Sim, me lembrei já que ontem outro meninim ligou serelepe pra mim, e a meninice custosa dando cambalhotas pelo texto para relembrar nossas gargalhadas de crianças, éramos pequenos mas sabíamos conversar com os animais, as árvores e as pedras, habilidade que perdemos estupidamente quando nos tornamos adultos; mas o menino gritava: pelota! E era uma bola latina descalça no asfalto, pelada, hermanos e irmãos jogando juntos no mesmo time: Hasta la revolucion del Espírito que enche-nos de luz.
Não é preciso saber como. É preciso saber que é.
Sim, pois o sentido é encontro, Esse é o encontro: sentido! Eu, você, ele, elas, todos. Um lapso cheio de encontros cósmicos. Quantos somos, quantos fomos, quantos não somos mais. Poeira divina Carreguemos o arsenal do amor. Amém
É bom: luz é Deus. Até a planta sabe. Vida. Que divino!
O Guimarães, aquele rosa. Ele tinha umas tirada cabulosa. Tipo aquela: viver é muito perigoso. Eita verdade incisiva.
Estou naquele dia de alegria dura, de tristeza lânguida. Não sei da Lua, contemplo os dedos e faceio o sono. A alegria existe e é relance: momentos faceiros e súbitos; a tristeza não existe mas dura uma eternidade.
O céu é bem cinza, as nuvens baixas, a terra úmida. Eis o panorama: o ônibus anda e os pássaros voam. Eu me desloco: busco os caminhos que me levarão a mim mesma. Sei que o conflito é iminente: hei de encarar meus demônios, é época de renovação. Meu corpo busca meu espírito: meus joelhos se articulam para que meus pés me sustentem: minha alma tem o peso dos séculos, e ela quer sorrir, pois o conhecimento é a chave e é atrás dele que eu estou indo. As paixões são passageiras. A essência permanece indefinidamente.
A humanidade é linda, assim como toda criação. Há flores sem tréguas murchando no copo com água. A saudade que se escreve nos sulcos dos troncos das árvores. A fogueira queimando a vida e a água molhando a morte. A viagem singular única: transmigração. Estupor e desprezo. Alegria e tristeza. Rancor e perdão. Os nós atravessados nas cordas que se cruzam. A humanidade criada junto com a terra que se torna barro. Amor.
Sim. Sim. O positivo me invade. É a lembrança de Deus molhando a fronte. Os pés massageando a lama, a fogueira que traz calor, os sonhos da realidade que circunda: estamos todos conectados como células num tecido.
Vejo minha avó tecendo a roca. É a sabedoria em doses homeopáticas: essa que vem dos nossos ancestrais. Eu sei que havia algo sagrado em cada colherada de arroz, em cada movimentar de lenhas. Era lindo. Era amor, mesmo o frango que morria, era amor.
Eu sei que não preciso mais temer a solidão, pois é somente ela que existe. Minha avó sabia. Talvez soubesse ainda mais no dia de sua morte. Estou cheia. É imenso. Graças a Deus.
Não compreendo. Os olhos vêem e são eles que dão a forma. Os olhos pintam os quadros. As imagens nos povoam através dos olhos. Também compreendemos com os olhos.
Os nossos olhos devorando a natureza. Ela de verde geométrica em Brasília, ela também de cinza, natureza humana que é, de cinzas e seca e sintética como o pneu que se gruda fervente no asfalto da capital sem freios. Os nosso olhos no carro cinza que passa levando dentro e embora o nosso amor ingênuo de milênios atrás.
Agora é a vez da boemia da destruição consciente: Eis meu bêbado amigo Fausto O falso playboy que virou plebeu E morou na rua E fumou na lata E fez tatoo de cadeia sem precisar ser preso. Eis meu amigo louvando a vida Do seu jeito liberto sem cabresto Falando claro mesmo enrolando a língua.
Vou aos poucos dissecando o meu mistério interior, essa dor de ser fracasso naquilo que mais desejo: o amor, veja, ele me abandonou no berço. Os homens que amei? Meros brinquedos quando eu mal aprendia a andar, brinquedos que me amaram e que eu amei com a inocência das crianças, meus homens que aos poucos foram desaparecendo do meu horizonte afetivo. E então elas por fim chegaram me avassalando e mostrando a cor de seus sexos sedutores e me tiraram a razão quando eu finalmente gozava na cama pela primeira, segunda, décima vez, e então eu enxerguei o céu e vi que o amor era sério, tão sério que me fazia crescer ao ponto de não me bastar em mim mesma e era eu que queria mais e mais mas não sabia como encontrá-lo, o amor que, finalmente, fugiu de mim me deixando enlouquecida e faminta.
Levatepelotextoqueinexiste É a vida: perplexa pois pássaros orquestram E a abelha dança no movimento dos meus olhos Mas nós não somos nada pois estamos presos no tempo E o tempo acaba ali.
Maslevatepelotextoqueinsiste Há o sonho: ele nos lança ao incorpóreo E aos reencontros por através do caos do cosmos Mas nós não somos nada pois vivemos várias vezes E a vida acaba ali.
