sábado, 13 de setembro de 2008

ANTERO DE QUENTAL

Quando a sede nos seca o paladar,
E o sol a pino o peito nos esmaga,
Se enfim se chega à praia, junto à vaga,
Quem hesita entre a areia e entre o Mar?

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Pater - parte V.

ao Divino indizível

Ele, o Deus sem nome...
Aquele inonimável que repousa
Na nossa respiração...

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

carta p/ menino homem com soldados de plástico

Eu tenho dores de cabeça e sinto-me intoxicada de pensamentos. Sou mais uma alma no front e vejo relâmpagos num horizonte cinza, num horizonte sem céu. Há sangue em minhas mãos, eu rosno em agradecimento à vida e clamo o nome do Divino. Há sangue em minhas mãos e eu preciso de um cigarro para engolir a mim mesma a seco. Eu soldado, mudada para sempre.
Mais uma alma no front inundado de lágrimas que correm por dentro do peito. Mais um corpo dormente e abraçado com um fuzil na noite densa e cinzenta. Mais saudades de casa na guerra estrangeira de uma soldado sem pátria.
- Bebamos um vinho essa noite, general. Em homenagem aos mortos, por favor bebamos pois ainda, nessa noite sem céu, estamos vivos, coronel. Bebamos pois somos todos soldados e estamos vivos como homem que somos, tenente. (...) Bebamos, cabo. À vida, gente.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

carta p/ L. em papel azul

Querida,

que durmas com anjos nessa noite de alegrias em cadência azul e única pois é assim que o negro da noite é o azul que pacifica-se escurecendo. Desejo que durmas nessa calma imensidão de azul com anjos pois aqui do meu lado respiras e és angelical dentro da inocência do sono.
Nunca estive tão em paz quanto hoje, dentro desse seu meu azul
nosso azul pequeno e sincero.

hoje eu te amo

Por favor, não desperdicemos juras de amor eterno. Tudo o que existe, um dia finda. Demos graças então, pois ao menos existe algo em nós, mesmo que tão amargamente transitório, como tudo que existe é.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

GARCÍA MÁRQUEZ

Fermina Daza está de volta!

"(...)Era outra: a compostura de pessoa adulta, os botins altos, o chapéu de velilho com a pena colorida de algum pássaro oriental, tudo nela era correto e fácil, como se tudo tivesse sido seu desde sua origem. Achou-a mais bela e viçosa do que nunca, mais irrecuperável, como nunca, embora não tenha compreendido a razão até notar a curva do seu ventre devaixo da túnica de seda: estava grávida de seis meses. Entretanto, o que mais o impressionou foi que ela e o marido formavam um par admirável, e ambos manejavam o mundo com tanta fluidez que pareciam flutuar acima dos escolhos da realidade. Florentino Ariza não sentiu ciúme nem raiva, e sim um grande desprezo por si mesmo. Sentiu-se pobre, feio, inferior, e não só indigno dela como de qualquer outra mulher sobre a terra."

GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. O Amor nos Tempos do Cólera.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

a menina sonha mulher ou vice-versa

O sonho grandioso que sonhei com ela quando tínhamos 39 anos de idade. Ele foi de uma beleza ímpar, suave visão irremediável que me marcou pelo resto da vida. Como posso apagar o que o futuro demonstra dentro do meu coração sonolento de menina de 20?

Coisa cruel é rasgar com as unhas o céu cinzento dos meus sonhos gloriosos de menina. Não quero antever escuridão onde a calma das nuvens anunciava uma garoa calorosa nos braços da minha só minha morena de olhos verdes. Deixe as nuvens serem nuvens. Não rasgue meu céu, não me invada com escuridão. Eu a vi balançar sob as folhas de uma árvore imensa, de galhos cinzentos como o céu e copa esverdeada como os seus olhos alvoroçados, no balanço da gris alvorada de meus sonhos de menina nua e rendida ante a intangibilidade da verdade do amor. Não me faça rasgar os sonhos que vivi com toda a minha alma, uma vez e somente os sonhos únicos e ingênuos que nunca mais haverão de ser como foram naquela ocasião perdida na memória.


segunda-feira, 25 de agosto de 2008

O discípulo de Emaús

Jesus Cristo não esperou a maturidade para liquidar os sábios e doutores: fê-lo aos 12 anos.



Murilo Mendes

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

o peso dos sentimentos

E no domingo sou contagiada pela letargia da minha vida que se escorre lenta pelos buracos que permeiam os átomos. Um clima de desalento e desencanto preenche a minha casa e eu queria estar longe daqui. Queria poder me juntar aos vazios dos átomos para que também minha amargura fosse feita de imaterial e eu não a sentisse mais.
Os sentimentos carregam o peso da matéria.

domingo, 17 de agosto de 2008

carta p/ d.

Como está você? Imagino-te em cotidianos cariocas com o mar no horizonte e garotas de Ipanema a rodear o seu coração imenso de amor. Imagino-te o menino-homem que conheci há cerca de 8 anos atrás cheio de um brilho cálido no olhar. Imagino-te D.B nas ruas de uma Rio de Janeiro que surpreende a cada dia.

