAVÉ.
Quaisquer sejam os nomes que queremos dar a ele que nos diz com todas as letras:
Qualquer oração tem poder.
Amiga. Deus é o maior. Só ele permanece, e, mesmo assim, nunca é o mesmo. Veja: todos os profetas já se foram, não voltará a voz. Esperamos a grande mudança, o tempo da revolução do espírito: o homem reencontra Deus à medida que conhece a si mesmo. E então ele vê que Deus é o maior e nada suplanta essa realidade. A oração cresce e se torna obra de vida.
in.: cartas p/ vivi, outubro/2009
Todas as lágrimas são justificadas.
Quando caem é para serem verdadeiras
Mesmo num palco de teatro
Ou numa sala de delegacia escura
As lágrimas são lindas
Pois ora, veja a criança que chora
com as mãos cruzadas
e as cabeças entre as pernas
as culpas e as cruzes
não seria sua face
molhada e contraída
o espelho
da própria beleza
de Deus?
Mas não chore,
criança.
É tão bom brincar!.
in.: cartas p/ hugh link
O sentido da vida são sentires
O som da água corrente
A palavra acuosa
A aranha tecendo sobre nós
Os seus muitos olhos.
Bem, o sentido da vida são os encontros.
A folha seca que cai sobre o ombro
De novo a aranha pulando sobre o papel
Os olhos que se cruzam
E as existências que se vão quase sorrindo.
Sim, os sentidos da vida.
in.: cartas p/ helô
O céu é bem cinza, as nuvens baixas, a terra úmida. Eis o panorama: o ônibus anda e os pássaros voam. Eu me desloco: busco os caminhos que me levarão a mim mesma. Sei que o conflito é iminente: hei de encarar meus demônios, é época de renovação. Meu corpo busca meu espírito: meus joelhos se articulam para que meus pés me sustentem: minha alma tem o peso dos séculos, e ela quer sorrir, pois o conhecimento é a chave e é atrás dele que eu estou indo. As paixões são passageiras. A essência permanece indefinidamente.
Meu nome é Peregrino e eu procuro Deus.
A grande viagem é a vida, e ela não tem volta.
Pois ora. Pois ore.
A humanidade é linda, assim como toda criação. Há flores sem tréguas murchando no copo com água. A saudade que se escreve nos sulcos dos troncos das árvores. A fogueira queimando a vida e a água molhando a morte. A viagem singular única: transmigração. Estupor e desprezo. Alegria e tristeza. Rancor e perdão. Os nós atravessados nas cordas que se cruzam. A humanidade criada junto com a terra que se torna barro. Amor.
Fim.
Começo.
Acaso.
Destino.
Meio.
in.: cartas para o sapo e as borboletas
Não compreendo. Os olhos vêem e são eles que dão a forma. Os olhos pintam os quadros. As imagens nos povoam através dos olhos. Também compreendemos com os olhos.
Os nossos olhos devorando a natureza. Ela de verde geométrica em Brasília, ela também de cinza, natureza humana que é, de cinzas e seca e sintética como o pneu que se gruda fervente no asfalto da capital sem freios. Os nosso olhos no carro cinza que passa levando dentro e embora o nosso amor ingênuo de milênios atrás.
(...)
Vejo-me. Sorrio.
Meu único defeito é ser triste.
in.: cartas para o filósofo
Vou aos poucos dissecando o meu mistério interior, essa dor de ser fracasso naquilo que mais desejo: o amor, veja, ele me abandonou no berço. Os homens que amei? Meros brinquedos quando eu mal aprendia a andar, brinquedos que me amaram e que eu amei com a inocência das crianças, meus homens que aos poucos foram desaparecendo do meu horizonte afetivo. E então elas por fim chegaram me avassalando e mostrando a cor de seus sexos sedutores e me tiraram a razão quando eu finalmente gozava na cama pela primeira, segunda, décima vez, e então eu enxerguei o céu e vi que o amor era sério, tão sério que me fazia crescer ao ponto de não me bastar em mim mesma e era eu que queria mais e mais mas não sabia como encontrá-lo, o amor que, finalmente, fugiu de mim me deixando enlouquecida e faminta.
in.: cartas para o reich
A virada do ano: almas em orquestra de batuques.
As sentenças cheias de bonança: os gritos de alegria
E o forró de arrasta-pé trespassado pelos pés no azulejo industrial.
A contemporaneidade aguda: lições e erros
As montanhas que tombam e
Os rios que erigem milagres: impérios de pedra e alma.
Somos nós: homens de mistérios
Nós intrespassáveis, indestrutíveis.
Desafiantes à altura de Alexandre:
Golpeados pela vida mas com o gosto dos sonhos nos lábios.
in.: os cadernos da chapada - vol. II - cavalcante