Veja: borboletas não têm sexo e mesmo assim só beijam flores coloridas. Não importa o alvo, só o caminho importa: jogar-se nos campos sonoros, adentrar os tijolos dourados, atravessar o tornado, encontrar o coração mesmo que ele seja de lata. A menina busca seu cão e seu cão busca a humanidade: ele quer ter lágrima, ele quer sorrir. A menina sorri e corre, deslumbrada e ansiosa, ela perscruta todos os ângulos, ela se envergonha e se parabeniza. E busca os rastros do cão que passou antes dela, e segue as pistas que lhe são evidentes até chegar ao castelo onde por fim se despe do vestido azul e se percebe mulher e decide adorar o espelho até finalmente mudar e quebrar o espelho para nunca mais ter que ver sua imagem distorcida pela realidade.
E lá ela permaneceu eterna até se tornar não ela e terminar a estória e adentrar novamente a poesia dos significantes espontâneos e a busca é incessante e os olhos querem flores para as pálpebras, borboletas e asas, leveza inventada de sonhos, anjos de carne que aparecem a mortais feitos de luz.
Quando encontro com as idéias do meu tempo Os rockeiros de barba e os manos com o som nos dentes Os panos se abrindo com as garrafas de cerveja E as idéias do underground rosnando em guitarras Tenho vontade de gemer de alegria E sugo os sabores da noite urbana Com os radares ligados: o inimigo não chega aqui vivo E se chegar puxamos a cadeira e o bicho se senta Não importa se o desafio é perdido: As esquinas trazem o consolo dos brothers Somos selvagens de calças jeans E temos todos os futuros pela frente.
A morte é a passagem para a ausência de tempo. Quando nascemos, é como o tempo que nos tornamos mulheres, homens, seres. Nos percebemos. Somos e convidamos o pensamento a trotar por terrenos diversos. Somos dentro do tempo e através do espaço. Quando morremos, saímos do tempo e adentramos a realidade turbilhônica e estática do instantâneo. Sim, é o tempo que nos traz a vida e ela em nós cultiva. Quando ele nos abandona, somos tragados pelo mistério da morte. Bendito e maldito tempo, que tudo nos dá e facilmente nos tira tudo. (...) Sim. Eis me viva como o vento que sopra sua respiração deliquescida. Milagre do encontro com o além de mim que a mim convida: sinta, a brisa nos traz frescor, ela alivia os terremotos. É o descer do dia trazendo o seu bafo frio. O fim da vida é como o fim do dia: fogo que se apaga sem quê nem qual. (...) Sim. Sim. Estou mais próxima de tudo. Próxima de meu escuro ensurdecedor. Limitude. Eis minha verdade dolorosa, avassaladora como a morte... (...) Nem deus conseguiria me dar o tudo.
Oh loucura vil dos homens, lançados a suas paixões passageiras como se condenados ao abismo da morte, quando na verdade não percebem que a morte é o caminho turbulento rumo à eternidade e que na verdade é a vida o verdadeiro mistério, a ardência incessante, o fremir do martelo do juiz invisível. Mas eis nos: sedentos de sonhos como se de água, a procura de um ego como se de deus, movidos por nossas ilusões inventadas, rasgando mandamentos de pedra, apagando os ecos das orações pronunciadas, derrubando cruzes.
Agora, amiga, eis a primavera chuvosa de Brasília. Sinfonia de cigarras e árvores de flamboyant. O esverdear dos gramados geométricos.
Nessa manhã cinzenta Deus veio falar comigo através da minha própria boca. Ele dizia da dor de adorar a si próprio, a maldição do espelho, ao mesmo tempo em que me lembrava da liberdade de ser instante, de pulsar em coração e alma. Pela minha boca saíram palavras com o peso dos séculos. ALLAH! Deus fala na língua dos homens, árabe, hebraico ou brasileiro, e eis que eu agradeci pelo poder da respiração que sopra a palavra: AMÉM, Deus é a força que emana do um para os muitos e em direção ao todo inexorável.
Eu nessa manhã pedindo força e empurrando os minutos com as pálpebras cansadas e os pulmões atordoados de tantos cigarros e a mente frenética e o frio na barriga que quer descanso numa cama macia.
Ui. Que letargia. Daí-me forças, senhor.
Pois tem sido assim, amiga. Um desenrolar exasperante de dias. Perdi a a autoridade sobre mim mesma. O tempo me engole e Deus me ampara.
Gabi. Turbilhão. Eu frenética. É que sou sentimento e quero abraçar o mundo inteiro: quero entendê-lo, deixar que me tome, me use como instrumento: eis Deus sendo todo poderoso, conceito que me invade: é triste, mas vivamos pois ao menos podemos orar e pedir ajuda, já que estamos sós e desesperados e todas as luzes se apagaram, veja, eis que surge a luz e é a palavra, o verbo: palavrear sem freios, deixar que a idéia surja e a esperança resista.