Enquanto isso, cá eu, nessa Brasília seca, onde os gramados geométricos trincam um sorriso amarelo árido e cortante. Cá eu trincando no final da tarde que já carrega um azul denso que anuncia a noite.

E pensar que desfrutei de praticamente um mês pelas ruas de minha Belo Horizonte querida, a percorrer morros e bares, a compartilhar de sorrisos e reencontros, a experimentar o frio acolhedor das minhas Minas Gerais... Pensar nisso é reaver a esperança no dia de amanhã candango que se anuncia nesse meu horizonte de baixa umidade relativa do ar.

(...)
Mas, amigo, que alegre é o reencontro! Nem que ele se dê somente na memória, que alegre é!

sábado, 16 de agosto de 2008

HETEROSSEXUAL

o homem que me habita
é a mulher
que em ti suplica


Lorenzo Ferrari (Movimento Poetrix)

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

INUTIL(MENTE)

de que valem
meus versos de amor,
se teu coração é analfabeto?


Angela Bretas (Movimento Poetrix)

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

AMOR PLATÔNICO

de que vale um rosto
se não sei do resto
se nem sei do gosto


Judith de Souza (Movimento Poetrix)

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

AMAR-A-LOUVAR O VERBO

Como não palavrear, quando a realidade não basta?
Minhas veias pulsam por palavras para preencher o vazio
Da própria veia.
Circulação celeste no coração que canta o ritmo
De istmo a istmo
Do planeta e da alma
Só para louvar o verbo.


amaralouvar
o verbo
cantando
é bom

terça-feira, 12 de agosto de 2008

carta p/ meu mestre filósofo professor sitiado barbudo de lá ...

A Universidade toma meus tempos: adoro viver o campus e seus gramados, árvores, caminhos, bancos. Confesso que já não sou a aluna exemplar que um dia fui, e faço o meu mínimo com ares exaustos. Gosto mais é dos bastidores, a academia não me apraz. Já não penso mais em mestrados, só quero aproveitar o conhecimento que a convivência dentro de um ambiente universitário me proporciona. A vida é imensa, não cabe em livros ou em salas de aula. Quero devorar o mundo, mas sei bem que posso queimar meus lábios nessa audaz tentativa. De qualquer forma, cá eu, sem diploma e com verdades transitórias a tira-colo.

E digo-te: a transitoriedade nos trespassa. E nós com a velha vontade de segurar os momentos... Ah, como dói a saudade de outrora!
Mas, eia, na saudade o outrora cavalga e toma forma. Não resta nada, no final das contas: só o "eu" e suas lembranças sem conta.
Viver é uma lição trabalhosa. Mas a gente vai pegando "as manha", sacumé? A gente acaba por calejar e aprender a dinâmica de si mesmo.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

carta p/ g.

Você que se deita sob a sombra de minhas lembranças inventadas. Você serenidade trazendo-me a paz sufocante da nostalgia.
Eu queimo velas vermelhas em forma de coração e tambores tocam eles com cordas de violão ao meu lado. Rouba-me o olhar a Lua, Linda, no alto do céu do Cruzeiro. O Sul. O meu sul em mim, a minha descida ao um bigo abaixo. Fim. Início. Meio. Em cheio sou e tendo a palavrear isso, tendão tentando palavrear isso que sou.

O Sol saiu ontem à tarde dando ares de sorriso à menina desconhecida sentada no ponto de ônibus.
A outra menina na praça deserta acende um cigarro e brinca de amarelinha com a Morte amarelada sob o Sol.

(...)

Acho que no final das contas todos nós nos matamos de tanto viver.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

cadernos de viagem ... mais minas

arraial da lapinha, município de santana do riacho, MG - 9 de julho

Encontramos o Aristide dentro do caroneiro. Ele é filho da Dona Lina e nos ofereceu o pouso por 10 reais a cabeça. Foi muito prestativo e nos deu as indicações para a trilha que vai para o pico do breu (pico da lapinha, ou falso pico do breu). Serão cerca de duas horas de caminhada morro acima. De lá, contaremos um pouco com o acaso. Não conseguimos marcar os pontos no GPS, mas temos indicações de pontos anotados num papel, além do mapa e das indicações de Aristide, e outras informações que colhemos na internet. Eia

(...)

Confundimo-nos, nos perdemos e passamos por caminhos íngremes. Atravessamos um trecho da Serra do Espinhaço por dentro da vegetação seca da montanha e vimos paisagens que talvez jamais veremos de novo. Digo isso porque, mesmo se eu voltar a fazer essa travessia insana não passarei pelos mesmo caminhos que escolhemos dessa vez, nem a pau. (...) Um dia inteiro de caminhada com mochilas pesando cerda de 15 quilos nas costas subindo e descendo morros de pedregulhos imensos sem ter guia e seguindo a direção da intuição com as poucas informações que tínhamos. Saímos por volta das 9 e 45 da manhã e conseguimos avistar a casa de Dona Ana já davam mais de 6 da tarde. Perdidos, íamos acampar numa casa em construção que avistamos de longe, mas por sorte encontramos um pedreiro que finalmente nos deu a localização exata da casa de Dona Ana. Quando, por fim, já escurecendo, ouvimos no meio do nada o barulho de cães ladrando, eu sabia que havíamos chegado. Foi o melhor latido de cães que já escutei em toda a minha vida. (...) Vou apagar a lanterna e cair no sono. Tenho certeza que vou apagar que nem bebê. Dormir profundamenteeeeew.................

