sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O Morcego Poeta

Vem o morcego rasante versejar na noite
Corta o ar numa curva bruxuleante
Asas desengonçadas projetam-se em harmonia
Eis o morcego selvagem em plena bizarria
Rindo da minha apreensão momentânea
Ante seu vôo de tamanha singeleza.
Vem o morcego me cantar da beleza
Dos porões escuros que habitam árvores cheias de vida e de sonhos.


in.: os cadernos para mim mesma
17-08-10

terça-feira, 24 de agosto de 2010

...

Sim, eu ouço os sussurros sibilantes dos ventos e os ensaios distantes da escola de música, eu me aventuro no verso da vida sentando na grama e fazendo do joelho uma mesa, do absurdo, o possível, da tristeza o desafio, da dor a lição. Então. Sou eu ou é o mundo???



in.: cartas p/ machado amarante

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

COMPÊNDIO DIVINO

Por onde andará Jesus Cristo?
Onde colhe Gabriel os lírios?
João Batista batizou no limbo?
Nunca ninguém escutou a flauta de Krishna
Mas alguns poucos sentem que ela toca todos os dias.
O que Muhammad diria a Joseph Smith e vice-versa?
Ousaria Kardec ou Chico intervir no colóquio?
Nunca! Nunca nos esqueçamos: Judas também senta à mesa
E Sidarta bebe do maná dos céus.

Como Oxossi descobriu o Brasil?
Onde São Jorge afia a espada?
Eros precisa mesmo ferir?
Como Thor se resolve com Zeus? E Tupã?
Não nos enganemos: Lúcifer era o preferido de Deus...
Mas onde andará Raimundo Irineu?
A voz do trovão e o cheiro do vento
São força de vida que Gaia nos deu.



in.: cartas p/ hugh link

domingo, 15 de agosto de 2010

sobre o que é bom

Escrevo-te de dentro do meu estranhamento perante o mundo. A vida é mesmo uma gangorra de conflitos. Nunca sei como me portar propriamente perante a porra paranóica desse mundo. Hesito, perco, sou levada. Mas sabe, mesmo assim é bom. Há os pequenos consolos.

Hoje quero ficar sozinha. O céu vazio de nuvens é convidativo e o sol me veio cantar no rosto. Música nas minhas sardas.

De vez em quando me esqueço dos problemas, nas outras vezes os problemas se esquecem de mim. E assim sigo, bamboleando sem perceber.




in.: cartas p/ o fotógrafo


quarta-feira, 11 de agosto de 2010

ecoemos seres de luz

Para onde vamos, seres de luz?
Por que sombras nos carregam nossos corpos?
Por que vales desconhecidos nos levam nossos pés?
Assomam-se os amanhãs incontáveis
Na eternidade da onda que nasce na estrela
Ou na miudeza do elétron:
Fóton enigmático
Calor efervescente
Luz... Imensidão desperta

Para onde amamos, seres de pensamento?
Para onde?
Se a morte é o voraz remédio
Até mesmo para aqueles
Que não querem ser curados?

Eis que surge a esperança no desenho do horizonte
Olhos verdes como os montes de uma terra já perdida
No olhar ela carrega as sementes de uma era
Que em sonhos imagina dentro em breve ressurgida

Descansamos nossos pés nos jardins da nova era
Nossos corpos nos carregam no infinito de um segundo

Pois que vamos por onde amamos,
Seres de luz.

in.: profecias profanas

domingo, 8 de agosto de 2010

eros e ágape

Como o tempo é um bom camarada, ele aparece por aqui apenas para traçar a reviravolta de minha narrativa epistolar que contava o fracasso de Eros e minha rendição à casta pureza de Ágape.

E, no entanto, quinze, vinte e cinco dias depois.

Amigo tempo que vem lento mas implacável: eis a morena na minha cama, daqui do parágrafo sinto seu hálito animal e sua grave voz que denuncia o gozo e a rendição à vida: sim, veja: a culpa é de Eros, ele se esbalda em nos pregar peças!

