sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

o espírito criança

Sim, me lembrei já que ontem outro meninim ligou serelepe pra mim, e a meninice custosa dando cambalhotas pelo texto para relembrar nossas gargalhadas de crianças, éramos pequenos mas sabíamos conversar com os animais, as árvores e as pedras, habilidade que perdemos estupidamente quando nos tornamos adultos; mas o menino gritava: pelota! E era uma bola latina descalça no asfalto, pelada, hermanos e irmãos jogando juntos no mesmo time:
Hasta la revolucion del
Espírito que enche-nos de luz.

Não é preciso saber como. É preciso saber que é.

Sim, pois o sentido é encontro,
Esse é o encontro: sentido!
Eu, você, ele, elas, todos. Um lapso cheio de encontros cósmicos.
Quantos somos, quantos fomos, quantos não somos mais.
Poeira divina
Carreguemos o arsenal do amor. Amém

É bom: luz é Deus. Até a planta sabe.
Vida. Que divino!


in.: cartas p/ felipe

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

sentires

O sentido da vida são sentires

O som da água corrente

A palavra acuosa

A aranha tecendo sobre nós

Os seus muitos olhos.

Bem, o sentido da vida são os encontros.

A folha seca que cai sobre o ombro

De novo a aranha pulando sobre o papel

Os olhos que se cruzam

E as existências que se vão quase sorrindo.

Sim, os sentidos da vida.



in.: cartas p/ helô

sábado, 13 de fevereiro de 2010

inspirando guimarães

O Guimarães, aquele rosa. Ele tinha umas tirada cabulosa. Tipo aquela: viver é muito perigoso. Eita verdade incisiva.

Estou naquele dia de alegria dura, de tristeza lânguida. Não sei da Lua, contemplo os dedos e faceio o sono. A alegria existe e é relance: momentos faceiros e súbitos; a tristeza não existe mas dura uma eternidade.



in.: cartas para amarante

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

sobre a viagem

O céu é bem cinza, as nuvens baixas, a terra úmida. Eis o panorama: o ônibus anda e os pássaros voam. Eu me desloco: busco os caminhos que me levarão a mim mesma. Sei que o conflito é iminente: hei de encarar meus demônios, é época de renovação. Meu corpo busca meu espírito: meus joelhos se articulam para que meus pés me sustentem: minha alma tem o peso dos séculos, e ela quer sorrir, pois o conhecimento é a chave e é atrás dele que eu estou indo. As paixões são passageiras. A essência permanece indefinidamente.

Meu nome é Peregrino e eu procuro Deus.

A grande viagem é a vida, e ela não tem volta.








in.: os cadernos da chapada, vol II - Cavalcante

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Descobrir e Cobrir os Irmãos


Pois ora. Pois ore.

A humanidade é linda, assim como toda criação. Há flores sem tréguas murchando no copo com água. A saudade que se escreve nos sulcos dos troncos das árvores. A fogueira queimando a vida e a água molhando a morte. A viagem singular única: transmigração. Estupor e desprezo. Alegria e tristeza. Rancor e perdão. Os nós atravessados nas cordas que se cruzam. A humanidade criada junto com a terra que se torna barro. Amor.

Fim.

Começo.

Acaso.

Destino.

Meio.



in.: cartas para o sapo e as borboletas

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

a unicidade divina

Sim. Sim. O positivo me invade. É a lembrança de Deus molhando a fronte. Os pés massageando a lama, a fogueira que traz calor, os sonhos da realidade que circunda: estamos todos conectados como células num tecido.

Vejo minha avó tecendo a roca. É a sabedoria em doses homeopáticas: essa que vem dos nossos ancestrais. Eu sei que havia algo sagrado em cada colherada de arroz, em cada movimentar de lenhas. Era lindo. Era amor, mesmo o frango que morria, era amor.

Eu sei que não preciso mais temer a solidão, pois é somente ela que existe. Minha avó sabia. Talvez soubesse ainda mais no dia de sua morte.
Estou cheia. É imenso. Graças a Deus.


in.: os cadernos da chapada, vol II - Cavalcante

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

23-05-09

Não compreendo. Os olhos vêem e são eles que dão a forma. Os olhos pintam os quadros. As imagens nos povoam através dos olhos. Também compreendemos com os olhos.

Os nossos olhos devorando a natureza. Ela de verde geométrica em Brasília, ela também de cinza, natureza humana que é, de cinzas e seca e sintética como o pneu que se gruda fervente no asfalto da capital sem freios. Os nosso olhos no carro cinza que passa levando dentro e embora o nosso amor ingênuo de milênios atrás.