(...)
algum ponto entre santana do riacho e conceição do mato dentro, MG -10 de julho

Não. Não dormi que nem bebê e nem profundamente. A barraca, montada já no escuro do início da noite, estava meio que desnivelada. Meu isolante térmico não amenizou os desníveis. Meu corpo dolorido no duro chão de grama da terra que pisei e que piso e que, mesmo seca no árido da montanha e no alto do inverno, faz brotar a vida nos mais remotos pedaços de chão. Embora a noite tenha sido longa e a manhã se mostre cinzenta e fria, o sabor do café de Dona Ana, a companhia dos meus meninos e as lembranças da primeira parte da travessia iluminam meu despertar.

Meu corpo dói e sou feliz.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

cadernos de viagem ...

26 de julho ... Belo Horizonte, São Lucas

E é um entardecer cor-de-rosa no dia do aniversário de minha mãe. Pipas azuis e helicópteros descoloridos cruzando o céu. Quanto mais me permito, mais perco o medo. Os contornos do meu auto-retrato vão ficando mais nítidos à medida em que percorro os pedregulhos das montanhas, que conheço e desbravo os novos amigos, à medida em que sonho com os artesanatos e as pautas musicais, à medida em que desvelo o corpo das mulheres e suas almas que vacilam como a minha. E agora conto uma, duas, três, quatro pipas no entardecer cor-de rosa do aniversário de minha mãe. (...) É Belo Horizonte e seus morros e prédios e lembranças. Há uma pipa vermelha e meu coração imita a cor da paixão despreocupada.

sábado, 19 de julho de 2008

o sonho persegue seu fim

(...) Não digo que a solidão não me é mais mistério: ela ainda por vezes dói, e é sufocante, ultrajante até. Hoje pela manhã senti a solidão do meu corpo. Meu corpo só inundando a solidão da alma. Dói ser jovem e ter o corpo só. Dói mais que solidão de alma, embora as duas coisas se confundam.
(...)
Já em BH, sozinha no quarto de Felipe, choro algumas lágrimas pela solidão do corpo do agora e na lembrança incômoda dos erros do passado. O espelho horroroso e sua verdade que acusa as bizarrices que escancaram: o mundo e os papéis desfilando, heróis heterossexuais com bodas de ouro e vilões descaradamente aviadados dando as bundas nos bares. A que mundo você pertence, imagem no espelho? Que universo é esse onde te deitas nua e assustadoramente atraente? Por que me fizestes assim, imagem no espelho? Que mistério é este que carregas com tanto medo?
(...)
Vi meu corpo se deitando em sonhos e havia um corpo de mulher a mais na cama estreita. Observei-a e era linda demais para que eu me deitasse sem o beijo de boa noite no rosto quente. Vi meu corpo se deitando em sonhos e havia dois corpos de mulher encaixados na cama estreita.
Adormeci sorrindo logo em seguida.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

DON'T PANIC

again and again

Oh, we're sinking like stones,
All that we fought for,
All those places we've gone,
All of us are done for.

We live in a beautiful world,
Yeah we do, yeah we do,
We live in a beautiful world,

Oh, we're sinking like stones,
All that we fought for,
All those places we've gone,
All of us are done for.

We live in a beautiful world,
Yeah we do, yeah we do,
We live in a beautiful world.

Oh, all that I know,
There's nothing here to run from,
And there, everybody here's got somebody to lean on.


e enquanto ninguém compreende comigo
compreendo sozinha
sem ter para onde ou porque fugir.

leaning on myself
and on nobody else

last but not least: a minha insegurança sempre foi por mim.
queimo renato na cruz
e esqueço-me dentro da nossa melancolia em comum

quinta-feira, 17 de julho de 2008

cadernos de viagem

distrito do tabuleiro, conceição do mato dentro, MG
14 de julho de 2008

De todas as descobertas de ontem, duas me ficaram mais marcantes na memória. A primeira, no Poço do Pari, quando eu, deitada nas pedras, me senti conectada a todos os pequenos pedaços de coisas que formam o mundo. Naquele momento eu era toda a existência em um só ponto e pude de maneira extrema sentir a misteriosa presença do Divino. Foi algo mágico e impossível de se descrever propriamente. As folhas das árvores dançavam acompanhadas pelas formas das pedras e pelos movimentos das águas. Naquele momento, eu mesma era as árvores, as pedras e as águas, todas unificadas dentro do meu fogo interior. Chorei pois podia me sentir e me via dentro de todos os lugares. Estava em paz pois sabia da verdade inegável da solidão que me povoa mas podia compartilhar com todas as formas a mesma solidão irrefutável. Todos, tudo estava só, mas tudo se cabia perfeitamente dentro de cada parte mínima. E naquele momento eu me coube em mim e sorri com lágrimas nos olhos.