Agora estou nua pela noite lenta: nossos corpos são barcos que navegam devagar se rendendo paulatinamente à violência das águas. Somos tragadas pela maré que insiste em dançar como nós também nua pela noite lenta.

É a força de Eros gritando na seta que atravessa

A carne.

Te digo, amigo: eu e a morena nada temos em comum.

Ou...

Quase nada.




in.: cartas p/ amarante

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

após um trabalho de ayahuasca

Ainda sinto a força da ayahuasca se movendo pelo meu corpo. As sensações são como ecos: sinto-as várias vezes! Meus ouvidos dançam com a música. A emoção é contida mas se faz intensa por dentro.

Tento organizar as idéias. Mas são tantas coisas! Vejo que estou bem e viva. Dou graças aos deuses, ou ainda melhor: dou graças a Deus pois ele é um só e Ele me determinou. E será Ele que me fará morrer sem precisar me matar.O mistério.

Deus. Só você preenche minha vida. Súbito percebo: é você quem procuro. Está nas minhas raízes. Estou contigo, Deus.

Sim. Cada trabalho é a confirmação de que eu não estou só. Eu vejo as múltiplas vivências e as múltiplas ligações ancestrais. Eu vejo manadas de almas indo e vindo sem saber por quê mas simplesmente vivenciando o estrondo de se nascer e de se morrer. Esse intervalo enigmático que determina tudo: desde o alfa até o ômega. Vida. Dom Divino. A única coisa que existe.




in.: cartas p/ dionis

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

GRAÇAS A DEUS

Ao escrever profetizo lembranças
Lanço minhas palavras ao mar para abraçar os peixes.

Rogo caminhos aos pés
E passo cola nas frases
Pra sustentar o poema

Escavo as memórias antigas
Em busca do dom que perdi
De repente o verso cria vida
E grita cheio de esperança:

Floresce forte, humanidade
Os sonhos são feitos pra perdurar
Tarda por ora, Apocalipse
A profecia inda quer soar.


in.: profecias profanas

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

sobre o medo

Sim, eu tenho medo.

Hesito, erro, a custo percebo:

Eu tenho medo.

Cada respiração expressa em si mesma

A totalidade de meus anseios.

Lá vamos nós novamente ser tragados,

Atravessar todo aquele medo

Vencê-lo ou ser vencidos por ele,

Lá vamos nós novamente.

Vamos sorrir

Quando por fim percebermos

Que depois de tudo

Há um outro medo.




in.: os cadernos p/ mim mesma, 30-07-10

sábado, 31 de julho de 2010

NO NASCER DOS OCASOS

A vida é algo do qual a gente gosta de falar, porque é incrível, você sabe. A vida através dos universos, sob a mão onisciente e onipresente e oninconsciente: Deus de impulsos cheios dela: vida, de novo, a nascer nos ocasos, arroubos de desejos, gôndolas que deslizam através dos leitos também vivos, rios onde trafegam estórias de ancestralidades incontáveis, seixos que escavam rochas, água, água, vida novamente, sexo, semente, água, água, eis repetidamente a vida.

Deus de novo, Alá Deus.




in.: cartas p/ giuliani, 15-06-10

quinta-feira, 29 de julho de 2010

sobre a fé

Eu bem sei que todos os caminhos do verbo apontam para um só lugar: o lançar-se a si mesmo tomado pela fé no invisível. Deus existe na medida do impossível. Criemos na alegria da existência nossos seres invencíveis.




in.: cartas p/ o professor

terça-feira, 27 de julho de 2010

sobre a vida sob o sol

Amo a liberdade debaixo das árvores

Elas dançam com o vento que me afaga os cabelos.

A vida é isso: o que vemos, o que sentimos, o que provamos.

A vida não é o que pensamos.



Olhe: ontem eu acreditei em Deus e dei eco à sua minha causa.

Eu sabia que eu estava sujeita a erros, mas eu não temia errar.



Deus me veio como num orgasmo:

ele era pura sensação e não havia pensamento que pudesse sintetizá-lo.