(...)

Vejo-me. Sorrio.

Meu único defeito é ser triste.





in.: cartas para o filósofo

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

sobre o clovis

A FAUSTO

Agora é a vez da boemia da destruição consciente:
Eis meu bêbado amigo Fausto
O falso playboy que virou plebeu
E morou na rua
E fumou na lata
E fez tatoo de cadeia sem precisar ser preso.
Eis meu amigo louvando a vida
Do seu jeito liberto sem cabresto
Falando claro mesmo enrolando a língua.



in.: cartas para helô

domingo, 24 de janeiro de 2010

diálogos em casa de elaine

xxxxxxxxx
DIVAGAÇÕES SOBRE A ROMÃ
D: Como era provar a energia da romã?
T: A romã em seu sabor dava pouco mas gostoso.
XXXXXXXXX

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Sobre o Desejo



Vou aos poucos dissecando o meu mistério interior, essa dor de ser fracasso naquilo que mais desejo: o amor, veja, ele me abandonou no berço. Os homens que amei? Meros brinquedos quando eu mal aprendia a andar, brinquedos que me amaram e que eu amei com a inocência das crianças, meus homens que aos poucos foram desaparecendo do meu horizonte afetivo. E então elas por fim chegaram me avassalando e mostrando a cor de seus sexos sedutores e me tiraram a razão quando eu finalmente gozava na cama pela primeira, segunda, décima vez, e então eu enxerguei o céu e vi que o amor era sério, tão sério que me fazia crescer ao ponto de não me bastar em mim mesma e era eu que queria mais e mais mas não sabia como encontrá-lo, o amor que, finalmente, fugiu de mim me deixando enlouquecida e faminta.



in.: cartas para o reich

sábado, 16 de janeiro de 2010

NA VIRADA DO ANO

A virada do ano: almas em orquestra de batuques.

As sentenças cheias de bonança: os gritos de alegria

E o forró de arrasta-pé trespassado pelos pés no azulejo industrial.

A contemporaneidade aguda: lições e erros

As montanhas que tombam e

Os rios que erigem milagres: impérios de pedra e alma.

Somos nós: homens de mistérios

Nós intrespassáveis, indestrutíveis.

Desafiantes à altura de Alexandre:

Golpeados pela vida mas com o gosto dos sonhos nos lábios.



in.: os cadernos da chapada - vol. II - cavalcante

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

DO EFÊMERO

Levatepelotextoqueinexiste
É a vida: perplexa pois pássaros orquestram
E a abelha dança no movimento dos meus olhos
Mas nós não somos nada pois estamos presos no tempo
E o tempo acaba ali.

Maslevatepelotextoqueinsiste
Há o sonho: ele nos lança ao incorpóreo
E aos reencontros por através do caos do cosmos
Mas nós não somos nada pois vivemos várias vezes
E a vida acaba ali.



terça-feira, 12 de janeiro de 2010

a mágica sem oz

Veja: borboletas não têm sexo e mesmo assim só beijam flores coloridas. Não importa o alvo, só o caminho importa: jogar-se nos campos sonoros, adentrar os tijolos dourados, atravessar o tornado, encontrar o coração mesmo que ele seja de lata. A menina busca seu cão e seu cão busca a humanidade: ele quer ter lágrima, ele quer sorrir. A menina sorri e corre, deslumbrada e ansiosa, ela perscruta todos os ângulos, ela se envergonha e se parabeniza. E busca os rastros do cão que passou antes dela, e segue as pistas que lhe são evidentes até chegar ao castelo onde por fim se despe do vestido azul e se percebe mulher e decide adorar o espelho até finalmente mudar e quebrar o espelho para nunca mais ter que ver sua imagem distorcida pela realidade.

E lá ela permaneceu eterna até se tornar não ela e terminar a estória e adentrar novamente a poesia dos significantes espontâneos e a busca é incessante e os olhos querem flores para as pálpebras, borboletas e asas, leveza inventada de sonhos, anjos de carne que aparecem a mortais feitos de luz.


