Sem perceber sorvi de sua escuridão devagar.
De repente eu era a Lua que desaparecia
De um lado do mundo para reaparecer em outro.
Mudei de face.
Enchi-me da cor dos astros
E adormeci noturna.
as divagações epistolares de uma trotamundus sem peias
Procuro as palavras e encontro barulhos: bater de picaretas, soar de vozes, explosões de neurônios. Dendrito, axônio, núcleo, dendrito. Palavras e líquidos, livros, idéias. Eu vejo a face da morte por detrás da máscara do espelho. Não há imagem sem dualidade, e o dois é a morte do um. Procuro as palavras e encontro os números, as multiplicações dentro dos integrais, o big bang desmascarado, o mistério do mundo desvelado pela matemágica do pensavento, ou algo assim.
No domingo eu tô fumando e fumada tomo o comando do avião que são as linhas cruzando o céu azul e branco do papel que diz qualquer coisa sentimentada e
Pára. Sonda. Sonha. Gira.
Estou dançando com a espanhola de cabelo de cetim e pele de veludo, lábios bordados num vermelho azul que se escorre por todo o seu corpo de boneca.
Ela foi costurada com palavras e nunca terá vontade própria. Ela é o recorte desferido no meu rosto exposto em lágrimas: ela se chama Emilia e é o meu amor deitado morto pelo azul da hora de crescer: adeus, brinquedo e olá, guerra.
In.: cartas para clarice
“Eu acho que deus não terminou de criar o universo
Porque o universo não tem fim
E deus ainda está criando novas coisas”
(“Toque de criança" – Casa Redonda – Carapicuíba - SP)
Venho dizer que sou uma farsa que persiste adiante criando mundos. É uma tarde triste, uma garota dobra barquinhos de papel para jogá-los da janela do oitavo andar. Os rios secaram, a criança é presa de seus próprios desejos. Barcos de papel não voam, a garota me chama com sua voz de mármore sonoro. Ela é mais alta que eu, ela tem um balançar mais feminino. Mas ela não sabe, não sabe que o papel é dúbio, os rios secaram, é inútil debater-se pois os barcos não alcançarão os portos.
Mas a garota me chama, ela é sonora, sua voz me perfura. Não sei o seu nome mas vislumbro o papel que ela encena: está desejosa, me acena carinhos, tenta soprar meu suor. O papel ela dobra em barco e me lança através da janela. Ela quer beijar mas, muito mais, ela quer falar para se mostrar máscara, ela vem dividir a farsa comigo que aceito passiva sua intervenção dobrada em silêncio.
Mais um dia trespassado por entre meus átomos, esse dobrar de ângulos e papéis que é o tempo nos abocanhando e mastigando e cuspindo fora para abocanhar de novo num movimento acelerado que aponta para o apagamento de sermos finalmente engolidos e passarmos ao interior da escuridão do tempo que nos toma de cabo a rabo.
Estou abestalhada. E não sei se sou eu ou é o mundo, pois tudo se confunde. Estou abelhas.
A besta existe, tem chifres espiralados e lúgubres, e um sorriso escancarado, ela existe e tem olhos vermelhos e ela sai voando com rabinhos de capeta a balançarem no traseiro empinado, numa dança de cadeiras atrevidas e zombeteiras.
Estou abestalhada. Abelhas e bestas me invadem.
In: Cartas Para O Menino Meu
(...) ainda erro, erros, como errando pelas linhas e escutando o semáforo do Vanguart me lembro das vanguardas dadas surreais que despedaçavam a arte e percebo que na literatura eu coloco música e sou teatro pois permaneço esperando Godot e acredito no relógio mas sei de sua efemeridade pois o tempo é só estória e a história é dos vencedores, porra, e quem disse que eu quero compactuar com isso, com essa dinâmica torpe desse mundo de vencedores raros e hordas infindas de perdedores que choram a morte de um filho ou a injustiça de um P.M.? Me diga: quantos são corruptos? Quantos não o são? E os que não são, ainda estão vivos? Me diga: por que o umbigo? Senão para que olhes sua inutilidade, seu mero aspecto ornamental, o umbigo ego que cega qualquer um que viva nesse mundo de outdoors e jogadas de marketings pessoais.
A História e a Literatura são vozes dos vencedores.
Mas a Literatura ao menos humilde tenta chegar à voz dos todos outros perdedores, que ficaram sem voz diante do meritíssimo juiz da comarca.
Eu perco. E luto. Gosto do povão. Acho que sou um deles, mesmo burguesa nascida que sou.
Amigo meu. Hoje sou perdedora. Perco a fala diante dos maurícios e patrícias dessa vida.
É isso. Nunca quis ser Patrícia! Sou introvexa! Cancerígena! Caranguejeira! Puro veneno, emoção, sentimento! Sou a cadeia montanhosa de signos em avalanche de pedras atravessando as linhas e destilando o soro antígeno da cura que tenta chegar através das palavras.
27-03-09
Agora eu estou em casa de minha avó e tomo uma limonada enquanto Dona Geni come um abacate com açúcar e Tina degusta uma maçã. Casos de família.
Temos uma tia, a Dedé, irmã da Tina, filha da Dona Geni. Ela nos dizia que havia ganhado um pozinho mágico de uma bruxa, o qual ela guardava num saquinho que nos mostrava para nos fazer medo. Dizia que aquele pó a transformaria num monstro, e ela então nos engoliria pois fazíamos muita bagunça. Ela se transformava num daqueles monstros horríveis do Jaspion. Foi uma moça estranha – uma bruxa! – num banco de praça que a presenteou com aquele pozinho mágico, dizendo que com aquilo ela poderia fazer o que quisesse e sonhasse, mas que deveria ter muito cuidado ao usá-lo. Algo deve ter dado errado. Ela se transformava em monstros do Jaspion! Meus Deuses, que viagem! Ser criança é mesmo um tróço único.
In.: Carta pro menino amigo meu.