Eu simplesmente agradeci a vida e a liberdade



in.: cartas p/ dionis

segunda-feira, 19 de julho de 2010

poema de novo

Noite de braços transparentes
Luz do meu mais negro jardim
Onde se arrastam as correntes
Onde se escrevem todos os motins

Traga-me a força do guerreiro
Jogue em mim o seu manto negro
Leva-me ao porto derradeiro

E me guia na volta


in.: os cadernos para mim mesma

sexta-feira, 16 de julho de 2010

poema

EXPERIÊNCIA DIVINA
É TUDO
O SER EM EXERCÍCIO
E O NÃO SER AO MESMO TEMPO
SEM TEMPO

in.: os cadernos p/ mim mesma, 07-06-10

quarta-feira, 14 de julho de 2010

a fonte da juventude

Se somos tão perfeitos quanto o são os rios e as árvores então por que nos fazemos tão cheios de rancor? Onde está a verdadeira fonte da juventude? Para que buscar alquimias escondidas a sete chaves se a verdadeira magia está nos momentos mais simples: a perfeição da madeira, árvore que morta sustenta a mesa em que bebemos e escrevemos os sonhos. Tudo tem sua razão de ser e a perfeição existe mesmo na medida impura da mágoa e na arbitrariedade da dor. A perfeição também reside na maturidade e também floresce na velhice. A fonte da juventude é uma ilusão a qual devemos deixar pra trás.

(...)

Acho que tudo que escrevo precisam ser cartas.

Para todos e para

Você.


in.: cartas p/ hugh link, 13-02-10

domingo, 11 de julho de 2010

o amor do agora e sempre

Sou o amor de cada encontro único

Vibrando em corações enlaçados

Luas em céus infinitos

Sóis em galáxias vindouras


Luminosas relações a enredar momentos

A moça da voz mais feminina que já conheci

Os amigos de olhares distantes

Os sorrisos abertos pela noite infinda

A vinda das descobertas

Sou isso que experimento


Sou carne e cimento


Sou copos de cerveja

E violões rachados. Pensamento e ato.

Amor elevado à verdade.


in.: os cadernos p/ mim mesma. 03-06-10, carmo do paranaíba

quinta-feira, 8 de julho de 2010

poema em mesa de bar II

Bem antes de nascer eu já amava meus amigos
Pois eu sabia que nosso encontro seria mágica
E já sabia dos desencontros, pressentia-os na alma

Quero ver agora, que já nasci.

Que surpreendente esses momentos em que o diálogo brota.
Eu sou feliz e estou aqui.


in.: os cadernos para mim mesma
cenário, do lado do pôr-do-sol, hoje

terça-feira, 6 de julho de 2010

A Morte do Vulcão

Diante da fraqueza do corpo

Eu rezo um terço sem nexo

Dor do espelho convexo

Tudo com prós e com contras


Ouço o meu terço miúdo

Rogo a Deus que Vesúvio

Não torne mais a cuspir


Vejo: a paixão vai-se embora

Onda que jaz no agora do corpo

Pra renascer amanhã só no sonho



in.: os cadernos para mim mesma, 02-06-10

domingo, 4 de julho de 2010

meu nome

meu nome é
patrícia de deus
sem querer uivo sagrado
e oração poética

sonoros vértices de dentes rangentes
rigorosas sombras pulverizadas de fumaça
poeira cósmica falsificada

demodê ô caralho
meu nome é
dromedário.

in.: os cadernos para mim mesma, 04-06-10
carmo do paranaíba, MG

quinta-feira, 1 de julho de 2010

poema em mesa de bar

Pela virtude que não teme o escárnio
E pela nobreza patética de todas as boemias
Eu escrevo sobre a mesa azul minha poesia
E sarcástica rasgo o verbo que alforria
E retorno ao jugo da escravidão:
Sou filha da terra estuprada pelos pais
E desprezada pelas filhas.
Sou a poetiza que se quer poeta
E sem cerimônias quebra a seta de Eros
E oferece cerveja à Baco.
Sou escrava dos catalizadores
Sonhadora de mundos
Cavalgando na mesa azul do bar que abriga
Minha qualquer poesia.


em frente ao Pôr-do-Sol, 23-06-10