In.: cartas para luciana

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

no bar em taguá

Quando encontro com as idéias do meu tempo
Os rockeiros de barba e os manos com o som nos dentes
Os panos se abrindo com as garrafas de cerveja
E as idéias do underground rosnando em guitarras
Tenho vontade de gemer de alegria
E sugo os sabores da noite urbana
Com os radares ligados: o inimigo não chega aqui vivo
E se chegar puxamos a cadeira e o bicho se senta
Não importa se o desafio é perdido:
As esquinas trazem o consolo dos brothers
Somos selvagens de calças jeans
E temos todos os futuros pela frente.

domingo, 6 de dezembro de 2009

elocubrações filosofais

A morte é a passagem para a ausência de tempo. Quando nascemos, é como o tempo que nos tornamos mulheres, homens, seres. Nos percebemos. Somos e convidamos o pensamento a trotar por terrenos diversos. Somos dentro do tempo e através do espaço.
Quando morremos, saímos do tempo e adentramos a realidade turbilhônica e estática do instantâneo.
Sim, é o tempo que nos traz a vida e ela em nós cultiva. Quando ele nos abandona, somos tragados pelo mistério da morte.
Bendito e maldito tempo, que tudo nos dá e facilmente nos tira tudo.
(...)
Sim. Eis me viva como o vento que sopra sua respiração deliquescida. Milagre do encontro com o além de mim que a mim convida: sinta, a brisa nos traz frescor, ela alivia os terremotos. É o descer do dia trazendo o seu bafo frio.
O fim da vida é como o fim do dia: fogo que se apaga sem quê nem qual.
(...)
Sim. Sim. Estou mais próxima de tudo. Próxima de meu escuro ensurdecedor.
Limitude. Eis minha verdade dolorosa, avassaladora como a morte...
(...)
Nem deus conseguiria me dar o tudo.

in.: cartas p/ clarice

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

sobre a vida e a morte

10-10-09


Diálogo com Rick


“A gente vem sem saber por quê

E a gente vai sem saber pra onde”

domingo, 22 de novembro de 2009

O SINAL DOS TEMPOS SEM DATA

Oh loucura vil dos homens, lançados a suas paixões passageiras como se condenados ao abismo da morte, quando na verdade não percebem que a morte é o caminho turbulento rumo à eternidade e que na verdade é a vida o verdadeiro mistério, a ardência incessante, o fremir do martelo do juiz invisível.
Mas eis nos: sedentos de sonhos como se de água, a procura de um ego como se de deus, movidos por nossas ilusões inventadas, rasgando mandamentos de pedra, apagando os ecos das orações pronunciadas, derrubando cruzes.



in.: cartas para helô

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

PROFECIA COTIDIANA

Agora, amiga, eis a primavera chuvosa de Brasília. Sinfonia de cigarras e árvores de flamboyant. O esverdear dos gramados geométricos.

Nessa manhã cinzenta Deus veio falar comigo através da minha própria boca. Ele dizia da dor de adorar a si próprio, a maldição do espelho, ao mesmo tempo em que me lembrava da liberdade de ser instante, de pulsar em coração e alma. Pela minha boca saíram palavras com o peso dos séculos. ALLAH! Deus fala na língua dos homens, árabe, hebraico ou brasileiro, e eis que eu agradeci pelo poder da respiração que sopra a palavra: AMÉM, Deus é a força que emana do um para os muitos e em direção ao todo inexorável.

Eu nessa manhã pedindo força e empurrando os minutos com as pálpebras cansadas e os pulmões atordoados de tantos cigarros e a mente frenética e o frio na barriga que quer descanso numa cama macia.

Ui. Que letargia. Daí-me forças, senhor.

Pois tem sido assim, amiga. Um desenrolar exasperante de dias. Perdi a a autoridade sobre mim mesma. O tempo me engole e Deus me ampara.


in.: cartas para giuliani.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

no durante era o verbo ou sobre deus e monoteísmo

Gabi. Turbilhão. Eu frenética. É que sou sentimento e quero abraçar o mundo inteiro: quero entendê-lo, deixar que me tome, me use como instrumento: eis Deus sendo todo poderoso, conceito que me invade: é triste, mas vivamos pois ao menos podemos orar e pedir ajuda, já que estamos sós e desesperados e todas as luzes se apagaram, veja, eis que surge a luz e é a palavra, o verbo: palavrear sem freios, deixar que a idéia surja e a esperança resista.


Fim. De novo.

Gabi. Turbilhão. Eu ...
(...)








in.: cartas para g. branquinho

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

carta relâmpago para amarante

Amigo Henrique Machado Amarante.

Por favor, lembre-se: a vida é curta e não há tempo pra besteiras.









Um beijo e um queijo cheiroso.

P.S.: é que tenho que fazer tantas coisas que os espaços em branco se me tornaram tão desejados!